Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Fabius Maximus · 14 de Fevereiro de 2013
Resumo: Hoje temos um exemplo de fluxo de palavras reconfortantes sobre os défices públicos. Enquanto de agradável leitura, escrito por um grande especialista experiente, este não suporta uma análise aprofundada.
Um especialista governamental no trabalho para nossa comodidade
Uma das grandes curiosidades da história é a de que as nações adoptam políticas que são tão obviamente condenadas ao fracasso, ou até mesmo ao desastre. Há uma longa lista desde a gestão da dívida da França com a companhia de Mississippi (mais tarde esta última conhecida como a bolha do Mississipi ) feita por John Law, economista do século XVII, à declaração do estado de guerra feito pelo Japão a quase todo o mundo. Por um bom motivo, Barbara Tuchman deu como nome à sua maior obra de história, The March of Folly…
Existem dois elementos constantes nestas histórias. Primeiro, os avisos dos especialistas. Segundo, as garantias que estas políticas obviamente loucas desta vez iriam acabar bem.
Assim é com a dívida do governo dos EUA. Todos nós ouvimos os avisos. Como a dívida cresce, então, aumenta o volume daqueles que nos dizem para não nos preocuparmos. Os economistas dentro do pensamento keynesiano dominante fornecem-nos uma certa forma de conforto ao dizerem-nos que se pode corrigir o défice mais tarde. Os economistas da escola da moderna teoria monetária fornecem-nos uma outra forma (as dívidas não importam, não são relevantes desde que não haja criação de situações inflacionistas ou um colapso da moeda como divisa). Há ainda um terceiro grupo e este fornece-nos uma forma vaga de conforto. Um exemplo disso é “Another way to look at the national debt” por Zachary Karabell (President of River Twice Research), special to the Washington Post, 8 Fevereiro de 2013. Na abertura do texto diz-nos Zachary Karabell:
“Bem-vindo ao próximo capítulo do interminável debate sobre a dívida. O lançamento dum relatório pelo Congressional Budget Office sobre os próximos 10 anos da economia americana termina a falar sobre um breve período de tranquilidade em Washington. Como regressamos mais uma vez, ao nosso programa regular de “Crise e Impasse”, deixem-me por um momento considerar a seguinte ideia herética: nós não temos nenhum problema de dívida.
Nós passámos anos a diabolizar a dívida e agora temos um movimento político inteiramente mobilizado com a ideia de que a dívida pública destruirá a América como nós o sabemos a menos que se alguma coisa for feita contra isso e já, agora mesmo!”
Preparem-se para uma desmistificação à volta dos medos quanto à dívida! Já me sinto melhor. Na linha seguinte do texto de Karabell inicia-se a análise:
“No entanto, a dívida é simplesmente uma nova forma de moeda que é emitida, comprada, valorizada pelo mercado, vendida, como qualquer outra moeda” …
Isso é falso. Primeiro, a dívida pública (por exemplo, títulos do Tesouro a 30 anos) não é de forma alguma moeda seja qual o for o conceito que desta se tenha. Estes títulos variam de valor, do seu preço de mercado (enquanto a moeda é a unidade de medida para o preços dos activos, como por exemplo o dos títulos). Mais importante ainda, embora o governo possa converter dívida em moeda imprimindo dinheiro (ou seja, a monetarização), o processo não é automático. É uma decisão política que aumenta o valor dos empréstimos concedidos ao país.
…
Por vezes, não funciona como se esperava…
Exactamente isto que nos traz à questão crucial: nós não devemos a dívida a nós mesmos. Devemo-la às pessoas e a instituições específicas, muitas dos quais exercem grande poder político – e irão exercê-lo para ver que eles sejam pagos em verdadeira moeda. A memória da grande inflação pós-Segunda Guerra Mundial deixou marcas vivas nas suas memórias , daí a obsessão com a inflação que nos é hoje mostrada pelos seus ascetas. Diz-nos Karabell:
“E o medo de que ela vai minar fatalmente a nação é muito parecido com a crença no século 19 de que os dólares em papel iriam destruir o valor e roubar a nossa classe média, ou ainda o medo de que com a prata aconteceria o mesmo ou ainda a preocupação no século 20 (e agora) de que as economias entrarão em colapso a menos que todo os valores estejam ligados ao ouro [equivalente a este sistema monetário é a lógica actual do BCE que nos quer crucificar numa cruz de ouro e sem ouro, com a Angela Merkel como garantia que assim é]. O pânico criado pela dívida é um outro medo do mesmo género que os anteriores. A única diferença é que aqueles que acreditam que a dívida nos vai destruir tem muito mais poder político.”
Correcto, embora Karabell ignore a importância disto nas lições que a história nos dá e que se explicam no parágrafo seguinte. Os 1% são os credores da nação, da dívida pública e da dívida privada. A deflação do final do século XIX serviu muito bem os seus interesses esmagando a força económica e política dos pequenos agricultores, artesãos e das classes mercantis — devedores que foram arrasados pelo aumento do valor real das suas dívidas, dos seus empréstimos. O crescendo e depois o estouro da bolha imobiliária e a grande recessão tinham um efeito igualmente benéfico para os 1%, concentrando-se neles ainda mais riqueza e poder.
