O GARDEN- PARTY, de Katherine Mansfield – V- por João Machado

Hoje, antes da V parte da tradução de´João Machado de The Garden Party, de Katherine Mansfield, temos um pequeno conto lido (magnificamente) por Eve Karpfe, num vídeo editado por Robert Nichol Audioproductions, London.

O GARDEN- PARTY – V

Era realmente extravagante, pois as casinhas ficavam numa travessa só delas, mesmo ao fundo de uma ladeira que conduzia à casa. Havia uma estrada larga de permeio. Era verdade que não deveriam estar ali tão perto. Constituíam uma ofensa para a vista, e não tinham qualquer direito de estar ali ao pé. Eram moradias muito humildes pintadas a castanho chocolate. Nas nesgas ajardinadas só se viam caules de couve, galinhas doentes e latas de tomate. Até o fumo que saía das chaminés tinha um ar de pobreza. Aos bocadinhos e a retalhos, tão diferente das grandes plumas prateadas que se desenrolavam da chaminé dos Sheridan. Viviam na travessa lavadeiras, varredores e um sapateiro, além de um homem cuja casa tinha a frente toda coberta com gaiolas de aves minúsculas. As crianças enxameavam. Quando os Sheridan ainda eram pequenos estavam proibidos de pôr ali os pés por causa da linguagem grosseira e das doenças que poderiam apanhar. Mas quando cresceram, a Laura e o Laurie  passeavam às vezes por ali. Era repugnante e sórdido. Voltavam de lá sobressaltados. Mas era preciso ir a todo o lado; devia ver-se tudo. Por isso lá iam eles.

― E pensa no que vai custar à pobre mulher estar a ouvir a orquestra, ― disse Laura.

― Oh, Laura! ―Jose estava a começar a ficar seriamente preocupada. ― Se proibires uma orquestra de tocar sempre que alguém tem um desastre, vais ter uma vida muito agitada. Tenho tanta pena do que aconteceu quanto tu. Também sinto muita pena. ― Os olhos dela endureceram. Olhou para a irmã da mesma maneira como quando eram pequenas e andavam à zaragata. ―Não consegues fazer ressuscitar um trabalhador bêbedo com sentimentalismos, ― disse suavemente.

― Bêbedo! Quem foi que disse que ele estava bêbedo? ― Laura olhou furiosa para Jose. Disse, tal como costumavam em ocasiões assim, ― Vou já dizer à mãe.

― Vai, querida,― provocou Jose.

― Mãe, posso entrar no seu quarto? ― Laura fez girar o puxador de vidro da porta.

― Claro, filha. O que se passa? Porque estás tão corada? ― E a Senhora Sheridan levantou-se da mesa de vestir. Tinha estado a experimentar um chapéu novo.

― Mãe, morreu um homem, ― começou Laura.

― Aqui no nosso jardim? ― interrompeu a mãe.

― Não, não!

― Que susto me pregaste! ― A Senhora Sheridansuspirou de alívio, tirou o chapéu grande e poisou-o nos joelhos.

― Mas oiça, mãe, ―disse Laura. Ofegante, meio engasgada, contou a história terrível. ― Claro que não podemos dar a nossa festa, pois não? ―implorou ela. ― Com a orquestra e toda a gente a virem por aí. Vão ouvir-nos, mãe; são praticamente nossos vizinhos!

Para espanto de Laura a mãe reagiu tal qual Jose; era ainda mais difícil de suportar com o ar divertido dela. Recusou levar Laura a sério.

― Mas, minha querida filha, sê razoável. Só soubemos disso por acaso. Se alguém tivesse morrido naturalmente – e não consigo perceber como conseguem viver naqueles buraquinhos tão acanhados ― nós teríamos a nossa festa à mesma, não é verdade?

Laura teve de responder que sim àquele raciocínio, mas sentia que estava tudo errado. Sentou-se no sofá da mãe e beliscou o folho da almofada.

― Mãe, é uma grande falta de sentimentos da nossa parte, não é?―perguntou.

― Querida! ― A Senhora Sheridan levantou-se e veio até ela, com o chapéu na mão. Antes que Laura a pudesse deter, colocou-lho na cabeça. ― Minha filha! ―disse a mãe, ― o chapéu é teu. É como se tivesse sido feito de propósito para ti. É demasiado juvenil para mim. Nunca te tinha visto a parecer tal e qual um quadro. Vê-te ao espelho!― E passou-lhe um espelho para a mão.

― Mas, mãe, ―Laura ia a começar outra vez. Não conseguia ver-se ao espelho; voltou-se.

Desta vez a Senhora Sheridan perdeu a paciência, tal como Jose anteriormente.

― Estás a portar-te de uma forma completamente absurda, Laura, ― disse friamente. ― Pessoas como aquelas não esperam sacrifícios da nossa parte. E não é muito simpático estragar a boa disposição dos outros como agora estás a fazer.

― Não compreendo, ― disse Laura, e saiu imediatamente do quarto da mãe e foi refugiar-se no seu. Aí, por acaso, a primeira coisa que viu foi uma rapariga encantadora ao espelho, com um chapéu preto ataviado com margaridas douradas, e uma longa fita de veludo preto. Ela nunca tinha pensado que podia ter aquele aspecto. Será que a mãe tem razão? pensou ela. E agora desejava que a mãe tivesse razão. Estarei a ser extravagante? Talvez fosse extravagante. Veio-lhe um vislumbre instantâneo da pobre mulher e das crianças pequenas, e do corpo a ser transportado para casa. Mas tudo lhe aparecia nublado, irreal, como uma fotografia no jornal. Vou pensar nisto quando a festa acabar, decidiu. E de algum modo pareceu-lhe ser o melhor a fazer…

O almoço acabou lá para a uma e meia. Às duas e meia estava tudo preparado para a batalha. Tinha chegado a orquestra, com os músicos de casaco verde, e instalaram-na num canto do campo de ténis.

― Minha querida! ―trinouKittyMaitland, ―não achas que são tal e qual rãs? Devias tê-los posto à roda do lago, com o maestro ao meio sobre uma folha.

Laurie chegou e cumprimentou-as a caminho de se ir vestir. Ao vê-lo Laura lembrou-se novamente do acidente. Queria contar-lhe. Se Laurie fosse da mesma opinião que os outros, então é que estava mesmo tudo bem. E entrou no átrio atrás dele.

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