Este artigo constitui uma adaptação do que publiquei no Estrolabio sob o título Serões da Província
Há quarenta anos estava-se no auge da luta antifascista. Salazar caíra da cadeira, Caetano prometera democratizar, mas os falcões do regime não lho permitiram – nada mudou: guerra colonial, polícia política, censura, partido único… ditadura, para tudo dizer numa palavra. Marcelo mudou os nomes às coisas, mas tudo ficou na mesma. Uma boa parte da população conspirava, sobretudo nas camadas mais esclarecidas da pequena-burguesia – professores, profissionais liberais, oficiais do exército (geralmente de patente não superior a capitão), pequenos empresários, estudantes… E, sobretudo nas pequenas cidades, conspirava-se como? Não falando dos militantes do Partido Comunista que estavam enquadrados por elementos ligados a estruturas regionais ou sectoriais, os chamados «controleiros», e que reuniam em obediência a regras estritas de segurança próprias do funcionamento de um partido bem organizado, a chamada gente da «oposição democrática», não observava essas regras de segurança. Uma reunião tinha, por vezes, sobretudo nas pequenas cidades, o ar de um serão cultural.
A Oposição Democrática só fazia reuniões formais em período de eleições. Passados esses períodos, grupos de amigos continuavam a reunir-se, muitas vezes sem que essas reuniões tivessem outro objectivo que não fosse o de manter acesa a chama da resistência. De uma forma geral, era gente que não estava organizada em partidos, embora por vezes aparecesse um ou outro «pescador» tentando cooptar elementos. A «conspiração» resumia-se a fazer serões culturais. Um projector de 8mm, uma cópia do «Aniki Bobó» ou do «Couraçado Potenkin», discos com canções do Yves Montand, do Jean Ferrat, do Brel, do José Afonso, do Fanhais, do Luís Cília ou da María Casares; bobinas com as declarações de Havana, do Fidel Castro ou com canções da Guerra Civil espanhola… Coisas assim, acompanhadas por brande (o uísque não era tão barato como é hoje e quando aparecia era uma festa), uns bolos caseiros feitos pela anfitriã e assim se reuniam vinte trinta pessoas. Era, mais ou menos, uma vez por semana – a noite de sexta-feira era a preferida. Chamar a isto resistência parecerá excessivo se não tivermos em conta o contexto político. Caso estas reuniões fossem sempre na mesma casa, corria-se o risco de, sem ser convidada, a PIDE aparecer.
Esta era sobretudo uma maneira de resistir à ofensiva cultural do Estado Novo que, sentindo a morte aproximar-se, apertava as suas malhas. E a cultura não fugia a essa ofensiva. Na música era o «nacional-cançonetismo», expressão inventada, salvo erro, pelo Mário Castrim, com o Calvário, a Madalena Iglésias, o Artur Garcia, e a Simone … A televisão, a partir de 1968 com dois canais, a Emissora Nacional e outras estações de rádio controladas pelo regime, os jornais e as editoras, apertados pela censura e depois pelo exame prévio… Enfim, um aro de ferro apertado em torno das cabeças. Os serões da província eram uma forma de cultura alternativa. As pessoas abriam janelas para outros conteúdos culturais. Não terá sido por acaso que as mentalidades se abriram à Revolução de forma tão espontânea. Os serões tiveram o seu papel nessa abertura.
Ia-se mudando de casa, para não dar muito nas vistas. Mesmo assim, havia quem denunciasse, geralmente por carta anónima, que na casa de fulano havia reuniões estranhas. Lembro-me de uma reunião, essa mesmo conspirativa, numa cidade minhota onde no fim cantámos os «parabéns a você» para simular uma festa de aniversário. Era muita gente, vinda de vários pontos do país, muitos carros estacionados numa rua de pouco movimento. Enfim dava nas vistas e aquela foi a saída. Este cenário que estou a descrever era mais frequente nas pequenas cidades. Mas assisti a muitas reuniões deste tipo político – gastronómico – cultural, no Porto e em Lisboa. Prova, se fosse preciso, de que todo o País continuava (e continua) a ser provinciano.
Segue-se uma série de vídeos com algumas das audições recorrentes nas tais reuniões. Por exemplo, esta canção de Jean Ferrat era muito escutada, «Nuit et brouillard», tradução de «Nacht und Nebel», noite e nevoeiro, nome dado pelos nazis à operação de deportação de prisioneiros para os campos de extermínio. Noite e nevoeiro, porque queriam que sobre o crime caísse uma noite que o tornasse invisível e um nevoeiro que o fizesse esquecer. A neblina construída de mentiras e de eufemismos que, aqui e naquela época, transformava a polícia política em protectora da segurança dos cidadãos e os resistentes em perigosos agentes da subversão. Em 1956. Alain Resnais realizou um filme com este título. Ouçamos Ferrat:
Outra presença certa nos serões era «Ay Carmela», um canto da Guerra Civil de Espanha. Todos cantávamos em coro, com o anfitrião a pedir para não fazermos muito barulho por causa da vizinhança – El ejercito del Ebro, rumba, la rumba, la rumba la… Yves Montand e o seu «Chant de la libération», mais conhecido por “Chant des Partisans”,que se converteu durante a ocupação em hino da Resistência, nunca faltava às nossas reuniões: E, principalmente, o Zeca, como podíamos nós passar sem o Zeca?
Cuba! Quantas vezes ouvimos Fidel e as suas emocionadas e emocionantes declarações de Havana. Mas, naqueles anos finais da ditadura do Estado Novo, Guevara era a voz pura da Revolução de 26 de Julho – a que não se rendera.
O «Couraçado Potenkin», cujas cópias conseguíamos comprar em Paris ou em Londres, animavam muitas das nossas reuniões. Realizado por Sergei Eisenstein em 1925, provinha de uma União Soviética ainda não totalmente estalinizada. Era peça de êxito assegurado, com palmas no final. Se não viram e dispõem de algum tempo, não percam este filme que constitui um elo imperdível da história da cinematografia mundial.
Quando as reuniões acabavam, os «conspiradores» iam saindo em pequenos grupos. As casas ficavam desarrumadas. O casal anfitrião, enquanto levava copos e pratos para a cozinha, repunha cadeiras no lugar, comentava entre si: «Não correu mal, pois não?»
