CRÓNICA DE FARO Nº 7 – de Júlio Marques Mota

Pequena Crónica de Faro: sobre um país que estão  a fechar, que estão a acorrentar

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Júlio Marques Mota

20 de Março de 2013

 Parte II

(continuação)

Chego ao Algarve e falo com um amigo meu marceneiro, homem de mãos marcadas por obra de classe ao longo de muitos anos talhada. Emprego, pergunto. A resposta? Nem a esperei, vi-a na cara dele. Perguntei-lhe se já tinha ido ao centro de emprego, onde direito a subsídio já não tinha. Diz-me que sim, registou-se como candidato a emprego em obras de carpintaria para a construção e, pasme-se, ofereceram-lhe sem direito a mais nada como compensação a possibilidade de ir ter aulas, gratuitamente, de alemão. Aulas de alemão para um homem desempregado da construção já com 55 anos e, portanto, sem ouvido para aprender alemão ou uma outra língua do mesmo género. Anedótico. Aqui milhares de homens sem emprego e com os prédios da parte histórica de Faro a cair por falta de obras de restauro. E a estes homens, oferecem-lhes aulas de alemão!

De novo percebi e lembrei-me de Edward Hugh, e fiquei a saber que ao nível do governo há gente a pensar que o melhor é fechar a porta e mandar toda a gente embora, possivelmente para a Alemanha, a confirmar que sonho alemão significa pesadelo europeu. Será Passos Coelho ou o Gaspar que irão então desligar as luzes e trancar as portas e adicionalmente, para maior segurança da sua obra malvada, colocar-lhes múltiplas correntes e cadeados para ninguém as conseguir abrir?

Segunda de manhã, saio à rua, corto para a rua Caçadores 4 para revisitar os sítios mais próximos. Dobro a esquina e, do meu lado esquerdo, comercialmente um desastre: uma loja de cortinados, uma outra de artigos de pele de qualidade que foi, um restaurante take-away, tudo fechado, depois, um cabeleireiro aberto que teoricamente funciona mas onde não me lembro de ver entrar ou sair uma cliente e a seguir mais um café fechado, um espaço que pelas normas da ASAE nunca mais será café pela falta de dimensões úteis para café depois de cumpridos os fortes requisitos desta polícia, mais ao serviço dos grandes estabelecimentos do que do consumidor ou do pequeno comerciante. Um quarteirão de lojas fechadas. Simplesmente isso.

Impressionante, Portugal lentamente está a fechar, penso. Chego ao coração do centro da cidade, a rua de Santo António. Percorro-a até ao fim e é o mesmo desastre. Lojas fechadas e o desastre mantém-se até chegar ao pé do Hotel Faro. Tudo dá a entender que se estão a construir pesadas portas de ferro virtuais de pesados e ferrugentos gonzos nas duas entradas da Rua de Santo António, pulmão comercial de Faro, com o governo a informar, saiam, saiam, que as portas vão fechar, fechem as lojas, fechem as casas, fechem os vossos corações, que a maioria já se foi embora. Quando saírem oferecemos cursos de alemão, gratuitamente. E, de novo, penso em Edward Hugh.

Esse é o destino de Portugal se assim o consentirmos e é pois tempo de dizer não a estes lacaios de ladrões maiores, sediados estes em Bruxelas, ladrões encartados a quem tudo é permitido, é tempo de dizer colectivamente não também aos senhores de Bruxelas e dizer não por toda essa Europa fora e gritar bem alto que o tempo do direito à dignidade chegou e com ela chegou também o tempo de exigir responsabilidades pelos crimes social e politicamente cometidos por estas gentes na vida bem instaladas.

Se dúvidas há sobre o que acabamos de afirmar basta-nos ver as ilações que se podem tirar sobre a política europeia para com Chipre. Com efeito, ao impor uma taxa entre 6,75 e 9,9% sobre os depósitos de pequenos e grandes aforradores e ao permitir o bloquear das caixas de multibanco em Chipre, a União Europa avança num caminho altamente perigoso e num momento bem perigoso como este, correndo o risco de provocar uma corrida aos bancos de consequências catastróficas. Do nunca visto, que seja assim o próprio direito comunitário que possa de forma tão ligeiramente estar a ser pisado aos pés dos homens de Bruxelas, diríamos que é inacreditável. Ora se a fuga de capitais já inquieta, e inquieta a partir de países como Portugal, Espanha, Itália, Grécia, Chipre, Irlanda, e possivelmente França dentro de alguns tempos, imagine-se o que poderia acontecer a partir daqui com os milhares de milhões de euros a fugirem de países onde a liquidez é já muitíssimo escassa para andarem à procura de ares para eles mais saudáveis, como os de Berlim, de Zurique, de Oslo, de Londres, por exemplo. Deixar metade da Europa completamente exangue, é obra do Demo. Depois de nos andarem a espoliar aos milhares de milhões para salvar os bancos, eis que agora, depois de tudo isso, lhes atiram, a esses mesmos bancos, diversas bombas de neutrões. Os novos Neros, portanto, mas bem mais perigosos ainda, pois já não é apenas Roma que querem ver a arder, é todo o sul e talvez centro da Europa, a favor de da zona do Norte e em nome do direito que os mesmos Neros modernos estabelecem caso a caso, espoliação a espoliação.

À noite faço o mesmo trajecto e observo os restaurantes, disponível para tentar perceber as classes sociais que aos restaurantes ainda vão, nestes tempos de crise. Passo pelas laterais e transversais à rua de santo António, sigo depois ao largo da Câmara, aos dois restaurantes de gama média que ali estão e o mesmo deserto: num deles, no mais caro deles, por detrás da Sé de Faro, um casal apenas, a um canto. Mais ninguém. Nem para pagar a conta da luz isto poderá dar.

Será que já foi tudo embora, poderia eu ter pensado e de novo relembrei Edward Hugh.

Os aprendizes de feiticeiros que nos governam têm rapidamente de ser substituídos, demitidos, caso contrário não sabemos que hecatombes mais eles serão capazes de provocar. Parece agora confirmar-se a posição de George Kennan em que este concluíra que os europeus tinham tanta falta de visão colectiva ou de entendimento mútuo que o Departamento de Estado teria de “decidir unilateralmente” o que serias bom para eles. Mas os tempos são outros e a América já não é a América do plano Marshall nem Obama tem a força que precisaria de ter, prisioneiro que também ele está de rufias que dão pelo nome não de Bundesbank como na Europa mas de Tea Party. É pena.

E é tudo, mas é também aqui que nos separamos de Edward Hugh que ainda deseja uma Troika para a Espanha, porque permite dinheiro a mais baixa taxa de juro, porque substitui um governo altamente corrupto, porque permite aplicar as violentas reformas estruturais de que a Espanha [NÂO PRECISA, digo eu] e aplicá-las com menor contestação do que feitas pelo actual governo de Rajoy, porque lhes é dado um cariz puramente técnico e de inevitabilidade. Mas a Troika tem um outro nível de corrupção como se vê, para esta parece não haver limites aos direitos de saquear povos indefesos e encurralados por Bruxelas, e quanto às reformas estruturais preconizadas e por esta ordenadas não se viu até agora ninguém ficar melhor pelo facto de as ter seguido. O Direito parou, afinal, onde começa o direito da Troika, casuístico, a actuar, talvez como Cristo parou em Eboli! Talvez Edward Hugh tenha querido dizer que levemos rapidamente esta lógica do absurdo até ao fim para isto rebentar rapidamente antes de ficarmos completamente sem património nacional e ainda muito mais endividados, sem recursos humanos e sem bens de capital, incapazes depois de criar a riqueza para a dívida entretanto aumentada podermos pagar. Talvez assim e pela força da enorme precariedade instalada se possa encontrar uma solução para a crise e tanto mais quanto esta exige, como se demonstra facilmente, um outro modelo de integração europeia, um outro modelo de politica económica e de arquitectura institucional no quadro físico desta União. Se era isto que Edward Hugh queria dizer, não o disse, falou foi da necessidade da Troika implantar as reformas estruturais, o que é bem diferente. Não o disse quanto à saída da crise como atrás o admitimos, mas dizemo-lo nós e dizemo-lo convictamente. E assim as portas de cada um dos países que outros cinicamente já fecharam ou estão a acabar de fechar poderão ser de novo democraticamente reabertas pela força do seu povo.

(continua)

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