Para muita gente constituirá um mistério por que motivo, pessoas como eu, com idade para ter juízo, ainda perdem tempo a lutar com moinhos de vento. Respondo-lhes, em meu nome e dos que como eu não deixam de protestar, mesmo quando, como é o caso, isso parece inútil, com palavras de um poeta, do Egito Gonçalves, nas suas “Notícias do Bloqueio”: Mas diz-lhes que se mantém indevassável/ o segredo das torres que nos erguem,/ e suspensa delas uma flor em lume/ grita o seu nome incandescente e puro.
A questão da esquerda, do que é a esquerda hoje em dia é uma questão central – Uma tese que abre caminho, usando a verruma do politicamente correcto, tem vindo a consolidar a ideia de que já não faz sentido a dicotomia esquerda/direita. Ideia aparentemente estúpida, mas que leva a água ao moinho da direita. No entanto, talvez haja um fundo de verdade na capciosa afirmação – dado o volume de informação que está ao alcance de todos, é difícil que alguém seja integralmente de esquerda ou completamente de direita. Até nos políticos profissionais e nos seus partidos encontramos estas parodoxais misturas. A linguagem marxista entra com frequência no discurso de direita. Em contrpartida, o pragmatismo, ou seja, a rendição ao que parece inevitável, assalta, por vezes, gente que globalmente é de esquerda. Os partidos de direita regem-se, tal como os de esquerda, por um sistema que tem a ver com o «centralismo democrático» e, por vezes, no discurso oficial da esquerda entram conceitos subsidiários da moral burguesa. A presença de partidos de esquerda num parlamento regido por regras de direita, é outro sinal dessa mistura. Onde quero chegar é à conclusão de que raramente houve momentos históricos em que a esquerda fosse tão necessária como nesta era confusa em que o excesso de informação cria paradoxos e contradições.
E essa necessidade bem necessário seria proclamá-la, e como nas “Notícias do Bloqueio”, divulgá-la nos jornais diários, escrevê-la com ácido nas paredes…Mas então, perguntareis, não está definido o que é a «esquerda»? Acho que não – para definir esquerda recorro a duas ajudas, ao poeta francês Jean-Arthur Rimbaud, que disse ser preciso «mudar a vida». E a Karl Marx que, embora, como Engels, nunca tenha dito ser «de esquerda», afirmou que era indispensável «transformar o mundo». A mudança da vida, isto é, dos valores mercantilistas e da lógica consumista, que regem a sociedade em que vivemos, e a transformação do mundo, ou seja a Revolução que varra as desigualdades, as injustiças sociais, para mim constituem duas excelentes definições do que deve enformar um pensamento de esquerda. Quem aceita os valores actuais como bons e apenas lamenta que nem todos tenham acesso a bens de consumo, não quer mudar a vida – apenas contesta a forma como a distribuição da riqueza é feita. E muito menos quer transformar o mundo. E é esse conformismo, essa aceitação dos modelos políticos e sociais que nos foram impostos que me parece retirar força à esquerda.
Os partidos da esquerda parlamentar, embora as suas bases programáticas estejam preenchidas com respeitáveis princípios, logo que envolvidos nas questões práticas, depressa esquecem ou ultrapassam esses princípios em nome de um pragmatismo que visa objectivos de curto prazo. Objectivos de curto prazo que são o derrube do governo para os dois partidos de esquerda e a conservação do poder para o partido do governo. Compreende-se a urgência de derrubar o governo para uns e de conservar o poder para o outro. O que já não se compreende é que haja acordos, explícitos ou tácitos, com partidos de direita, para uma ou outra coisa. Onde ficam então os tais bonitos princípios anunciados? Teoria e praxis têm de estar em consonância, sem o que ambas perdem a razão de ser. Mudar a vida e transformar o mundo? Nem tal coisa lhes passa pela cabeça.
Ou seja, quem conduz os destinos do mundo, definiu as regras do jogo – neste caso, o modelo capitalista – e os partidos de esquerda tentam combater a injustiça social (que é o grande motor do modelo capitalista) seguindo as regras impostas. Na minha opinião, a primeira coisa a fazer era dizer – não aceitamos jogar este jogo. Por que motivo a prática dos partidos, marxistas ou socialistas, obedece a um pragmatismo que atropela princípios básicos daquilo que se entende por política de esquerda? Porque esses princípios muitas vezes não são compatíveis com a ânsia de obtenção de votos e constituem empecilho ao seu funcionamento. Há uma graça antiga que diz .”Se a bebida te prejudica o trabalho, não hesites – deixa de trabalhar!” . Neste caso, dir-se-ia “se os teus objectivos são incompatíveis com teus os princípios, não hesites – esquece os princípios!” .
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