Pentacórdio para Sábado 9 de Março

por Rui Oliveira

 

 

 

   Não havendo neste Sábado 9 de Março nenhum espectáculo em particular a destacar, comecemos por uma NOTÍCIA EM ATRASO ainda com oportunidade.

 

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   Referimo-nos ao que o Espaço Brasil (na LX Factory – Rua Rodrigues de Faria, nº 103 – Armazém L, Lisboa) constituido para a celebração do “Ano Brasil/Portugal” designou por a Semana Mil Faces do Brasil, a qual começa exactamente hoje Quinta-feira, às 22h30, com o show de Dona Glorinha do Côco. Na Sexta-feira, é a vez do Mestre Bule Bule agitar o Espaço Brasil. No sábado, excepcionalmente NÃO HAVERÁ show, mas Dona Onete receberá o público no domingo, às 16h, seguida por Passoca, que sobe ao palco às 18h.

   Novidade atractiva é que, pelo menos nesta semana, a entrada é gratuita.

 

   Em breve notícia, diríamos do show  do dia 7 de Março (Quinta) que Mestra Glorinha, como  memória viva que é da comunidade Vila dos Pescadores, apresenta ao público o ritmo coco, originalmente criado no estado de Alagoas.

mestra-glorinha do coco 01-g   Neta de Maria Joana, escrava alforriada de um engenho em Catende no século XIX, e filha de Maria Belém, mulher fundamental para a história do carnaval de Olinda, Dona Glorinha (Maria da Glória Braz de Almeida) é actualmente a mestra mais velha do Amaro Branco.

   Dando continuidade ao legado deixado por sua mãe, uma das fundadoras do Acorda Povo, folguedo que já contabiliza quase 60 anos, Dona Glorinha organiza durante o dia de São João, uma sambada animada e frequentada por todos os moradores do bairro e adjacências.

   Ela teve seu primeiro registro fonográfico na colectânea “Coco do Amaro Branco Vol. 2”, ao lado de Edmilson Bispo, mestre Pombo Roxo e outros artistas de grande relevância para o coco na comunidade, com músicas de Dona Maria Belém e de domínio público.

   Mestra Glorinha participou mais recentemente no novo CD do coquista Cutia, do Amaro Branco e lançou no São João 2012 da Cãmara Municipal de Olinda, o seu primeiro CD solo, gravado em Março de 2012.

   Esta é a amostra possível de algumas das suas músicas :

 

 

bule bule divulgacao - Copy   No show de Sexta 8, às 22h30,“Cordealizando a Canção”, o poeta repentista e compositor Bule Bule apresenta, nas suas canções autorais com linguagem directa e simples (porém interessante e bem humorada), a vida nordestina.

   O artista que nasceu em 1947 na Bahia, tem mais de 40 anos de carreira e nesta trajectória já gravou oito álbuns. Além da música, Antônio Ribeiro da Conceição (nome de baptismo do mestre Bule Bule), também é apaixonado pela literatura, com mais de oitenta “cordéis” (expressão brasileira para pequenos títulos) escritos.

   «E foi do cordel que surgiu a idéia para fazer o show “Cordealizando a Canção“, pois era cantando que os cordelístas vendiam os seus livretos. Actualmente esta cultura vem desaparecendo do convívio dos jovens, por isso Bule Bule quis fazer o show para não deixar o Cordel sumir» (explica o Espaço Brasil).

   Mostramos-lhe o registo em 2012 do seu tema “O Bicho Pega” :

 

 

 

   Entrando agora no Sábado 9 de Março, teremos nesse dia, às 21h, no Auditório da NOVA (Campus de Campolide) o concerto que consagra o vencedor do Concurso Jovens Flautistas 2012 a quem cabe o “Prémio Caixa Geral de Depósitos”.jovens flautistas OML

   Resultado de um acordo entre a Metropolitana e o São Luiz Teatro Municipal, há anualmente um concurso para novos intérpretes no âmbito do Festival para um Instrumento (a flauta em 2012). O prémio, atribuído pela Caixa Geral de Depósitos, garante ao vencedor a oportunidade de se apresentar como solista à frente da Orquestra Metropolitana de Lisboa na temporada seguinte.

   Neste concerto que consagra a sua vitória, o flautista Rui Borges Maia, que obteve o primeiro lugar na última edição do concurso, interpreta uma obra de referência do repertório para este instrumento e reencontra em palco Jacques Zoon, seu professor na Escuela Superior de Musica Reina Sofia, o qual dirige pela primeira vez a Orquestra Metropolitana de Lisboa.

   No programa do concerto estará então de :

 

      Felix Mendelssohn Abertura As Hébridas, Op. 26

      Jacques Ibert  –          Concerto para Flauta

      Felix Mendelssohn Sinfonia n.º 3, Escocesa

 

   Dizem as notas do programa de Rui Campos Leitão que «… de entre todos os concertos para flauta e orquestra existentes, este assinado pelo francês Jacques Ibert conta-se seguramente entre os que gozam de maior preferência entre o universo dos flautistas. Não é fruto do acaso que assim aconteça. Com efeito, é difícil lembrarmo-nos de qualquer outro em que seja tão bem conseguido o equilíbrio que se estabelece entre o galopante virtuosismo técnico e a versatilidade expressiva que distinguem este instrumento. Estamos assim diante de um dos mais emblemáticos cartões de visita no que se refere à flauta transversal …

 … De alguma forma, é possível reconhecer todas estas facetas nesta obra que foi estreada pelo célebre flautista francês Marcel Moyse num concerto transmitido em directo pela rádio em 1934. Bastante além de uma demonstração da paleta de recursos própria do instrumento solista, é música que nos imerge numa orquestração de grande efeito, que nos desafia a interpretar em cada momento o que acontece.

   No primeiro andamento os temas melódicos principais são apresentados pela flauta, seguidos de uma muito fantasiosa recreação sobre os mesmos. No segundo, um andante, afirma-se uma melodia interminável, sobre ambiências melancólicas propícias a que sobressaiam discretos diálogos entre as madeiras da orquestra. O andamento final volta a colocar à prova a resistência do solista, confrontando-o com os acordes contundentes da orquestra. Pelo meio, reconhece-se um sinuoso ritmo de valsa».

 

   Não havendo obviamente registo por Rui Borges Maia deste “Concerto pour Flute et Orchestre”, deixamos por curiosidade esta boa gravação integral (de 1934 !) da exibição de estreia desta peça de Jacques Ibert (então ainda vivo) pela Orquestra da French Gramophone dirigida por Eugène Bigot com o referido célebre Marcel Moyse na flauta :

 

 

  

best youth-we trust   Também no Sábado 9 de Março há no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, às 21h, o espectáculo “There must be a place”, local onde os conjuntos Best Youth e  We Trust, associados desde o Verão de 2012 para uma digressão conjunta, irão apresentar o seu projecto comum que já deu origem à edição de um CD com aquele título.

There_Must_Be_a_Place   No palco estarão André Tentugal guitarra e voz, Eduardo Gonçalves guitarra e voz, Catarina Salinas voz, Nuno Sarafa bateria, Sofia Ribeiro teclas e Fernando Sousa baixo com alguns convidados especiais para, num concerto único que marcará a fase final da sua viagem, divulgarem  There Must Be a Place onde (diz o programa) “as músicas são descontruídas, adaptadas e reconstruídas, dando origem a um lugar diferente e de certa forma novo, para ambos os grupos”.

   Conheçam aqui uma canção (“Tell Me Something”) deste seu primeiro álbum There must be a Place :

 

 

 

tiago_sousa_ - Copy   Ainda no Sábado, 9 de Março, às 18h, é possível testemunharmos, em primeira mão, no Laboratorio Chimico do Museu de História Natural e da Ciência, a apresentação de “Samsara”  de Tiago Sousa.

   «Depois de lançar ‘Walden Pond’s Monk’, − diz a ZDB que patrocina o evento − Tiago Sousa volta às edições, reincidindo pela norte-americana Immune records, com o seu primeiro disco de piano solo “Samsara”. Um disco intrincado e de narrativa complexa, que pega neste conceito da filosofia oriental para construir uma peça arrojada e emocionante que marca pela forma harmoniosa como o músico barreirense consegue equilibrar os opostos. ‘Samsara’, para diferentes manifestações da cultura oriental, é o ciclo repetitivo da vida: nascimento, morte e reencarnação; significa um vaguear perpétuo pelos diversos estados de existência.’Samsara’ surge, assim, para Tiago Sousa, como metáfora para o fluxo da criatividade humana e a forma como este continuamente altera a nossa percepção da realidade ao mesmo tempo que lança novos desafios …».

   Entretanto ao Onda Jazz, às 22h30 do mesmo Sábado 9 de Março regressa o Victor Zamora Trio, “cliente” habitual que reune o piano de Victor Zamora ao contrabaixo de Leo Espinosa e à bateria de José Salgueiro, um conjunto de provas dadas no jazz nacional.

 

   Indo até ao cinema marginal dos circuitos comerciais, voltamos a chamar a atenção para a programação original do Teatro do Bairro onde, neste Sábado 9 imediatamente posterior ao Dia Internacional dos Direitos das Mulheres, a Rede 8 de Março organizou o que chamou “O Lado F da Arte”, conjunto de eventos de entrada livre.

cropped-pack_frente_feminismo_web   Perguntam : «Através do cinema, do debate, do teatro e da música, o feminismo surge na celebração da sua pluralidade e das suas possibilidades. O desafio está lançado: pode a arte ser feminista? Quais são então as questões feministas? Transformamos o mundo a partir do palco? Que corpo é esse que é filmado? Tudo é comprometimento? Não podemos dançar simplesmente? Qual é o lado F? Neste dia conjugam-se todos os outros. Não estamos a cumprir o calendário. Queremos o futuro agora». (ver programação completa  em http://rede8marco.wordpress.com/ )

   Há uma mini-mostra de cinema feminista :  

   Às 15.00 “O Pessoal é Político” ; às 16.20 “A minha avó também é feminista” ; às 17.45 “Des-Construir”.

   Segue-se às 19h uma conversa “O que pode ser o cinema feminista? “ com Valérie Mitteaux, Raquel Freire, Rita Blanco e Sofia Roque.

   Às 22.00 representa-se “A Virgem Doida”– Teatro Strip, um espectáculo de Mónica Calle despido de tabus, de preconceitos e de culpa.

   A actriz apresenta o texto de Rimbaud, que esteve na base da sua primeira criação na Casa Conveniente. Mas, vinte anos depois, tudo é diferente. As circunstâncias são outras, ela é outra, o país é outro. Neste espectáculo, Mónica Calle em vez de fazer o percurso da “virgem doida” faz o seu percurso, com uma representação radical usando o corpo como espaço de afirmação, de aproximação e de partilha de desejos e de liberdades.

 

   E em cinema é justo lembrar sempre a actividade da Cinemateca Nacional, actualmente com algumas (escusadas) dificuldades, onde prosseguem ciclos vários de mérito indiscutível.

kiarostami   Neste Sábado 9 de Março (como aliás ao longo de todo o mês) o ciclo “O Primeiro Século do Cinema”(1895-1995), que tem por regra misturar filmes clássicos e obras raras ou esquecidas,  mostra diversas películas (Onna Ga Kaidan o Agaru Toki ou Quando uma Mulher Sobe as Escadas de Mikio Naruse, Japão, 1960, La Nuit du Carrefour de Jean Renoir, França, 1935, Alsace ou “Alsácia” de Henri Pouctal, França, 1915 e Mai 68 de Gudie Lewaetz, França, 1974) e sobretudo uma, que a própria Cinemateca destaca, o filme de Abbas Kiarostami chamado Va Zendegi Edame Darad “ ou “E a Vida Continua” (Irão, 1992) com Farad Kheradmand, Puya Payvar, Hossen Rezai nos principais papéis.

   Sinopse : Em 1990, no Irão devastado pelo tremor de terra, um realizador de cinema e o filho fazem uma viagem de carro no interior da região à procura das crianças do filme “Onde fica a casa do meu Amigo ?” (que a Cinemateca exibiu em Fevereiro). Uma viagem através das ruínas e da destruição, onde apesar de tudo a vida continua, por um dos mestres incontestados do cinema contemporâneo, que mistura humanismo e total domínio formal.

   O leitor cinéfilo interessado que não puder estar na Sala Dr. Félix Ribeiro às 21h30 tem aqui a cópia integral (agradecendo ao YouTube) de “Life, and nothing more”, a versão legendada em inglês do filme de Kiarostami :

 

 

 

   Como conferências/debate interessantes mencionaremos duas de temas muito diferentes.

   Na Casa da Achada, às 18h deste Sábado, 9 de Março, organizado pela Unipop, discute-se “Niemeyer, Brasília e a Cidade Moderna”, com a participação de Ana Vaz Milheiro, Bruno Lamas, Jorge Figueira, Manuel Graça Dias e Tiago Mota Saraiva.

untitled   Diz-se na convocatória que «… mais do que uma evocação de Niemeyer ou uma discussão sobre o exemplo concreto de Brasília, a Unipop e a revista Imprópria propõem um debate que, partindo daí, aborde esses diversos cruzamentos sob a perspectiva da cidade moderna.»

  … Em conjunto, a obra e o percurso de Niemeyer, o plano e a construção de Brasília e os princípios do urbanismo e arquitectura modernos, podem de certo modo ser vistos como diferentes níveis de análise sobre o complexo papel social e político da teoria e prática arquitectónica moderna na história do século XX: as suas contradições e aporias, convergências e divergências, apologias e críticas…

  … No urbanismo e na arquitectura modernistas, e naturalmente também em Niemeyer e Brasília, cruzam-se assim de forma ambígua diversos temas do pensamento social, político e cultural moderno (utopia e ideologia, capitalismo e socialismo, revolução e reformismo, poder e dinheiro, política e arte, etc.), cruzamentos que observados retrospectivamente revelam problemáticas fundamentais, porventura ainda hoje longe de terem sido verdadeiramente ultrapassadas».

 

 

    Noutro polo da cidade, no Museu Nacional de Arqueologia (aos Jerónimos), às 15h deste Sábado 9 de Março, o Dr. Luís Raposo falará sobre “O Biface de Milharós (Alpiarça)”, como a “peça do mês” do MNA que é o museu português que possui no seu acervo a maior quantidade de peças classificadas como “tesouros nacionais”.

LuisRaposo_1000   Todos os períodos cronológicos e culturais, e também todos os tipos de peças, desde a mais remota pré-História até épocas recentes, neste caso com relevo para as peças etnográficas, estão representados no MNA, acrescentando-se às colecções portuguesas as estrangeiras, igualmente de períodos e regiões muito diversificadas.

biface   Os bifaces constituem o mais antigo instrumento de pedra lascada bem padronizado do Paleolítico Inferior. Constituem ainda a mais emblemática, a mais duradoura, a mais amplamente distribuída e ainda a mais enigmática ferramenta da história humana. Existem em todo o continente africano, na Ásia Menor, até á Índia, e na Europa Central e Ocidental. São datados desde há quase dois milhões de anos, em África (ou desde há cerca de 500 mil anos na Europa) até há menos de há 100 mil anos. Não se conhecem nenhuns povos ditos primitivos que os tenham fabricado, mas sabe-se que eram usados na mão e que serviam um pouco para tudo, furar, cortar, raspar… Por isso o fundador do Museu Nacional de Arqueologia, José Leite de Vasconcelos, lhes chamou os “faz-tudo”.

   Em Alpiarça encontram-se as maiores e mais evoluídos colecções de bifaces registadas no actual território português. Num local escavado por técnicos do MNA, Milharós, foi recolhida uma colecção especialmente notável, onde se inclui o exemplar aqui exposto, fabricado sobre uma grande lasca extraída de núcleo em quartzito, classificado como o mais antigo “tesouro nacional” português.

 

 

(para as razões desta nova forma de Agenda ler aqui ; consultar a agenda de Quinta aqui )

 

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