
Na História, há palavras que são aplicadas retroactivamente para definir acontecimentos de épocas em que essas palavras ou não existiam ou existiam com acepções diferentes. O vocábulo Revolução é um exemplo dessa utilização anacrónica – o período histórico, a crise que levou à ruptura da primeira dinastia, é designado frequentemente por a Revolução de 1385. Não encontramos a palavra em Fernão Lopes, por exemplo. E a restauração da independência é por vezes designada por Revolução de 1640.
Mais uma vez recorro ao meu amigo José Pedro Machado que no seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, diz : «do latim Revolutione, revolução, volta» E junta abonações «Séc. XVII: – Ainda que as reuoluções, podião mudar estes nomes…, Manuel Godinho de Herédia, Informação da Aurea Quersoseno, p. 70, ed. de 1807». Acrescenta que na moderna acepção o termo nos vem do francês révolution. Ou seja, o conceito é antigo, mas o vocábulo que o define é relativamente recente. A palavra vem-nos do latim e usava-se noutras áreas do conhecimento, na astronomia, por exemplo.
Produziram-se rupturas súbitas no processo histórico, mudando radicalmente o seu curso, aquilo a que hoje chamamos revolução, mas só a partir de 1789 o termo passou a ter cabimento na ciências sociais. Marinada ao longo das comunas, a palavra revolução foi sendo cozinhada durante o século XIX e entrou no XX já com o sentido que hoje lhe damos. O princípio do século XX foi, aliás, um século de “revoluções”. Bem, onde quero chegar? Acho que estamos a precisar de uma revolução, de uma ruptura, de uma volta que não seja uma mera revolta. E insisto na etimologia para que se compreenda que não me estou a referir a pequenas mudanças, mas a transformações radicais.
E não estou a falar de violência. Para nós, a palavra vem embrulhada em violência – guilhotinas, barricadas, fuzilamentos, regicídios, chacinas… Mas não é isso que a palavra significa. Quando os barcos portugueses e castelhanos afrontaram o oceano, estavam a iniciar uma revolução – pois estavam a abrir rotas marítimas que iriam pôr em causa o transporte de mercadorias em caravanas, como as que Marco Polo tão bem descreve. Uma revolução também biológica, pois as plantas de um continente eram transpostas para outros e a produção agrícola sofria alterações profundas, com espécies alienígenas a destruir as indígenas a conviver ou mesmo a cruzar-se com elas. No fundo, as navegações, utilizando os conhecimentos científicos que não cessavam de avançar, acabaram com o mundo medieval. Era o Renascimento e, com esse segundo fôlego do classicismo, nascia um novo sistema económico – o capitalismo.
No fluir do processo histórico, temos tendência para valorizar os marcos políticos e a esquecer que as mais das vezes estes apenas são a face visível de transformações que fermentaram em camada mais profundas. A Revolução de que falo e que ditará o fim do capitalismo e o começo de um outro sistema, parece estar já em marcha. Os Descobrimentos foram resultado da apropriação das conquistas científicas – grandes descobertas no campo da matemática, da química, da geografia, da astronomia, passavam do mare nostrum para o mare ignotum. Os conhecimentos acumulados não permitiam que a Igreja continuasse a deter o progresso. Roma, embora sem poder militar significativo, dominava o mundo. Se dependesse de Roma, a chamada Idade Nova nunca teria surgido.
Hoje, guiamo-nos por conceitos que nos vêm do fim do século XVIII. A ciência e a tecnologia estão muito adiantadas, mas nós continuamos a orientar as nossas vidas por um sistema económico que era inovador na Flandres do século XVI, por um sistema político que já no século XVIII era contestado, por ser considerado anti-democrático (refiro-me à democracia representativa), por leis que se inspiram na tradição histórico-jurídica da antiga Roma. Mecanismos ditos democráticos como parlamentos, partidos, sindicatos, estão profundamente desajustados – os parlamentos estão tomados por cliques políticas, os partidos cabeças sem corpos, com políticos profissionais a exibir dotes histriónicos para massas de eleitores que se movem ao sabor do marketing e que votam de acordo com os opinion makers…
Temos conhecimentos, ciência, tecnologia, que nos permitiriam dar um passo em frente. Mas a maioria de nós prefere continuar a percorrer os corredores deste labirinto sem saída – acusando os histriões de histrionismo, os ladrões por roubarem, os assassinos por matarem, os mentirosos por mentirem. Um passo em frente e tudo isso ficaria para trás.
A Revolução.
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