Pentacórdio para Quarta-feira 13 de Março

por Rui Oliveira

 

 

   São novamente escassos os elementos novos no panorama cultural desta Quarta-feira 13 de Março, mas mesmo assim destacaríamos dois.

 

   Nesse dia a programação do Teatro da Politécnica (actual sede dos Artistas Unidos) inclui dois actos, a estreia duma peça e a inauguração duma exposição.

 

   “Por Tudo e por Nada” é o texto de Nathalie Sarraute, traduzido por Jorge Silva Melo e Pedro Tamen que Jorge Silva Melo (foto esq.) escolheu para encenar.Jorge_Silva_Melo,_feb_2009

   Interpretam-no João Meireles, Pedro Carraca, Andreia Bento e António Filipe, a cenografia e figurinos são de Rita Lopes Alves com uma gravura de Jorge Martins.

   Conta a história de dois homens, um profissional, social e pessoalmente realizado, e o outro, um artista falhado, que se afastaram por causa de um episódio acontecido no passado.por_tudo_e_nada_3  

   Estará em cena até 27 de Abril com sessões de Terça (às 19h) a Sábado (às 16h e às 21h).

 

   Diz o encenador : « Sarraute é uma romancista única, impenetrável. O seu teatro, insinuante e irónico, prolonga o gesto romanesco e amplia-o» … Nas minhas peças não há acção, foi substituída pelo fluxo e refluxo das palavras – reconhece Nathalie Sarraute (aliás Natalia Ilinichna Tcherniak, nascida em Ivanovo, Rússia). «… Uma das escritas mais pertinentes do século XX, vinda da Rússia que já sabemos ter sido de Tcheckhov. Mas a pequena música de Sarraute é uma música fúnebre: alguém está a morrer» e cita em seu apoio este excerto :por tudo e por nada1

   Homem 1 Ouve lá… Queria fazer-te uma pergunta… Foi um bocado por isso que vim… Eu queria saber… Que é que aconteceu? Que é que tu tens contra mim?

   Homem 2 Eu? Nada… Porquê?»

 

 

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   No mesmo intervalo de tempo (de 13 de Março a 27 de Abril) abre no Teatro da Politécnica uma exposição de Sérgio Pombo intitulada “O Corpo e a Linha”.

   Dela diz o director do Teatro : «A pintura de Sérgio Pombo − pintura, desenho, com figuras ou sem, … que nele tudo é … irredutivelmente pintura, mesmo quando é escultura − é tão brilhantemente viva que ofusca, é tão desassombrada que nos assalta o equilíbrio … mas promete-nos o humano, o humano presente, o humano simplesmente, a vida de hoje, esta, sufocantemente bela na sua crueza rápida, na sua imensa solidão.

 

 

360 descoberta 

   O outro evento para que chamaríamos a atenção é a conferência que, no Ciclo de Conferências “360º Ciência Descoberta” (título da exposição a que nos referiremos abaixo) vem proferir, no Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian, às 18h, Annemarie Jordan, investigadora do Centro de História de Além-mar (FCSH/UNL).

   Intitula-se “Os paquidermes do Rei D. Manuel I. Elefantes e outra exótica na menagerie portuguesa”.

   A entrada é livre. Haverá transmissão online : http://www.livestream.com/fcglive e simultânea videodifusão http://live.fccn.pt/fcg/ .

tigre   Sinopse :  Os encontros com novos mundos na Ásia, África e nas Américas proporcionaram à Corte portuguesa uma oportunidade única para obter animais selvagens desconhecidos. O comércio e as relações comerciais trouxeram essas novidades para a Europa, abrindo mercados globais que os colecionadores reais portugueses exploraram com o apoio de comerciantes e agentes. Quanto mais exótico fosse o animal mais era valorizado. Os animais domésticos exóticos davam cor à vida quotidiana, às festas e entretenimentos, desempenhando um papel essencial na criação de colecções reais ao longo do século dezasseis.armadillo das índias As colecções de animais ferozes em jaulas tornaram-se no prolongamento ao ar-livre das Kunstkammer (Gabinetes de Curiosidades) e o coleccionar animais europeus, africanos e asiáticos reflectia, de forma microcósmica, as colecções de raridades no interior, exibidos em jardins sumptuosos, também eles plantados com árvores e flores ornamentais importadas. Os coleccionadores reais na Renascença dedicavam-se a uma cultura de colecções de animais ferozes em jaulas e de jardins, de acordo com a qual animais e plantas, símbolos do poder e prestígio de um proprietário, eram reunidos e plantados para deslumbrar e assombrar.crocodillus terrestres

   São poucos os estudos sobre a cultura da Corte portuguesa na Renascença que se dedicaram ao papel que os animais domésticos e, subsequentemente, durante a Era das Descobertas, os exóticos, desempenharam no imaginário dos monarcas portugueses dos século dezasseis. Adquirir, possuir e exibir animais na Corte ou nos palácios lisboetas e, posteriormente, nas colecções de animais ferozes em jaulas e nos jardins das residências reais portuguesas, tornou-se uma prioridade. A caça e a captura prevaleciam metaforicamente e as colecções de animais e pássaros, domésticos ou importados, constituíam uma componente essencial do aparato, da exibição e do imaginário cultivados na Corte portuguesa ao longo do século dezasseis.

 

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globo celeste de schindler   A muito interessante exposição a que a conferência acima dá apoio foi inaugurada no passado dia 2 de Março sob o título “360ᴼ · Ciência Descoberta“ e é comissariada por Henrique Leitão (Investigador do Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa).

754313   É uma exposição sobre a ciência ibérica na época dos descobrimentos. Apresenta os desenvolvimentos científicos e técnicos associados às grandes viagens oceânicas de Portugueses e Espanhóis nos séculos XV e XVI, e o impacto que causaram na ciência europeia. A exposição procura mostrar os diversos factores que modelaram as ideias e as práticas dos ibéricos nesse período – o fascínio com as novidades do mundo natural americano e asiático, a crítica do saber antigo, o estabelecimento de novas práticas empíricas, a disseminação de conceitos científicos pelos estratos menos instruídos da sociedade, os melhoramentos técnicos, os processos e as instituições de acumulação e gestão de novos conhecimentos – e como estes aspectos jogaram um papel significativo no nascimento da modernidade científica europeia.

planisfério terrestre   O título “360ᴼ – Ciência Descoberta”  faz referência ao núcleo principal da exposição, isto é, ao estabelecimento pelas nações ibéricas de rotas marítimas de escala planetária, e os novos horizontes científicos que elas abriram aos europeus. A exposição estará organizada em torno de quatro zonas temáticas:

      1.A imagem do mundo antes das viagens marítimas;

      2.O contacto com as novidades da geografia, da botânica, da zoologia, etc.;

      3.a criação de novas disciplinas de base matemática e os desenvolvimentos tecnológicos;

      4.O impacto da nova imagem do mundo no surgimento da ciência moderna.

   Este é o spot publicitário que a FCG preparou para a sua divulgação :

 

 

 

 

casaAmericaLatina   Quanto a filmes extra-circuito, a Casa da América Latina tem vindo a divulgar (projectando-os) uma interessante série de 12 documentários realizados por jovens directores e produtoras independentes sobre o que distingue e identifica os latino-americanos”, onde cada documentário mostra a identidade de um país, através do olhar do cineasta.

   “O que significa ter uma nacionalidade? […] É a tal enigma que se entregam os jovens realizadores que aceitaram o desafio da série «Os Latino-Americanos», produzida pela TAL (Televisão América Latina). […] Nestes, o sinal comum mais evidente é a sobreposição da fragmentação à utopia da identidade. E é daí que o conjunto adquire sua maior força. Em vez de ceder aos encantos do folclórico ou buscar nas raízes uma suposta identidade fundada em bases míticas tampouco certas, os jovens documentaristas do projecto preferiram auscultar o presente. […] A estratégia comum aos trabalhos é percorrer os países, entrevistando gente comum….”. 

   O penúltimo, sobre “Os Argentinos” é exibido na Quarta-feira 20 de Março, enquanto o último sobre “Os Uruguaios”, será projectadodo na CAL na Quarta-feira 27 de Março, sempre às 19h.

3_0974294001354624583   Nesta Quarta-feira 13 de Março exibe-se, às 19h, “Los Mapuches No Existen”, uma curta-metragem documental do realizador, fotógrafo e antropólogo Jorge Castro sobre a comunidade Mapuche hoje, que é um povo indígena da região centro-sul do Chile e do sudoeste da Argentina.

   Ao filme segue-se um debate com o autor, que falará sobre a sua experiência em Santiago do Chile.

   Mostramos-lhe um excerto do documentário :

 

 

 

 

paulo brighenti 1 - Copy   Por último, chamemos a atenção para que encerra no próximo Sábado 16 de Março (adiado entretanto para 6 de Abril!) na Galeria Baginski (Rua Capitão Leitão, nº 51-53, Lisboa) a exposição de Paulo Brighenti (a sua terceira nesta Galeria) que chamou de “Chama Dupla”.

paulo brighenti   Apresenta um trabalho inédito de pintura, desenho, aguarela e objectos, em continuidade com investigação que desenvolve sobre a luz e a cor.

   «O espectáculo de circo no qual se baseia o título da exposição … − diz Jorge Catarino ao apresentar a exposição −, e que resulta do esforço de equilíbrio permanente entre forças opostas, funciona como metáfora para uma reflexão sobre a vida e a morte. O jogo de distâncias das polaridades é afinal testemunha da sua infinita proximidade, onde natureza autónoma de cada um se afirma necessariamente pela existência negociada com o seu contrário. Esta interdependência dos valores antagónicos é manifestada no trabalho de Paulo Brighenti com o diálogo entre positivo e negativo, pequeno e grande, escuro e luminoso, manifestando o seu carácter simultaneamente próximo e distante».

paulo brighenti 2   E Celso Martins (in Atual), que lhe atribui nota máxima, acrescenta : «Se a pintura de Brighenti tem quase sempre sido uma busca do que é latente, obscuro ou transitório, na série “Chama Dupla” essa evanescência reforça-se e repousa sobre coisas aparentemente mais insignificantes, subtis, mas também por isso de uma intensidade alargada … Veja-se o olho imenso que não sabemos se nos olha ou se simplesmente existe diante do nosso olhar, ou outro que parece passado a infravermelhos, ou a superfície aparentemente côncava na pintura que dá nome à exposição que não sabemos se representa uma parede ou uma porta para se entender o poder dessa oscilação. As aguarelas são igualmente subtis na sua caligrafia pitoresca de apontamentos vegetais apenas esboçados e com os óleos são parte de um mundo que tão depressa parece incitar-nos a entrarmos nele como deposita entre nós e o que vemos um irremediável véu».

   Em suma, a visitar.paulo brighenti 0

 

 

 

(para as razões desta nova forma de Agenda ler aqui ; consultar a agenda de Segunda aqui)

 

 

 

 

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