SOBRE UM MUITO BOM PROFESSOR, SOBRE UM MUITO MAU BANQUEIRO – ALGUMAS NOTAS QUE EM FORMA DE CARTA AO DR. VÍTOR CONSTÂNCIO PODERIAM SER ENVIADAS. Por JÚLIO MARQUES MOTA.

Parte IV
(continuação)

Face à sua narrativa, mostremos agora a nossa, com uma ilustração detalhada sobre os excedentes, mas de imediato uma pequena questão se nos levanta. Toma como indicador a taxa de câmbio real, expressa em termos de custos unitários do trabalho. Se a representarmos pelo símbolo E, então a taxa de câmbio real é expressa por            E=Rs (wi/w*). Ora Rs é assim uma componente entre as três que estão no lado direito da igualdade, para determinar a competitividade da economia real mas não havendo política cambial — a UE tem a política cambial que os outros determinam diz-nos Fitoussi — então a competitividade da UE e de qualquer país portanto fica sujeita aos fenómenos aleatórios dos mercados cambiais e às manipulações possíveis da sua taxa de câmbio, como se a economia real funcionasse como um elástico e de grande coeficiente de elasticidade. Adicionalmente, se os mercados impõem um Rs mais alto, a lógica da UE e de si próprio é então aplicar políticas de austeridade que directa e indirectamente levam à descida de wi, aqui representando o custo de trabalho. Com isto, os níveis salariais, em nome da política de competitividade, andam a reboque dos disfuncionamentos dos mercados. Nada disto se encontra no seu texto. Passemos ao lado. Vejamos a posição externa de alguns países da UE:

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Ou ainda segundo as Perspectivas da Primavera de 2013 (Comissão Europeia 2013):

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Onde claramente há países sempre em défice na balança corrente e outros sempre excedentários e nestes estão a Holanda, a Áustria e a Bélgica, paraísos fiscais, Finlândia, Alemanha, a mostrar que há na Europa uma linha de fractura entre o grupo dos países ditos mercantilistas de crescimento alimentado pelo comércio externo, em fractura com o grupo dos países do sul, ditos de crescimento alimentado via consumo e este alimentado pelo endividamento das famílias, e ainda um terceiro grupo, dito de países intermediários entre estes dois grupos como a França, cuja dinâmica assenta no crescimento da procura (bens de consumo e de investimento) via endividamento. Ora por mais austeridade que se faça nos países ditos periféricos dada a estrutura produtiva referida, esta austeridade significa, o que se tem verificado, o elemento dinamizador de uma espiral recessiva, primeiro para o sul e depois, para o norte, de que já se começam a sentir os sintomas. Por outras palavras, a saída da crise e a resolução dos desequilíbrios globais passa pela análise e criação de vias de crescimento, sabendo-se que em economias nacionais extraordinariamente abertas como são todas as da Zona Euro, não é possível haver crescimento num só pais. Forçar cada um deles a políticas de austeridade devia então ser considerado pura e simplesmente crime. François Asselineau dá-lhe o nome, chama-lhe crime de alta traição, à Europa suponho. No seu texto passa mais uma vez ao lado de tudo isto.

Mas a terminar esta parte da análise da sua narrativa vejamos a posição comercial da Alemanha segundo os dados de Destastis publicados em 2013:

A economia alemã está muito orientada para a exportação e é assim também muito dependente das exportações. Em 2012 Alemanha exportou bens no valor de 1097.3 mil milhões ao passo que as suas importações atingiram o valor de 909,1 mil milhões de euros. A balança comercial teve um excedente na ordem dos 188,3 mil milhões de euros. Nos dados abaixo sublinhe-se o papel destacado da Holanda nas importações feitas pela Alemanha. Como sabemos, a Holanda é um paraíso fiscal e não é de excluir que parte destas exportações holandesas tendo como destino a Alemanha sejam de produções originárias de países emergentes. Veja-se, por exemplo, as exportações de calçado registadas como sendo originárias da Holanda!

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Os veículos motorizados e peças representam 17,3% das exportações e são o principal grupo de bens exportados pela Alemanha em 2012. As máquinas representam 15,0% e os produtos químicos 9,5%, são o segundo e o terceiro item em valor de entre os mais importantes itens de exportação. Estes três ramos representam 41,7% das exportações alemãs.

Espelho do que acabamos de expor, repare-se que a Alemanha é excedentária para com todos os países da segunda tabela, com a exceção da China. Bela lição, portanto que se pode daqui tirar, mas da qual o segundo homem forte do BCE se esqueceu de falar. Aliás, tudo isto a levantar a questão da desregulação dos fluxos de mercadorias e das tecnologias. Nem é por acaso que circula a nível europeu uma petição (Ribes 2013) a apresentar ao Parlamento Europeu sobre a necessária regulação do comércio internacional onde se pode ler:

Pedimos ao Parlamento Europeu que as suas propostas se traduzam na prática pela aplicação de medidas concretas, nomeadamente:

— que as trocas internacionais sejam assentes em três princípios, que se juntam as propostas do Parlamento Europeu: reciprocidade: o equilíbrio estrutural das trocas internacionais e a regulamentação monetária internacional: a equidade social, a equidade na saúde e a equidade nas questões ambientais.

— introduzir uma nova política comercial comum da União Europeia face aos países terceiros com base nestes três princípios.

— integrar esta nova política comercial comum no quadro de uma reforma da Organização  Mundial do Comércio.

Uma fase de consulta nas instâncias internacionais, seguida por um período de transição na implementação destas propostas, permitiria evitar uma desestabilização da economia global e de alcançar as modificações necessárias.

Na ausência de um acordo internacional dentro de um prazo razoável, a União Europeia aplicaria unilateralmente a nova política comercial proposta [nesta petição].

(continua)

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