EDITORIAL: O MAU ALUNO CIPRIOTA

Diário de Bordo - II

 

Chipre pediu apoio financeiro à União Europeia. Então o eurogrupo resolveu taxar os depósitos bancários da ilha, a pretexto de cobrir desta maneira uma parte do montante necessário para o resgate. Foi tremenda a reacção. Chipre funciona como paraíso fiscal, o que parece não ter livrado o país da crise financeira e das garras da UE e da zona euro. Tem lá muitos depósitos legais e ilegais provenientes de outros países, entre os quais se destaca a Rússia. Há o risco de que as novas taxas façam fugir esses depósitos, o que deixaria a ilha financeiramente em muito maus lençóis. Para já o parlamento cipriota rejeitou a medida. Tem havido grande mobilização devido à situação, com manifestações nas ruas e sondagens indicam que a maioria da população é favorável à saída do euro.

O governo projecta vender um banco à Rússia para assim encontrar os meios que lhe permitam colmatar a falta de fundos. Entretanto, procura-se formar um fundo financeiro internamente, reunindo fundos de pensões, e com a participação de várias entidades, incluindo a Igreja Ortodoxa cipriota, que pôs os seus bens à disposição para fazer fase à crise. Fala-se em lançar obrigações no mercado primário, e procurar iniciar a exploração das jazidas de gás natural que existem nas águas territoriais, com o auxílio da Rússia.

A mobilização face à crise, neste pequeno país de 9200 quilómetros quadrados e perto de 800 000 habitantes, parece ser muito importante e estar a processar-se em moldes muito diferentes do que ocorreu em Portugal. O gesto do patriarca Chrysostomos II é notável, sobretudo quando comparado com a atitude da igreja católica. Os bancos também parecem muito mais colaborantes. Contudo, a localização geográfica de Chipre, no Mediterrâneo Oriental, perto da Síria, do Líbano e de Israel, e sobretudo o facto de parte do seu território continuar ocupado pela Turquia, poderão vir a constituir factores desfavoráveis. Pressões políticas poderão vir a ser desencadeadas por diversas vias, até porque as chamadas potências ocidentais temem claramente o aumento da influência russa na zona.

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