CRÓNICA DE FARO Nº 7 – de Júlio Marques Mota

Pequena Crónica de Faro: sobre um país que estão  a fechar, que estão a acorrentar

portugal

Júlio Marques Mota

20 de Março de 2013

Parte III

(CONCLUSÃO)

Estou a acabar a minha crónica. Tocam à campainha, vou abrir. É o meu amigo Fernando, antigo chefe de cozinha, também ele desempregado. Olho para o  meu amigo e sinto um aperto no coração  ao sentir a tristeza que lhe vai na alma.. Tem um filho com o décimo segundo ano feito e  porque nem dinheiro para as propinas já há, para seguir o curso superior, iniciou-se  a trabalhar, em situação de precário em  final de Novembro. Final de Janeiro sugerem-lhe que se despeça para que mais tarde o venham a  empregar, já com um  contrato de  6 meses. Quer ou não quer? Aceita e despede-se.

Aguarda colocação também no mesmo sítio  e por seis meses, com um custo de 3 meses de desemprego, para um salário de miséria. E pergunto-lhe, de namoros como é que ele ia. . Ora, namora uma rapariga formada em engenharia química. Ocupação  dela : procura diariamente emprego.

Nesta  conversa de horas, pelo frio da noite a entrar-nos pela pele e a queimar o calor da vida, com um ou outro copo de medronheira de boa cepa e destilada por melhores mãos ainda, um outro problema aprendi, o de que muitos jovens não têm sequer dinheiro para procurar emprego.  Diz-me, veja-me: A namorada do meu filho concorreu para Lisboa, para um emprego numa multinacional alemã. Entrevista na parte da manhã. Vai daqui, de Faro,  de comboio na véspera. Dorme num hotel em Lisboa, tem de ter boa apresentação, e o custo cifra-se bem alto, bem perto dos cento e cinquenta no total. Ficou doente depois de chegar, diz-me ele. Se não fosse o meu rapaz não sei como estaria ela hoje, depois daquilo… Como é, questiono eu. Não sei explicar bem, e as palavras atropelam-se-lhe umas nas outras. Não sabe explicar bem?  O meu amigo é homem de palavras francas, directas e simples. Sabe, o pai dela é polícia na reforma, a mãe, empregada de limpeza num escritório. Mas que tem isso a ver com a entrevista na multinacional alemã, interrogo-me eu. Tem, tem, diz-me. Sabe, para um emprego de engenheiro perguntaram-lhe a profissão do pai, da mãe, diz-me com ar de contrariado e depois…Estranhamente disseram-lhe um pouco mais ou menos isto: não entendiam como é que sendo filha de um polícia e de uma mãe empregada de limpeza podia aspirar a um emprego daqueles com tanta gente de origens mais nobres à procura de emprego e numa multinacional de tanto prestigio como aquela.  Percebi. Do meu ponto de vista o problema não era alemão, era de quem fazia a selecção, gente portuguesa de gema, tratava-se da segunda triagem.  Terá passado a fase mais difícil da selecção, aquela onde há muitos mais candidatos.  A situação confunde o agente da multinacional alemã ou o seu delegado  que chega a disparar: “Não percebo. Sendo tão inteligente porque é que não tirou o curso numa outra Universidade, numa Universidade mais nobre, de Lisboa ou até de Coimbra, por exemplo. A conclusão é imediata, não se licenciou numa Universidade dita nobre, logo  não é inteligente, logo não deveria ter passado à segunda fase.  Uma piada portanto a ter passado na primeira fase, penso eu, o que de resto se explica pela interrogação que a seguir é bem clara, desse ponto de vista, quando ele repete que não percebe. De facto, o referido funcionário ainda acrescenta: Não percebo, também porque é que sendo filha de gente tão pobre, não foi antes para mulher-polícia”. Percebi eu, ou penso que percebi. Do meu ponto de vista o problema não era alemão, era de quem fazia a selecção, gente portuguesa de gema. Gente bem portuguesa e esta jovem, com a sua origem de classe humilde, não daria possibilidades de contrapartidas financeiras ou mesmo políticas, de imediato ou a prazo, mesmo que por baixo da mesa, penso eu. Ou será que estarei a branquear uma outra coisa? Penso que não estou. O destino dela é o de um dia ir inscrever-se no Centro de Emprego  e Formação Profissional e será que também a ela lhe irão oferecer cursos de alemão para garantir o subsídio de desemprego, pergunta-me ele, com uma certa ansiedade na cara, depois de eu lhe  ter contado  a história do marceneiro.  Se ela também se vai embora quem me fica maluco é o meu rapaz, diz-me o pai com uma certa tremura na voz, e eu depois disto, se assim for, como é que fico?

E, de repente, lembrei-me de um antigo aluno meu vestido, em pleno Verão, com um fato de inverno,  pois era o  que havia  em saldo e precisava  de ir para um estágio num banco. Comprou-o. Na primeira vez que o vi assim, ofereci-me para lhe emprestar o dinheiro e ir comprar um fato de verão, para o verão, para o seu trabalho. Garantidamente, este meu antigo aluno nunca entraria na multinacional alemã em questão. A origem de classe estava bem marcada no tipo, de Inverno em vez de Verão,  e na qualidade do tecido barato  do seu fato.

E, de repente, lembrei-me de uma aluna minha, de nome Catarina, que cito de memória a falar das suas resistências face aos seus colegas da Nova e às suas fanfarronices, com quem concorria a certos empregos.

E, de repente, lembrei-me de uma mãe, advogada em Coimbra, que um dia me agradecia um artigo meu contra a cretinice patenteada pelo director da Faculdade de Economia da Universidade Nova de  Lisboa, para quem o desemprego dos licenciados portugueses tinha uma justificação de fundo, a de não terem tirado o curso na Universidade Nova, portanto, a ficarem pois  desajustados nas suas capacidades face às necessidades da economia portuguesa. Nessa peça por mim escrita, onde eu  procurava demonstrar que mal vai o país quando o Director de uma Faculdade de Economia e das de maior  nomeada neste país tinha aquela visão do emprego mostrada na televisão, nada diferente da que apresentam os nossos governantes de hoje, que mal vai o ensino de economia  neste país quando são estes economistas que nos falam do mercado de trabalho e o concebem desta forma idílica e completamente desajustada do real embora conforme ao modelo que eles têm na cabeça.

E de repente lembrei-me de um professor que foi professor na nossa Faculdade, homem de nó de gravata à altura do seu enorme ego, e que bem mais tarde, cerca de 30 anos depois,  aceitou em Lisboa e numa empresa pública como funcionária uma aluna da nossa Faculdade,  não por ser da nossa Faculdade frisou, uma vez que não era da Nova (sic) mas sim porque tinha cursos de especialização no estrangeiro, formações complementares nos Estados Unidos  que aos pais custaram mais de uma dezena  de milhares de euros.

E, lembrei-me então, que a lógica era a mesma, a mesma que vitimou  esta rapariga e que a mandou   para a cama durante mais de uma semana e que dela se levantou pela pressão dos afectos do seu namorado,  que esta era afinal a mesma lógica que colocava sempre na linha da frente os jovens  da Universidade Nova: a origem de classe e não o que se sabia ou não se sabia. Robert Reich no seu livro editado pela Terramar, cujo título  é  O futuro do sucesso,  fala-nos claramente disso, dos filtros de selecção de classe social, filtros que podem variar, de acordo com os contextos políticos e em cada um destes podem ainda variar caso a caso. Na situação presente, trata-se de um mecanismo somente qualificável como pura barbárie, não haverá outro adjectivo possível.

E, lembrei-me então, tão ou mais grave como isso, do menino pobre que eu fui  e que muitas vezes ao relento dormi, lembrei-me que garantidamente,  se vivesse hoje com as condições de então, nunca poderia escrever então esta crónica. Algo está muito pobre mesmo no reino suposto da Democracia para se estar assim e tanto mais grave quanto  o sistema de agora tem clara e aceleradamente vindo a convergir para o que os italianos chamam já de equivalência funcional do fascismo,  próximo portanto dos comportamentos daqueles tempos,  dos “ismos  terríveis que destruíram a Europa, o que leva alguns já a afirmar que estamos a caminhar para um sistema de fascismos nacionais, eventualmente diferenciados,  suportados a nível europeu por um sistema global  a que um  deputado europeu pelos Verdes  já apelidou de euro-fascismo .

Sou despertado das minhas lembranças pela voz do meu amigo e ainda o ouço a dizer‑me, e eu como é que fico? Levanto o copo, peço que levante o dele e brindamos contra o absurdo deste nosso imediato, brindamos pelo força da História, pela força dos homens que um futuro a estes jovens hão-de garantir e que na prisão hão-de meter  todos estes políticos  que agora a todos eles acusam de nem sequer emprego quererem procurar. E, de novo, relembro Edward Hugh, a sua visão sobre Espanha, a minha visão sobre Portugal.

E, de Faro, é tudo

2 Comments

  1. Comentário de um leitor devidamente identificado:

    “Gostei sobretudo (com um sorriso amargo) da passagem sobre as lições
    > gratuitas de alemão a um desempregado de mais de 50 anos. O futuro dos
    > portugueses consiste em tornarem-se todos diligentes e obedientes
    > alemães. Portugal será quando muito uma coutada, um imenso campo de
    > golfe ou uma clínica ensolarada para idosos. Com alguma sorte seguirá
    > a jangada de Saramago, isto é, será um rectângulo de terra que se
    > despega da Europa para errar nos oceanos à procura de um lugar
    > tranquilo, próximo de uma qualquer Atlântida.
    >
    > Boa continuação”

  2. Do mesmo leitor:

    “Já agora só mais um brevíssimo comentário (ou pura especulação?):

    Se não se conseguir a convergência na Europa pelo capital e pelas mercadorias, conseguir-se-à pelo trabalho, transportando as pessoas para onde o contexto seja mais favorável à sua produtividade e ademais permitindo um alinhamento mais suave e generalizado do poder de compra dos salários europeus com os padrões médios mundiais. Essencialmente, importando mão-de-obra dos países do sul da Europa a Alemanha estará a repetir a experiência da integração da Alemanha de Leste nos anos 1990.

    F. Murano”

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