REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota 

Bem vistos ao mundo triunfante da Troika, dos seus rapazes, dos seus incapazes, bem vindo ao mundo da mentira produzida a partir de Bruxelas. Mais um autor a concordar com as teses que por este blog se tem vindo a defender. Um bom texto sobre a validade dos relatórios da Troika  e de quem o povo português está prisioneiro.  

Júlio Marques Mota

xxxxxx

Porque  é que o relatório da Troika sobre  Chipre é pouco credível

 Romaric Godin,  La Tribune,

Chipre - VICopyright Reuters
Romaric Godin | 11/04/2013, 12:49 – 999 palavras

Na sua análise  sobre a sustentabilidade da dívida  cipriota, a União Europeia, o FMI e o BCE validam a viabilidade do plano de resgate. Sem serem realmente convincentes, no entanto.

Será a Troika  alguma vez capaz de aprender com os seus erros do passado? Duvidamos. Já no domingo passado Bruxelas  apelava para que Portugal  ignorasse  a decisão do Tribunal Constitucional e para não abrandar  no seu  esforço de austeridade, apesar da crise económica e social do país. Nesta quinta-feira, é a análise da sustentabilidade da dívida cipriota (Debt Sustainability Analysis, DSA)   que nos deixa   pensativos  e estranhamente lembra-nos  os sucessivos relatórios emitidos sobre a Grécia entre 2010 e 2012.

Um objectivo definido e atingido no  papel

A ambição desta “análise” é a de provar que os efeitos do plano de resgate cipriota da economia   torna sustentável  a  prazo o reembolso  das dívidas dos países e a realização dos objectivos definidos por esse  programa. Em suma, trata-se de provar que o programa não é um absurdo. No entanto, é difícil acreditar nesta análise em que se  promete um retorno do ratio da  dívida pública em termos de PIB  de 104% em 2020. Em Novembro, este ratio é  de 120%

Entrando no detalhe, constata-se que o efeito do plano no crescimento cipriota será formidável: o PIB sofrerá uma contracção de 12,5% em dois anos. Mas este efeito deve, de acordo com a Troika, permanecer limitado. E o crescimento é esperado que regresse  logo  a seguir, já em 2015 com níveis bastante sustentados: + 1,1% em 2015 e + 1,9% em 2016. Esse cenário é provavelmente o menos credível de toda a análise por dois motivos.

Um efeito subestimado?

O primeiro é o efeito do plano sobre a economia de Chipre. De acordo com Pawel Morski, um gerente de fundo de Londres que mantém um blog reconhecido sobre a crise europeia, estas estimativas são “mais do que risíveis”. Na verdade, o consumo das famílias deve diminuir de 12,2% em 2013 e de 6% em 2014, antes de aumentar em 2015 de  0,8% e, em seguida, subir para + 2% em 2016. Num contexto onde os depósitos de mais de 100.000 euros serão obrigados a contribuírem em mais de  60% e lembrando que nem todos eles são  russos, mas sim que são maioritariamente   depósitos de residentes, estas previsões parecem realmente muito optimistas.  Tanto mais que as medidas de rigor são severas, incluindo os salários dos funcionários públicos, o mercado de trabalho ou as pensões.

A miséria do investimento

A mesma observação no que se refere ao  investimento que   vai descer de  29,5% em 2013 e de 12% em 2014, antes de crescer e de subir  + 2,3% em 2014. O sistema bancário cipriota está agora sob infusão e também pode estar com muitas dificuldades  para conseguir emprestar às empresas. As  falência vão se desencadear em cadeia  e o declínio do investimento a este nível é uma certeza de  ver o potencial de crescimento do país recuar  e não é , como o diz a Troika,  a garantia  “de um crescimento sustentável.”

Pawel Morski recorda que na Islândia, apesar da desvalorização, o colapso do investimento atingiu no primeiro ano de crise cerca de 50% e que na Letónia, com um sistema financeiro estável e saudável este colapso foi de cerca de 40%. Chipre, que não possui nenhuma destas duas vantagens   irá descer de cerca de  30%? Isso é improvável, como é pouco provável a queda de 5%  apenas nas exportações deste ano. Os controles de capital e o risco de não pagamento certamente desviarão mais amplamente os clientes estrangeiros dos  seus fornecedores cipriotas. Em suma, há uma forte certeza de  que o choque seja bem  mais difícil para a economia cipriota.

Um restabelecimento repentino  da confiança?

Mas a análise da Troika acusa um outro ponto fraco: essa mudança repentina  nas proximidades  de 2015, em que  Chipre  regressaria  ao crescimento. Como explicar isto? As razões avançadas pelo DSA são fracas, ou melhor, são  muito ideológicas. “A consolidação orçamental deve restaurar a confiança dos consumidores e dos investidores a médio prazo,” diz-nos o relatório. Uma confiança que irá restaurar a confiança e, como por magia, o PIB crescerá de uma contracção de 3,9% em 2014, para  um crescimento de 1,1% em 2015. Um crescimento que acelera para 1,9% em 2016. É a realização, nos factos,  do famoso discurso que a consolidação orçamental “trabalhar para o crescimento futuro.”

Com que instrumentos?

Excepto que a experiência grega, portuguesa, mostraram que não é nada assim. Pior ainda, este processo de consolidação orçamental tem arruinado a confiança não só nos países sob  o programa da Troika, mas também noutros países da zona do euro também. Se a lógica do relatório está correta, então não teria tido  havido nenhuma crise Europeia.   Os agentes económicos seriam bem-vindos à  consolidação grega e teriam investido  na economia grega uma vez  que a maior parte da consolidação estava conseguida. Eles não teriam temido o contágio a outros países endividados.

Mas não é mesmo nada assim. E, tendo em conta  o estado deplorável da economia cipriota e o precedente do assalto ao valor  dos depósitos, ele será provavelmente  necessário mais de um ano e meio para restaurar a confiança na economia da ilha. Como o efeito negativo da consolidação vai continuar para se conseguir atingir o objectivo do excedente  primário (o excedente sem ter em conta o serviço da dívida) em 2016 e de  4% do PIB em 2018. Além disso, a Troika tem o cuidado de dizer quais os  sectores  que  irão permitir atingir  um  tal nível de crescimento. Segundo ela ,  parece-se  pensar que o sector bancário pode ainda atrair candidatos internacionais, no que é francamente  muito optimista. Mas se não for assim? O relatório não se   alarga  sobre o assunto. Mas é verdade que se a economia cipriota de facto crescer , seria necessário investir em novos sectores.   Já vimos o que vai acontecer ao nível de investimento… Tudo isto não é nada  confiável.

Por  outras palavras, este relatório parece especialmente uma justificação  para o “plano de resgate”. Este parece-se, como os da  Grécia, Portugal e Irlanda, fadados  ao fracasso e a futuras alterações. A magnitude do choque para a economia cipriota torna pouco suportável o nível da dívida pública e os objectivos definidos pela Troika. Só agora é que os infortúnios de Chipre estão a começar a verificar-se.

Romaric Godin, Pourquoi le rapport de la Troïka sur Chypre est peu crédible, La Tribune, 1 de Abril de 2013.

Leave a Reply