EDITORIAL – UM GRANDE DEMAGOGO

 Imagem2Mário Soares é aquilo a que durante os últimos anos da Monarquia e ao longo da Primeira República se chamava um «grande demagogo». Era um elogio. A palavra entrou no nosso léxico, vinda do francês, que  a criou a partir do grego – condutor de multidões. Depois o termo ganhou má reputação e passou a significar mistificador de multidões.  O pecado da demagogia é dos mais censurados pelos clérigos da política. Mas Mário Soares é um demagogo sem ser no sentido pejorativo e também sem ser no sentido elogioso.  Ou seja, é um animal político com uma intuição invulgar para dizer no momento oportuno aquilo que, quem o escuta, quer ouvir dizer.

Ontem, na Aula Magna da Universidade de Lisboa, no final da sua intervenção, que abriu a série de discursos da conferência “Libertar Portugal da austeridade”, lançou um aviso a Cavaco Silva – “Pense bem senhor Presidente da República”, “O Presidente da República tem feito tudo para proteger este Governo, que considera legítimo, mas não é verdade que o seja. Quando o povo, que é quem mais ordena, se manifesta praticamente todos os dias contra um Governo que elegeu com base em falsas promessas, que ignora a Constituição da República, não pode nem deve ser considerado legítimo”,  Depois, lembrou que Cavaco Silva poderá vir a ser responsabilizado directamente se mantiver o actual executivo de coligação em funções.”É bom para todos nós que o senhor Presidente da República deixe de considerar este Governo como legítimo, porque o povo e todas as classes sociais (dos militares às igrejas, passando pelos funcionários públicos) estão contra ele”, declarou. “Se continuar [a proteger o Governo], será responsável pela perda de paciência e pacifismo que temos tido até agora e que o povo se torne progressivamente mais violento. Pense senhor Presidente da República nas responsabilidades que lhe serão assacadas”, disse. Mário Soares apelou depois à acção dos portugueses contra “o medo, pela liberdade, pelo diálogo, pela conjugação de vontades”, em nome de uma atitude patriótica. A intervenção  de Soares, foi por diversas vezes interrompida com aplausos e com centenas de pessoas a gritar “demissão, demissão”. Mesmo debilitado pela idade, Mário Soares supera os mais jovens na capacidade de empolgar. A propósito – a ausência de António José Seguro ter-se-á devido, como foi dito, a incompatibilidades de calendário ou à manobra manhosa de não ser conotado com «esquerdices»? Mas voltemos a Mário Soares.

Tudo muito bem, só que Soares na sua acção política, fez tudo, mas tudo, para barrar o caminho0 à esquerda (e não estamos a falar só do PCP). Condenar o neoliberalismo é um prodígio de desfaçatez para quem abriu de par em par as portas ao ultraliberalismo.

Mas esse «pormenor» não lhe tira a razão no que disse ontem. Cavaco se fosse um pouco mais inteligente escutaria os conselhos de quem sabe mais.

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