AS CASCAS DE BANANA EM PUTREFACÇÃO: DE ROGOFF AO ECONOMISTA CAVACO SILVA
Por Júlio Marques Mota
VIII
(CONTINUAÇÃO)
…
Mas podemos olhar para a dimensão da tragédia desta política aplicada na Inglaterra. Alguns dados publicados esta semana pelo ONS (o INE inglês):
Evolução da produção:
Evolução do desemprego jovem:
E para concluir vejamos a situação da balança comercial, que para nós é o mais terrífico exemplo da política de desindustrialização e de destruição do tecido produtivo da Europa que tem sido levada a cabo pelo seu neoliberalismo.
Balança comercial de produtos pelos principais sectores:
Balança comercial de serviços:
Olhando para estes gráficos, fica-se objectivamente sem comentários tal é a dureza da situação que eles reflectem. E face a tudo isto o que nos diz Osborne, no mesmo dia em que R&R se explicavam no The New York Times? Que nos diz esse defensor acérrimo das políticas de austeridade, uma outra versão, a versão inglesa do nosso Gaspar? Que nos diz ele, então:
Os dados, os gráficos, de hoje são um sinal encorajador, de que a economia está a curar-se. Apesar de um cenário económico difícil, estamos a fazer progressos. Todos nós sabemos que não existem respostas fáceis para os problemas que foram construídos ao longo de muitos anos, e eu não posso prometer que o caminho a ser percorrido será sempre um caminho fácil, mas continuando a enfrentar os nossos problemas de frente a Grã-Bretanha poderá recuperar estando nós pois a construir uma economia para o futuro.
O descaramento é total, lá, em Londres, como cá, em Lisboa, com o nosso Gaspar a lançar mais políticas de austeridade sobre políticas de austeridade, mesmo com o país a definhar por cada Conselho de Ministros realizado. Mas estamos a caminho da cura, dizem-nos lá e cá igualmente.
Compreende-se portanto que o trabalho feito pelos economistas americanos HAP na desmontagem de R&R, onde se torna claro que tudo vale para os neoliberais construírem e justificarem uma ideologia, possa ser considerado como uma arma intelectual extremamente importante hoje. Saibamos nós aproveitá-la, saibamos nós de uma vez por todos sermos capazes de enfrentar a mistificação ideológica que os neoliberais diariamente nos tentam impingir, saibamos dar a entender às pessoas a verdadeira razão desta crise, crise permitida e dinamizada por Bruxelas, crise criada ao longo de anos por um modelo em que a Europa se desindustrializou (veja-se como exemplo, o gráfico da balança comercial da Inglaterra), crise criada pelos homens que hoje supostamente têm como missão, exactamente, resolvê-la e, como se pode observar, estão a aumentá-la. E a sua resposta à crise mais uma vez não surge de um debate sobre os mecanismos económicos “de saída da crise”, a sua resposta é directamente colocada no plano da ideologia, pois o trabalho de R&R com a sua manipulação, é pura e simplesmente isso mesmo, e esta resposta imposta pelas classes dominantes é bem espelhada nas intenções do governo português em querer refundar o Estado, ou seja, adaptá-lo às necessidades do neoliberalismo e do mercado mundial sem nenhuma regulação, uma tentação que está a percorrer toda a Europa.
Saibamos pois tirar as devidas conclusões do que se passou, do que se está a passar, dos caminhos por onde nos querem fazer caminhar. E que este trabalho possa ser visto na sua intenção como a minha pequeníssima contribuição nesse sentido.
Bibliografia
1. Thomas Herndon, Michael Ash and Robert Pollin, Does High Public Debt Consistently Stifle Economic Growth? A Critique of Reinhart and Rogoff, 15 de Abril, 2013
2. Chris Giles and Robin Harding, “Austerity is hurting – but is it working?”,Financial Times
3. Josh Bivens, A slight bit of substance on the Reinhart and Rogoff 90 percent debt threshold, Economic Policy Institute, 17 de Abril, 2013
4. Wolfang Munchau, “The perils of putting one’s faith in a flimsy theory”, 22 de Abril, 2013
5. Arindrajit Dube, “Reinhart/Rogoff and Growth in a Time Before Debt”, 17 de Abril, 2013
6. Mike Konczal, “Researchers Finally Replicated Reinhart-Rogoff, and There Are Serious Problems”, 16 de Abril, 2013
7. Olli Rehn, Carta aos ministros das Finanças, Bruxelas, 13 de Fevereiro de 2013
8. Matthew O’Brien, “Forget Excel: This Was Reinhart and Rogoff’s Biggest Mistake, The Atlantic”, 18 de Abril, 2013
9. James Kwak, “Are Reinhart and Rogoff Right Anyway?”, 19 de Abril, 2013
10. James Hamilton, “Reinhart-Rogoff Data Problems”, 22 deAbril, 2013
11. Mounia Van de Casteele, “Et si une erreur de calcul avait imposé la rigueur budgétaire?”, La Tribune, 18 de Abril, 2013
12. Paul Krugman, “Further Further Thoughts On Death By Excel”, NYT, 17 de Abril, 2013
13. Olivier Blanchard and Daniel Leigh, Growth Forecast Errors and Fiscal Multipliers, FMI, Janeiro, 2013
14. Joe Weisenthal, “Meet The Two Most Dangerous Economists In The World Right Now”, business insider, 2 de Agosto, 2011
15. Jean-Baptiste B, “Décomposition d’une peau de banane (Reinhart et Rogoff)”, http://frappermonnaie.wordpress.com
Coimbra, 28 de Abril de 2013




