CARTA DE VENEZA -57 – por Sílvio Castro

  “O Maracanã é sempre o Maracanã”

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O Maracanã não terá o fim de Wembley, o lendário estádio do futebol inglês, posto abaixo para a construção de um novo. Um verdadeiro atentado à tradição britânica mais popular e das mais amadas. Chegou-se a pensar em fazer a mesma coisa no Rio, porque o velho Maracanã caía aos pedaços e quando chovia temporal o pequeno rio Maracanã, que lhe corre ao lado pela avenida do mesmo nome e é um tranquilo riacho de todos os dias, o transformava em verdadeira ”piscinão”. Queriam derrubá-lo e vender os seus pedaços como relíquias, mas Pelé protestou e com ele todo o Brasil.

 A partir de 2010 começaram as obras de remodelação do velho Maracanã. Eu o conheci o conheci antes que fosse construído nos amplos espaços do antigo hipódromo carioca, o muito famoso Turfe Clube do Maracanã. Desde 1940, o garoto Sílvinho conhecia aqueles muros altaneiros que corriam pela rua Turfe Clube, partidos que eram da bela avenida do rio, plena de mangueiras que faziam as delícias de meninada da minha rua Visconde do Itamaraty, colocada bem defronte de um dos altos portões do Hipódromo. Aos domingos aquele espaço quase sem limites hospedava uma variedade de times de futebol que logo partiam para as disputas de muitas partidas. Nós, a garotada da zona, aproveitávamos para jogar também a nossa pelada num ângulo livre, entre os campos dos grandes.

Assim correram os anos, até quando, já em 1948 sabia-se que o Brasil seria a sede do Campionato do Mundo, pela Taça Jules Rimet na edição de 1950, depois de sua longa suspensão devido à tragédia da II Grande Guerra Mundial. O Campionato do Mundo do Rio seria mais uma reafirmação do desejo de paz nutrido pela inteira comunidade internacional.

Foi então programada a construção do Maracanã que deveria ser o maior estádio do mundo. Os brasileiros o construiram em 665 dias: de 2 de agosto de 1948 a 16 de junho de 1950. Naquela espécie de Babilônia de movimentos e vozes, trabalhavam dez mil operários; foram então empregados dez mil toneladas de aço, oitenta mil metros cubos de cimento.  O esplendor se fazia coisa concreta e o estádio monumental, capaz de acolher tranquilamente 165 mil expectadores, o primeiro na história da arquitetura esportiva a ser construído com dois anéis começava a surgir da noite para o dia. Isso acontecia e enquanto o gramado tomava forma definitiva, os engenheiros e os operários da construção começavam a jogar as suas partidas do fim da tarde. Eram eles os primeiros a jogar no Maracanã!

 A primeira partida oficial foi disputada pelas seleções under-23 do Rio de Janeiro e São Paulo. Venceu a seleção carioca e o jovem, mas desde então reconhecidamente um craque, Didi ficou na história por ter marcado, já no nono minuto da partida, o primeiro gol naquele templo do futebol mundial.Outros gols ali marcados ficariam imortais. O mais famoso dele aconteceu em 1961 quando Pelé, numa partida do Santos contra o Fluminense, partindo de sua área com a bola nos pés, em driblingues irresistíveis, superou sete de seus adversários, chegou diante do grande goleiro Castilho, dele se livrou igualmente, e conduziu a bola até dentro da meta do Fluminense. O estádio levantou-se em pé e aplaudiu por minutos o Rei. Logo depois o Maracanã recebeu uma placa que imortalizava o gol irrepetível. O mesmo Pelé, no mesmo Maracanã, oito anos depois, em 1969 – eu ali estava e vi tudo – marcou o seu milésimo gol. Foi batendo um penalti; mas os torcedores todos, não só aqueles do Santos e do Vasco da Gama que aguardavam ansiosos o grande evento, acompanharam emocionados o Rei do futebol na volta olímpica por ele feita diante de mais de cem mil expectadores emocionados.

Depois do gol inaugural de Didi, o Maracanã se abre para o início da Copa do Mundo de 1950. O Brasil, sendo o país que a hospeda, tem a obrigação de vencê-la. Em verdade toda a sua marcha pelas diversas partidas, antes da final, parece confirmar tal expectativa. São vitórias sobre vitórias, muitas por goleadas. O ataque da seleção é avassalador, assim como a defesa se apresenta harmônica e criadora no seu centro-campo. Chega-se à final com o Uruguai, ao contrário, um finalista que atinge tal meta sem jamais demonstrar nada de extraordinário, a não ser o costumero caracter de jogo muito forte. Além disso, para conquistar o título à seleção brasileira basta o empate. Mas, todos sabem, a Seleção não joga jamais pelo empate!

Tudo parece correr normalemente, principalmente depois que Friaça inaugura o

placard e mesmo depois que Schiafino colhe o empate para o Uruguai.  Depois de que, o jogo continua e o ataque das goleadas não consegue marcar o gol da vitória. Ao contrário e como alguma coisa de absurda, este chega para o Uruguai, quando o ponta-direita uruguaiano, Ghiggia, fugindo pela esquerda da defesa brasileira, chega próximo ao gol de Barbosa e, ao tentar um centro na direção do seu centro-avante, erra a direção e a bola entra na meta brasileira, naquele pequeno espaço que está entre Barbosa e a sua trave vertical esquerda. Muito mais tarde, Ghiggia se exaltava dizendo: “Somente três pessoas conseguiram silenciar aquele estádio: Sinatra, o Papa e eu“. O ponta-direita campeão do mundo se referia a dois outros grandes eventos hospedados pelo Maracanã: Frank Sinatra, em 1980 não podia acreditar no que via quando estava por começar o seu recital no grande estádio, pois 175 mil pessoas ali estavam só para escutá-lo. Então foi uma hora e meia de espetáculo, num show de vinte canções, cantadas com emoção pelo grande Sinatra já então com os seus sessenta e quatro anos de idade. Todo o estádio cantou com ele, e em inglês, a imortal Strangers in the night. No mesmo ano de 1980, no seu mês de julho, deu-se a primeira missa de um Papa no Brasil com João Paulo II. Então foi um encontro expressivo do ânimo brasileiro, sempre capaz de entrosar anseios de espiritualidade com uma forte predisposição naturista. Daí o brasileiro parte para as mais diversas sínteses.

 E queriam colocar abaixo tal cenário! Tudo entretanto foi superado. Em vistas do Campionato do Mundo de 2014 quando o Brasil hospeda pela segunda vez o evento e anseia pela conquista do título de hexa-campião do mundo, em 2010 o estádio vem fechado as obras de sua reestruturação. Quando em 2014 ali se jogará a final do Campionato, o novo Maracanão aparecerá em vestes novas: menos redondo, mais elíptico. Com capacidade reduzida a 76 mil lugares, todos sentados, mais largos e flexíveis. O anel inferior levantado de cinco metros; cinquenta mil metros de cobertura com painéis foto-voltáicos; duzentos e trinta banheiros que recolherão água das chuvas; nove rampas de acesso, com capacidade para um fluxo de saída em oito minutos.

A reabertura oficial do Maracanã se dará no próximo 2 de junho, com a partida amistosa Brasil-Inglaterra. Depois de sessenta anos de muitos eventos, o Maracanã se reabrirá muito novo. Mas será sempre o Maracanã.

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