COMENTÁRIO A «OUTRO 25 DE ABRIL?», DE RUI DE OLIVEIRA – por Carlos Leça da Veiga

O nosso prezado Rui de Oliveira mesmo sem ter abandonado a sua lira estritamente cultural, noutra secção da Viagem, dirigiu aos argonautas uma interrogação plena da maior actualidade e, sobretudo, com grande significado político.

“Um novo 25 de Abril?” foi a pergunta feita – um pergunta excelente – a que, de imediato, deu a sua resposta.

De facto, ninguém faz uma boa pergunta sem saber dar-lhe uma boa resposta, porém, o que está em causa, decisiva e decididamente, é considerar-se quão vera, ou quão conveniente, será essa resposta. Com atrevimento, tenho algo para dizer.

Antes de lá chegar, mesmo sem procuração de quem quer que seja, julgo inteiramente acertado que os «argonautas» felicitem vivamente o Rui pelo seu trabalho paciente, incansável e primoroso de dar a conhecer, dia a dia, constantemente e com manifesta profundidade, “urbi et orbi”, as múltiplas actividades artísticas que, por esse país fora, vão sucedendo.

Um novo 25 de Abril? É a pergunta que dá o título ao texto do Rui de Oliveira mas, já no seu terceiro parágrafo, essa pergunta sofre uma certa modificação e passa a ser “é viável o apelo à repetição do fenómeno histórico-social sucedido há 39 anos?”

Enquanto que, para o autor da pergunta, a resposta é negativa, para este modesto respondente será, exactamente, a oposta. Nada pode e deve acontecer porque, segundo a interessante exposição do Rui de Oliveira, “o circunstancialismo de 1974 é único e irrepetível”. Seja como for, ou como tenha sido, por mim, direi que apelar é viável, que é mesmo imprescindível, porém, o que à História não pode pedir-se – nem deve desejar-se – é que faça uma cópia fiel.

Por muito diferentes que sejam as condições – e disso não há dúvidas – em momentos anteriores da nossa História já houve rebeliões militares sucedidas à margem, ou na indiferença, das suas condicionantes terem sido muito, senão mesmo, totalmente dissemelhantes.

Perguntar-se se “é viável o apelo à repetição do fenómeno” de há 39 anos e, de imediato, acrescentar-se que “sinceramente creio que não como réplica actualizada”, é uma resposta que, quanto a mim, considero completamente inapropriada face à situação política mais actual.

Há uma população sujeita aos barbarismos sociais que uma prepotência política exige; há uma soberania nacional colocada ás ordens dum grupo de funcionários da banca internacional; há uma Europa central revanchista a fundar o IVº Reich; há um Portugal assoberbado com a gravidade extrema dum desemprego galopante; há mais de dois milhões de portugueses empurrados para uma pobreza antes inimaginável; há fome em Portugal e há um Portugal a transformar-se, em acelerado, num deserto de oportunidades cívicas, económicas, financeiras, culturais e sociais. Há, porque há, é a antecâmara duma miséria imposta ao sabor de interesses alienígenas que são acoitados, a seu belo prazer, pela maioria parlamentar deste 2013.

Embora o circunstancialismo de 1974 tenha sido único e, nessa condição, irrepetível, isso, será razão bastante para que, hoje em dia e face ao descalabro social em curso, não dever pedir-se um acto revolucionário cometido por quem deve considerar-se herdeiro operacional do espírito do 25 de Abril de 74?

Porque não? Será isso um atentado a qualquer cartilha do bom revolucionário?

Razões não faltam para poder apelar-se ao que faz falta e não são as explicações – suposições – sobre a hierarquia actual das forças armadas e, muito menos, sobre a falta duma influência doutrinária ou operacional – que nunca houve – dos milicianos de agora, que bastam para barrar o caminho a uma qualquer intervenção. A população, que só tem razões de sobra para, por inteiro, voltar as costas às organizações político-partidárias parlamentares, deve, como penso, dirigir-se às forças armadas a pedir-lhe que saibam cumprir o seu dever – um dever inteiramente legitimo – de, pelo menos, salvarem a População portuguesa da perversão continuada das regras do jogo que Abril possibilitou como, agora, o neoliberalismo da maioria parlamentar preconiza, incentiva e reforça.

Sobre a questão de não dever-se propugnar por um outro 25 de Abril não sinto necessidade de acrescentar o que quer que seja, senão, que ninguém deve desistir de continuar a desejar vê-lo repetir-se. Sem querer ofender penso que desistir de querer-se infernizar o mais activa e constantemente o actual statu quo político – e o desejo declarado dum novo 25 de Abril é-lhes muito ameaçador – é, dalgum modo, como em 1938, aceitar-se a paz do “Acordo de Munich”.

Mas o texto em apreciação merece, ainda, um outro comentário que é, por exacto, sobre a afirmação do Rui de Oliveira de “ reconheço ser por convicção avesso ao conceito pouco analítico que a “História se repete”. A avaliar pela argumentação aduzida não parece tratar-se duma convicção, antes sim duma preposição – duma asserção – bem assumida.

A História, por obra dos Homens, é a sociedade em movimento e esse movimento, que é material, processa-se dialecticamente em obediência a quatro leis fundamentais. Uma delas, logo a primeira, a da transformação dialéctica, ao considerar que tudo tem movimento evolutivo – passado, presente e provável futuro – recusa o carácter absoluto e definitivo de tudo quanto existe mas, antes, a sua transitoriedade. A mudança tanto pode dar-se por devir (as fases sucedem-se naturalmente), como pode ser por justaposição. No primeiro caso, o “processus” é autodinâmico enquanto que no segundo, por força duma intervenção externa, as fases não derivam necessariamente umas das outras e o seu carácter é mecânico. Só o autodinamismo é que caracteriza a evolução dialéctica e, acrescente-se, como reza a segunda lei – a da acção recíproca – que todos os “processus” autodinâmico se encadeiam.

Como durante o ciclo da História da chamada civilização ocidental a evolução mais marcante não tem sido obra da maioria dos Homens mas sim é uma soma de consequências das decisão arbitrárias daqueles – não muitos – que, em cada momento, são socialmente dominantes só pode dizer-se que, até hoje, o “processus” tem sido eminentemente mecânico e, por isso mesmo, não se abre em espiral mas sim, fecha-se sobre si mesmo à maneira dum circulo. Só com cada volta da espiral é que pode haver progresso e, assim, só em cada uma das voltas da espiral é que o “processus” não pode passar pelo mesmo sítio. No desenvolvimento mecânico as repetições não são de estranhar pese embora as inovações, de que falou Schumpeter, necessariamente, modifiquem muitas das aparências.

Por fim, por não poder reservar-me qualquer autoridade de historiador, limito-me a transcrever uma passagem do “O Processo Histórico”, publicado em 1938, da autoria do Professor Juan Clemente Zamora e que reza: “Hoje a civilização ocidental superou, no seu processo evolutivo, a todas as civilizações que a precederam. Por conseguinte, no nosso próprio passado encontramos o equivalente de qualquer das épocas vividas pelos homens das civilizações mortas, a grega, a romana, a egípcia, a chinesa ou a indo-americana.”

Na História da chamada civilização ocidental, conforma escreveu Benedeto Croce, houve, sucessivamente, quatro épocas históricas, a saber: “comunismo primitivo, economia de escravidão, economia servil e economia de salários” e, quase de imediato, num passo posterior, acrescentou que a historiografia “conhece um medievo ou feudalismo egípcio, como conhece um medievo ou feudalismo helénico”. Tem havido, ou não, repetições na História?

Naturalmente, à População portuguesa ao participar nas movimentações promissoras de 15 de Setembro e de 2 de Março de 2013, não só virou costas aos partidos do sistema mas, dalgum modo, esteve a apelar a um novo 25 de Abril. E esta, que tal!!!

Abração com a amizade do CLV

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