RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

mapa itália

Itália: o Dragão e o grilo

Marc Chandler

Parte III

(conclusão)

Os títulos  italianos, acções e obrigações,  têm recuperado grande parte das perdas iniciais verificadas  no rescaldo das eleições. A Itália está entre os países com menor défice na Europa e é mesmo o único país com um excedente primário. Para o serviço da sua dívida, no entanto, a Itália tem de vender mensalmente 30 mil milhões de euros em bens e em títulos. Ela  está a tentar  agora alargar   os prazos de vencimento, em que  a média já está no limite superior da zona euro  (um pouco mais de 7 anos).

Há relatos de que o BCE esteve  de modo contemplativo  a deixar  a Troika  fazer o seu trabalho (EU, FMI e BCE), mas como não se tratava  de  nenhum grupo formal enquanto tal  os relatórios foram pura e simplesmente desmentidos pelo BCE. No entanto, a semente da verdade será a de que o BCE está cada vez mais isolado dentro do grupo que agiu como sendo o juiz financeiro e como sendo igualmente o  júri dos países soberanos da zona euro.

A União Europeia está a considerar dar a vários países um tempo extra para estes consigam alcançar as suas metas orçamentais.  O FMI tem, um pouco tardiamente, reconhecido  que o multiplicador orçamental  (o impacto de um corte nas despesas públicas na economia global) é maior do que o multiplicador anteriormente adoptado.  Tudo isto é mais simpático para uma participação do sector oficial na reestruturação da  dívida,  tal como na Grécia, embora insista que tal concessão está  excluída.  Lagarde, Director-Geral do FMI, também apelou ao  BCE para cortar nas suas taxas e reiterou este seu apelo ao longo dos últimos dias.

Lagarde reconhece que uma  taxa de  inflação mais baixa e salários menores  na periferia requer  que haja uma  inflação um pouco mais elevada e salários mais altos em países como a Alemanha, ideia esta que o BCE está relutante em assumir.  Ainda, muito recentemente,  o governo alemão aceitou conceder  aos seus funcionários civis, via a frente sindical VERDI,  um acordo de 2 anos em 9 de Março com  um aumento de salário  que é superior à taxa de inflação em 5,6%.   Este acordo  inclui um aumento de  2,65% este ano, com efeitos retroactivos a 1 de Janeiro e um outro  aumento  de 2,95%  em Janeiro  próximo.  O acordo tem efeitos  sobre 15 Estados alemães.  Apenas o Hesse, que não faz parte do acordo colectivo, não participa formalmente no acordo alcançado.

A inflação alemã ficou em 1,5% em Fevereiro, a taxa mais baixa  desde Dezembro de 2010.  Relembremos  que  em Março passado os trabalhadores municipais e federais receberam um aumento salarial de 6,3% em dois anos.  Mesmo se  os cínicos têm razão  e as considerações eleitorais (eleição em Setembro)  estão a desempenhar o seu  papel, o facto é que o aumento dos custos de trabalho na Alemanha podem  ajudar o reequilíbrio do crescimento na zona euro e muito  mais do que a dura austeridade sozinha na periferia.

Um dragão, pode Mário Draghi ser,  mas como dragão Draghi não pode  mais continuar a lançar chispas  de fogo como força de  ataque. A barra alta imposta para desencadear as OMT significam  que este programa não pode ser implementado rapidamente, nem sequer pode ser visto como fazendo  parte de um programa de resposta à  crise.  Com a taxa dos depósitos a  taxa zero como sendo a verdadeira  âncora para as taxas de curto prazo,  mesmo um corte de 25 pb  na taxa de refinanciamento de  75 pb só terá um impacto mínimo.  A flexibilização de regras de garantias  continua a ser possível, mas há uma relutância, especialmente pela parte das nações credoras,  o que acarreta  o risco de enfraquecer mais o balanço do BCE.

Enquanto isso, a bola está no campo dos grilos.  Grillo e o movimento M5S é  muito dificilmente  um partido político, embora seja claramente uma força com que se deve ou se tem de  contar.   Alguns dos pontos do seu  programa poderão provavelmente ser assimilados pela direita ou  pela esquerda, consoante.  Mais do que um pouco tarde, ou seja tardíssimo, Monti    suavizou os seus  impulsos de  austeridade nos últimos dias da campanha.  A eleição pode vir a ser uma catarse, uma expressão de frustração e de  insatisfação com a elite política na Itália, mas o corpo político italiano, esse,  não está propriamente prestes a auto-decapitar-se.

Marc Chandler,   Italy: The Dragon and the Cricket, texto publicado  em diversos sites entre os quais Zero Hedge, Insider Business, Marc To Market e  e outros mais.

http://www.marctomarket.com/2013/03/italy-dragon-and-cricket.html

Nota. Marc Chandler is the head of global currency strategy at Brown Brothers Harriman.

 (see our previous analysis of Monti here)

This piece is cross-posted from Marc to Market with permission.

Filed under: Europe

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