ORIGENS DA GRANDE GUERRA – de David Martelo – por Aniceto Afonso*

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* Este artigo do coronel Aniceto Afonso é transcrito, com a devida vénia, do nº 109 do REFERENCIAL, com autorização expressa da Associação 25 de Abril. A todos, e ao autor em particular, endereçamos os nossos agradecimentos.

O coronel David Martelo acaba de publicar um novo livro intitulado “Origens da Grande Guerra”, com o subtítulo “Rumo às trincheiras. Percurso político-militar (1871-1914)”, com a chancela das Edições Sílabo. Trata-se de uma análise profunda, documentada e lúcida da longa caminhada das nações europeias em direcção à guerra, com realce para as contradições, insuficiências e ligeireza dos estudos e das previsões que os responsáveis políticos e militares fizeram da situação, antes de algumas circunstâncias fortuitas lançarem os povos europeus num conflito extenso e devastador.Imagem1

Devemos analisar o presente livro do David Martelo na sequência da sua obra anterior, constatando a clara predilecção do autor por assuntos que nos causam perplexidades e interrogações, não só de natureza histórica ou social, mas também do âmbito da defesa e dos estudos militares.

Foi assim com “O Exército Português na Fronteira do Futuro”, de 1997, publicado numa altura em que ninguém parecia aperceber-se das mudanças necessárias, deixando o Exército fora dos novos tempos! Nessas circunstâncias o David Martelo lançou o alerta; foi assim com “As Mágoas do Império”, de 1998, escrito numa época em que Portugal ainda continuava preso ao seu passado imperial (continuará hoje?), parecendo nunca mais acordar para as novas realidades, para os desafios que nos chegavam de outros horizontes e com novas condições; foi assim com “A Espada de Dois Gumes”, de 1999, que tive aliás o privilégio de apresentar, em que o David Martelo nos coloca perante as Forças Armadas do Estado Novo, no fundo, perante a nossa participação nessa história recente e o papel que nela os militares desempenharam até à sua reconciliação com a história, no dia 25 de Abril de 1974.

Foi ainda assim, com “Cessar-Fogo em África”, de 2001, porque o David Martelo, como todos nós, estava cansado das acusações frequentemente dirigidas aos militares sobre os acontecimentos finais dos longos processos de descolonização, que ninguém queria entender como um fenómeno histórico de longa duração, mas apenas como se tudo pudesse resolver-se nas acanhadas condições do pós-25 de Abril.

Poderá parecer que o David Martelo pouco contribui, através deste processo, para o bom nome das Forças Armadas. Devemos entender o contrário. Porque são estes contributos, esta nova luta de pena na mão, felizmente em conjunto com outros, que ajudam a manter a esperança e a semear novos entendimentos da condição militar.

Com este novo livro, o autor traz até nós uma reflexão profunda sobre a guerra.

O David Martelo explica-nos qual era a disposição política e militar dos diversos poderes, como se teceram as relações diplomáticas, quais eram os interesses económicos que alimentavam as correntes belicistas, que forças morais as suportaram e as levaram à decisão limite.

Guerra da liberdade ou guerra da pátria (guerra das nações, como nos diz o David Martelo), a verdade é que todos pensaram a guerra como uma acção rápida, fulminante, com a ideia de “passar o Natal em casa”. Contudo, não fosse o Armistício ter sido assinado em 11 de Novembro de 1918, e as tropas teriam passado cinco Natais nas trincheiras. Mesmo tendo sido quatro, oito milhões e meio de vítimas ficaram nos campos de batalha, por onde passaram mais de sessenta milhões de homens, com vinte milhões de feridos e milhares e milhares de prisioneiros e desaparecidos.

Podemos agora perguntar-nos: Quais foram os resultados?

A guerra não desatou o nó górdio. Também não foi a última das guerras. O mundo novo tão prometido não passou de uma grande ilusão. Os povos europeus, destroçados, embora despertos para novos horizontes, foram-se erguendo sobre os seus mortos, os seus inválidos, feridos para sempre, feridos profundamente. Capazes de poderem erguer-se dos escombros ou de mergulharem em ajustes de contas. A Grande Guerra não foi a guerra decisiva, foi uma guerra de passagem. O que os estrategas pensaram para cinco meses durou mais de três décadas. De facto, só para além da Segunda Guerra Mundial, a Europa pôde, lentamente, encontrar um delicado caminho comum.

A Grande Guerra demonstrou como era frágil a ordem internacional, baseada no equilíbrio de poderes e na rede de alianças tecida por uma complexa e intrincada matriz de relações entre as nações.

O campo de batalha modificou-se. O mundo percebeu a sua nova dimensão. Passámos todos a ser vizinhos.

Portugal deixou nos campos de batalha mais de oito mil mortos e mobilizou mais de cem mil homens.

Com este livro, o David Martelo abriu um debate, mas não fechou toda a questão. A Grande Guerra, cujo primeiro centenário se aproxima, deve despertar novas curiosidades e vontade de descobrir outras histórias e novas explicações, de aprofundar investigações ou desbravar outros caminhos. Esse é sempre o objectivo de um trabalho de História – incentivar e proporcionar vontades de saber mais.

E se viermos a percorrer páginas em que possamos acompanhar o sofrimento, o sacrifício, a valentia e o desastre, teremos oportunidade de nos questionar, não apenas sobre a Grande Guerra em especial, mas naturalmente sobre todas as guerras (sobre as guerras que querem pôr fim a todas as guerras e sobre as guerras que previnem outras guerras); também sobre Portugal e sobre a Europa; ou sobre o Mundo e a mundialização.

Para que nunca deixemos de ter presente a interrogação decisiva e permanente, perante qualquer toque das trombetas de guerra. Para que não seja em vão o cortejo de dramas que a ela estão inevitavelmente associados. Devemos compreender deste modo a mensagem do David Martelo ao preparar e publicar este livro que agora apresenta… Como um alerta, como um grito, como um desafio! Também por isso lhe devemos estar gratos!

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