Da Galiza, mensagem : A língua do poder – por Isabel Rei

Da Galiza mensagem

A língua do poder

 

Diferentes estados, diferentes culturas, diferentes línguas. Mesmo estado, mesma cultura, mesma língua. É desse jeito que nos educam e por isso não entendemos nada. Na verdade, os estados não são conjuntos nacionais, as culturas ignoram as fronteiras e as mesmas línguas são faladas em diversos lugares, nações, estados sem importar raça, cor, estatura ou peso.

Mas, segundo a lógica do poder, na Galiza não podemos falar a mesma língua que em Portugal. Pertencendo a estados diferentes a nossa língua não pode ser comum. Não sendo portuguesas, como iríamos falar português? A lógica do poder manda por cima da ciência, da história e da experiência, e desse jeito carregadas de razão esgaçamos o sustento da memória.

Pela mesma lógica as pessoas da rua não podemos aceder aos instrumentos de poder. O poder é endogâmico. Somente aquelas que já fazem parte dele aprendem a sua língua e são educadas no ofício. Por isso quando as pessoas da rua exercem o direito a auto-organizar-se, a avaliar e decidir, a governar-se por si mesmas sem o patriarcal abrigo de uma autoridade estadual são espancadas, desiludidas, traídas e até presas.

O poder protege os seus privilégios. Perpetua-se procurando os indivíduos melhor dotados para a sua reprodução. O governado é muito menos importante que o sistema de governo, que o exercício do poder. O fim justifica os meios e Macbeth é sempre o novo rei. A violência do verdugo é motor e fundamento, e até o desgoverno é assunto democrático pois hoje o poder vestiu-se de democracia.

Por isso as mal-educadas, ignorantes dessa cultura, que trabalhamos sem dependências oficiais, que fazemos por nós sem aguardar que uma instituição nos salve ou nos financie, as espancadas, as traídas, as presas, as pessoas da rua não entendemos nem falamos a língua do poder.

Deputados

– E pra que são os deputados?
– Eu não o sei, meu filho.
Daniel Castelão (1886-1950)

 

 

 

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9 Comments

  1. pois é, Isabel, permite-me uma cita na língua do poder que nos esmaga: “el Estado es una clase” (José García Pradas, derradeiro chefe de redação do diário CNT, no final da “nossa” guerra (in)civil)

  2. Bom, de acordo e continuemos ou recuemos.

    Em tempos, no Antigo Regime, o que denominas poder, achava-se hierarquizado, formalmente, ainda que nas práticas os conflitos eram continuados entre os dous poderosos, representantes autorizados (legitimados?) do PODER, o rei ou príncipe e o papa. Essa hierarquia foi quebrada pela Reforma protestante, inicialmente nos campos da fé (“livre exame”), mas não só. A chamada guerra dos 30 anos, como antes a guerra dos 100 anos, evidenciaram que as lutas entre os poderosos minavam a base daquela hierarquia.

    Contudo, consequência da Reforma e da Contra-reforma, a hierarquização primeira do Antigo Regime derivou ao atual novo regime, a Modernidade, organizada em estado moderno. A meu ver, a radicalidade da mudança explica hoje o que acontece: contra aquela (formular) hierarquização de “imanência” (poder temporal) sob a “transcendência” (poder espiritual), hoje o estado “moderno” assume os dous campos ou “realidades”: é imanentemente transcendente ou, vice-versa, é transcendentemente imanente.

    Se no Antigo Regime a pessoa do súbdito e do fiel devia distinguir entre os respetivos direitos (poucos) e obrigas (muitas) àqueles soberanos em que residia o poder emanado da divindade, hoje o estado exige que a pessoa seja tão súbdito quanto fiel, se submeta crente e até crédulo ao que o poder uno e trino, mais uno do que trino, ordena. Assim é ainda na teoria…

    Porque nos últimos tempos, preparados pelos anteriores, voltamos à situação medieval, ao Antigo Regime, sob nome de “mercados”: os detentores (sic) do poder em cada estado devem-no ao ser supremo que são os mercados; a eles obedecem cegos, mesmo contra os que dizem ser seus súbditos-e-fiéis…

    E nestas andamos: Isabel, o cerco ou circo do estado, dos estados, está a ser ultrapassado pelos “mercados”, ignorantes de fronteiras, de direitos e, Baal ou Saturno redivivos, engolidores de tudo o que se move com alguma racionalidade e independência. E não apenas no estritamente linguístico, mas sobretudo em tudo o que nos faz humanos: na comunicação. Triste, lamentável, mas real.

    (E na RAG do “galleguismo oficial” estão a matar por meio prato de lentilhas…)

  3. Todas aquelas que cultivam a cultura do poder matam por meio prato de lentilhas, caro… Na RAG e na casa de Toca-me-Roque. Não é de estranhar e sabemo-lo bem.
    Obrigadíssima pelo extenso e interessante comentário que vem a reafirmar o que digo: cuidado com o poder, quem não faz parte dele, não pode fazer.

  4. Sim, tentava confirmar o que escreves e não tanto desde outra perspectiva. Sou cada vez menos esperançado com a humanidade organizada desde o cume (!). Mas vejo que os detentores da comunicação (por exemplo, o jornal monárquico ABC ou essa estranha cousa que é El Mundo, no reino bubónico) mentem com uma impunidade raivosa; e ninguém pode fazer nada contra eles, porque o desgoverno do Rejoyete está em relação íntima com eles.
    Por outro lado, quem manda na mal chamada UE? Que pintamos as pessoas nessa cousa estranhamente construída, mas bem construída contra os cidadãos?
    Mais cada vez vejo (VEJO!) que o problema da língua, incutido na Galiza, está ligado a outras injustiças promovidas pelo poderinho bubónico ao serviço do poder mercadoril.
    Uma solução a meditar é conseguir a Galiza e Portugal serem estados ultramarinos da República Federativa do Brasil. Seria um jeito de fugir desta UE merdelenta (< Merdel).

  5. António, já sabíamos que o assunto da língua não está desligado de todos os outros assuntos que nos magulham. Então tu não escreveste um Silêncio Ergueito a respeito de cousas que sem ter a ver diretamente com a língua, incidiam nela até esganá-la? Essas outras cousas são estas, ainda. Falas no nível da UE, e poderemos ir até ao nível planetário, mas a nível de micro-organismo também acontece…

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