UNIÃO EUROPEIA: A GUERRA QUE POR AÍ PODE
CHEGAR,
por Rodolphe Pourrade
Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota
(conclusão)
7. Itália
Depois do golpe de estado de Mário Monti, o professor elogiado por toda a imprensa bem pensante na Europa, este sentiu o gosto desagradável da ida às urnas . As eleições prometem na melhor das hipóteses um governo de coligação sem qualquer consistência e sem qualquer margem de manobra. Mas, com uma taxa de participação muito baixa para a Itália, a campanha claramente muito anti-europeia feita por Berlusconi e o enorme sucesso do movimento 5 estrelas liderado pelo comediante Beppe Grillo que quer sobretudo que se faça um referendo sobre a saída do euro, é o conjunto de casta bancária de Bruxelas que é aqui fortemente recusada. Quase 6 em cada dez eleitores, educadamente, disse-lhes educadamente “vaffancullo” , vá levar no…cú! Até ao momento os remédios de Mário Monti só deram como perspectiva um aumento contínuo do desemprego e uma recessão de – 1% prevista para 2013.
8 . Grâ-Bretanha
A recente declaração do conservador Cameron para acrescentar mais picante à situação e para fazer subir a sua parada antes da Cimeira Europeia em que sugeriu a realização de um referendo sobre a saída da EU, diz-nos muito sobre o estado de decomposição avançada do seu governo, do seu partido e do seu país. Há já alguns dias atrás, o país perdeu o famoso AAA de rating . A sua política de austeridade é combatida nas ruas com manifestações de uma dimensão de que a velha Albion já tinha esquecido desde há décadas. É também na Grã-Bretanha que a pobreza progride. O seu aliado da coligação , os Lib-Democratas tiveram um revés eleitoral enorme a quando das eleições parciais. Oficialmente, o reino prevê um crescimento da ordem de 1% no próximo ano mas ao mesmo tempo em que a dívida não deixa de continuar a crescer.
9. Irlanda
Devido a uma tributação mais que generosa para os investidores estrangeiros, o país está este ano a aplicar o seu sexto plano de austeridade. O ano de 2013 deve marcar o regresso da Irlanda aos mercados. No entanto a recuperação económica continua a ser muito tímida, e o país continua sob assistência respiratória do FMI e do BCE desde 2010.
10. Holanda
As últimas eleições legislativas deram a vitória aos trabalhistas e aos liberais pró-europeus. Agora, o país está a enfrentar grandes dificuldades sobretudo desde 2012. Com um PIB que caiu 1,1% no terceiro trimestre de 2012, a economia da Holanda diminui mais rapidamente do que as previsões mais pessimistas. Esta recessão segue-se a dois trimestres de estagnação. O último relatório da UVW – equivalente ao Instituto de Emprego – é alarmante: em 2011, o número de contratos de duração indeterminada assinados durante o ano diminuiu de 97%, passando de 83.000 em 2010 para 2.000 no ano seguinte. Além disso, o Organismo do Plano prevê uma diminuição do poder de compra de 25% para os reformados e de 30% para os beneficiários da assistência social no próximo ano… Quanto às previsões para 2013, estas sugerem um declínio no PIB na ordem de 0,4%.
11. França
A França vai bater um recorde quanto ao número dos seus desempregados. Se nós tomamos como referência os desempregados sem qualquer actividade e em França o país vai passar a fasquia dos 3,2 milhões. Considerando-se os domínios de além-mar e outras categorias de desempregados, a fasquia de 5 milhões é então atingida. O crescimento deve ser, na melhor das hipóteses, ligeiramente maior que 0. Para o ano fiscal de 2014, faltam já, em Fevereiro de 2013, 6 mil milhões de euros. A redução do défice público será modesta. No melhor, ficar-se-à pelos 3,7%. Como por toda a parte, a proposta de remédio para a cura é bem pior que a doença: acentuação das políticas de rigor, seja por cortes nas despesas públicas seja ainda pelo aumento da tributação. Por outras palavras, todos os indicadores estão no vermelho, mas acelera-se ainda mais para rapidamente perder a carta de condução. Felizmente, a situação social é calma e a França parece estar num estado de sonolência. Desembaraçada da heresia sarkozysta a França gastou num só mês 100 milhões de euros no Mali. O ano de 2013 será sem eleições, a juventude terá uma taxa de desemprego que será cerca de 30% para esta faixa etária , os reformados curvarão a espinha face ao aumento da sua tributação, os consumidores reduzirão ligeiramente os seus gastos face ao aumento do IVA, os funcionários vergar-se-ão voluntariamente face aos congelamento dos seus pontos de índice. A Presidência de François Hollande não mudou em nada a política económica seguida antes pelo seu antecessor, os descontentes só saem às ruas para impedir que os homossexuais se possam casar. Circulem, não há nada para ver.
12. Alemanha
A saúde da Alemanha é o barómetro europeu mais confiável. Ora, a maioria dos seus indicadores estão no vermelho . Este último trimestre foi marcado por uma forte queda no PIB além Reno . Tradicionalmente são as exportações alemãs que impulsionam o seu crescimento. No entanto, estas fazem-se principalmente com os parceiros europeus que agora começam a debater-se com dificuldades para importarem . As previsão para 2013 são pessimistas e vão, não haja dúvida, ainda degradarem-se ainda mais nos próximos meses. O seu PIB deverá crescer não mais que 0,5%, de acordo com Bruxelas. Nada nos diz que a calma social continuará aí a reinar de forma duradoura .A compressão dos salários que durou quase 10 anos atingiu já os seus limites. As medidas de desemprego parcial e de flexibilidade que têm sido tão cheias de elogiadas não nos parecem agora capazes de preencher as falhas de sistema: Thyssenkrupp, o número 1 do aço por exemplo planeia eliminar 2.000 postos de trabalho . O ano de 2013 é um ano de eleições na Alemanha. A recondução de mandato para Merkel se manter no poder significará que esta irá assinar um novo contrato de 5 anos com a iníqua austeridade que está a atingir toda a Europa. A chegada dos social-democratas não iria perturbar ou mudar as coisas nesta frente . A menos que haja uma surpresa ou um colapso espectacular da economia alemã, tudo indica que o fundo macroeconómico desta Europa não irá evoluir significativamente na sequência destas eleições. A Alemanha é bem a chave fundamental deste non sense da política continental.
Esta visão geral da situação do velho continente neste início de 2013, nunca deixa de nos surpreender. O caos político e social está assim instalado e instala-se no quadro de um enorme torpor. Os medos emergem, o pensar apenas em si aumenta , a xenofobia está enraizada em todos os lugares, mas basicamente nada parece estar em condições de amadurecimento para ser capaz de se mudar. A globalização é um processo imparável, dizem-nos por todos os lados, a única maneira é a de nos termos que nos adaptar. Os bancos são grandes demais para serem regulados ou abandonados, deixemo-los então fazerem. O mundo é complexo, o estrangeiro é de contornos não definidos, ignoremos então a Síria, o Egipto e a Tunísia. Os Estados Unidos são os nossos amigos, empenhemo-nos então em conjunto para criar um mercado transatlântico em comum. As regiões são o futuro, deixemos então os Estados decomporem-se. Raramente na história uma tal renúncia à escala de todo um continente de 600 milhões de almas foi tão manifesto. “Que bom?” essa é a filosofia dominante nos media e nos discursos. Quanto aos actos, é necessário encontrar para cada medida voluntarista o seu dique correspondente para limitar a extensão dos seus efeitos e para a tornar mesmo inoperante. O imigrante enquanto bode expiatório tem ainda belos dias à sua frente mas em toda parte o que é que se ouve ? Em Paris, Lisboa ou Atenas: os culpados são os alemães . Em Barcelona ouve-se : a culpa é de Madrid. Na Flandres, a culpa para os valões. Na Inglaterra, a culpa é de Bruxelas que nos desprezam ! Na Lombardia: expulsem os sicilianos ! O nacionalismo, o regionalismo são os recursos fáceis para os povos em grande dificuldade. O simples aparecimento e crescimento de Aurora Dourada, partido neo-nazi grego, deve preocupar-nos e bem seriamente. Mas nada é feito, a UE não tem nada a oferecer aos povos que a compõem que não seja as milícias, as rusgas, os abusos, as violências .
O salto consentido para o abismo atrai decididamente os governantes europeus, enquanto que os povos, ignorados, contornados, desprezados do “Atlântico aos Urais” perdem as suas referências e não tem outra escolha que não seja a de fecharem as suas portas e janelas, barricando-se, enquanto se espera a deflagração.

