RAUL BRANDÃO -3 – por Carlos Loures

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(Conclusão)

As Ilhas Desconhecidas, livro publicado em 1926, insere-se dentro da mesma linha de evocação de mitos locais e de descrição de quadros da faina piscatória. Neste mesmo ano de 1923 publica três peças de teatro – o Doido e a Morte, O Rei Imaginário e o Gebo e a Sombra. Em 1929, será editada outra das suas obras mais destacadas – O Avejão. O Pobre de Pedir, na linha confessional e autobiográfica das Memórias, apenas será publicado postumamente em 1931. Na edição de 1984, além de uma apresentação expressamente escrita por Guilherme de Castilho (que viria a falecer em 1987), inclui-se ainda um valioso estudo introdutório de Vítor Viçoso. Um comovido texto de Maria Angelina Brandão, vindo da edição original, integra ainda este volume. Também com edição póstuma, sai em 1984, precedida de uma exaustiva introdução de Túlio Ramires Ferro, a sua obra Os Operários. Constituiria uma grave omissão falar da obra de Raul Brandão sem referir a «Casa do Alto», situada na Nespereira (Guimarães), uma aldeia minhota enterrada entre pinheirais e serranias, para onde, já casado foi viver em 1903. Ela desempenhou um importante papel na sua vida de escritor, pois ali, na sua torre, produziu textos como El-rei Junot, A Conspiração de 1817, Húmus, A Farsa, os dois primeiros volumes das Memórias, Os Pescadores, As Ilhas Desconhecidas e o Portugal Pequenino, escrito em colaboração com Maria Angelina.

Diz nas Memórias: «A certa altura da vida tive a impressão de que me despenhara num mundo de espectros. A face humana meteu-me medo pelo que nela descobria de repulsivo e de grotesco. Fugi para poder viver […] Fugimos para a aldeia… a nossa casa fica a meia encosta da colina. Por trás, o mar verde dos pinheiros, em frente, os montes solitários. Este cantinho rústico criei-o eu palmo a palmo.» Quando em 1912 passou à situação de reforma (com 45 anos), todos os Invernos desciam, ele e Maria Angelina, até Lisboa em busca do clima mais ameno. Na capital recarregava também a sua bagagem de informação, convivendo intimamente com uma grande parte da elite intelectual do País.

Na Casa do Alto trabalhava depois esse material registado pela sua sensibilidade fotográfica. Diga-se ainda que à grande qualidade da sua obra não corresponde, como tantas vezes acontece, uma adesão do público e, consequentemente, dos editores. Guilherme de Castilho no seu prefácio à edição de 1984 de O Pobre de Pedir, chama a atenção para este desencontro, infelizmente tão frequente, entre escritor, editor e leitores: «Só aos quarenta e cinco anos, em 1912, com vinte e dois anos de carreira literária e depois de sete obras publicadas, cada uma de diferente paternidade editorial, é que Raul Brandão encontra o primeiro editor que vai publicar com alguma continuidade obras suas: A Renascença Portuguesa. Aqui permanecerá até 1923, ano em que pela mão de Aquilino, passa a ser editado pela Bertrand. A Seara Nova, em 1926, será a chancela editorial com que serão lançados os livros da última fase da sua vida.»9 «Silhueta de pirata nostálgico, tesourando o chão a passadas sonâmbulas», com estas palavras se autodefiniu Raul Brandão. Sobre o seu aspecto físico, ficaram-nos fotografias suas, retratos executados por António Carneiro e por Columbano. Ficaram-nos também muitos testemunhos dos que o conheceram. E, sobretudo, as suas Memórias. De tudo o que sabemos, juntando as peças do puzzle, podemos avaliar, não só a obra que tantos rasrtos deixou na literatura portuguesa, como a dimensão ética de um homem chamado Raul Brandão. Numa entrevista concedida à agência Lusa, por ocasião do 146.º aniversário do nascimento de Raul Brandão, a Professora Maria João Reynaud destacou a influência de Raul Brandão em  escritores tão consagrados como Vergílio Ferreira, José Saramago, Maria Gabriela Lllansol, José Luís Peixoto ou Rui Nunes. E foi mesmo ao ponto de afirmar que Mário Soares é “a figura política portuguesa herdeira do pensamento ético de Raul Brandão”. Professora de Literatura Portuguesa na Faculdade de letras da Universidade do Porto Maria João Reynaud é a autora da tese baseada nas três versões da obra ‘Húmus’ (1926), que se intitulou ‘Metamorfoses de escrita: Húmus de Raul Brandão’, lembrou a universalidade da escrita de Brandão e a actualidade da obra Húmus, que foi recentemente traduzida em catalão por Anna Cortils.

Feita esta descrição sucinta da sua biobliografia pouco mais há talvez a dizer num registo de baixa frequência sobre este grande vulto da literatura portuguesa (o que significa que quase tudo fica por dizer). E aqui voltamos a dar a palavra ao diplomata e escritor presencista Guilherme de Castilho, autor de um dos mais inteligentes estudos biográficos sobre Brandão (Raul Brandão – Vida e Obra, Lisboa, 1979): «A história da vida de Raul Brandão […] é, pode dizer-se, a história da sua obra. A alguém que lhe pediu a sua biografia, respondeu: ‘Podia dizer-lhe quando nasci, quando comecei a escrever, etc. Considero tudo isso inútil. O importante seria dizer-lhe quando o fantasma se intrometeu na minha vida. Nem sei ao certo… […] Da minha vida não posso avançar mais nada, além do que aí está em farrapos nalguns dos meus volumes…’» Terminamos com as palavras com que, em Janeiro de 1918, ele dá início às suas Memórias: «Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões. Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho puído. Não me habituo: não posso ver uma árvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura duma pedra.»10

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1 – Guilherme de Castilho, biografia de Raul Brandão, In Memórias (Lisboa,
1919-26).
2 -Raul Brandão, Memórias (Lisboa, 1919-26).
3 – Raul Brandão, op. cit.
4 – Raul Brandão – op. cit.
5 – Panfleto Os Nefelibatas (Lisboa, s/data – fim de 1891 ou princípio de 1892) – Citado em Dicionário da Literatura Portuguesa, dirigido por Álvaro José Machado (Lisboa, 1996).
6- – Ao longo das suas diversas edições, a obra foi tendo títulos diferentes; referimos aqui o que Raul Brandão decidiu para a 3ª, da Renascença Portuguesa, saída em 1917. Na mais recente edição de 1988, a da Editorial Comunicação, foi seguido o critério adoptado pelo escritor Manuel Mendes ao preparar uma edição das Obras Completas em fascículos para o «Jornal do Foro», atribuindo-se o
título que o autor escreveu pelo seu punho sobre um exemplar de trabalho da 3ª edição – Vida e morte de Gomes Freire.
7 – José Régio – Artigo publicado no nº 23 da Presença (Coimbra).
8  –  – José Cardoso Pires – prefácio a Os Pescadores (Editorial Comunicação, Lisboa, 1986)
9- Guilherme de Castilho in apresentação a O Pobre de Pedir (Editorial Comunicação, Lisboa, 1984).
10 – Raul Brandão – op. cit.

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