Se alguma vantagem existe na situação actual, em que, pela primeira vez, desde Abril de 1974, sofremos uma dura e acentuada regressão económica no nível de vida médio das famílias portuguesas, essa vantagem está na recuperação de um certo espírito de unidade da esquerda. Na sua recente entrevista ao Publico, Mário Soares, disse coisas importantes e com o objectivo claro de recuperar essa unidade, embora num registo de baixa frequência – entendendo esquerda num sentido demasiado lato. O sentido que enformava o “antifascismo” na luta contra a ditadura.
Debilitado fisicamente, mas conservando a lucidez e a agilidade mental que sempre o caracterizaram e que mantém a desonestidade ideológica ao serviço da qual pôs as suas qualidades de demagogo, Mário Soares afirmou que «Neste momento, somos uma pseudodemocracia, porque a democracia precisa de ter gente que resolva os problemas” (…) “Quando o Presidente da República não é capaz de resolver nada a não ser estar de acordo com o Governo, e o Governo não faz nada porque não tem nada para fazer, nem sabe o que há-de fazer, o que é que se passa?”
Comparando o que se está a passar no Brasil com a situação em Portugal, Soares diz que “há muito medo na sociedade portuguesa”.”É por isso que a democracia está em baixa, porque não havia medo e hoje há muito medo. As pessoas têm de pensar duas vezes quando têm filhos. Mas é uma coisa que pode levar a actos de violência” (…)”pode acontecer, porque o desespero é tal que aqueles que têm fome podem zangar-se”. (…) “A justiça só funciona para os pobres”.”Aos que roubam milhares de contos ao Estado, em bancos e fora de bancos, não lhes acontece nada”. Como corolário desta análise diz temer que ocorra uma revolução ou, uma ditadura, “o que seria ainda pior”, conclui.
Não concordamos com muitos dos pressupostos, mas algumas das conclusões coincidem com as que fazemos. A de que vivemos numa pseudo-democracia, por exemplo. E a de que o desenlace não se adivinha pacífico.
