SOBRE UM MUITO BOM PROFESSOR, SOBRE UM MUITO MAU BANQUEIRO – ALGUMAS NOTAS QUE EM FORMA DE CARTA AO DR. VÍTOR CONSTÂNCIO PODERIAM SER ENVIADAS. Por JÚLIO MARQUES MOTA.

Parte VII
(continuação)

A mesma realidade captada de um outro ângulo mostra-nos claramente que as modificações impostas na Europa, pós-crise, estão a transformar e a moldar a paisagem industrial Europa de acordo com a política mercantilista alemã, ou seja, estão a transformá-la no espaço de fornecimento de produtos intermediários para a potência firmada no espaço europeu, se possível aos custos asiáticos, e as desvalorizações internas correspondem a isso mesmo. Veja-se a perda relativa da China nas importações alemãs entre 2000 e 2007 quando confrontadas com o peso relativo entre 2007 e 2013, acontecendo o inverso com África, fornecedor privilegiado de matérias-primas que nessa qualidade aumenta de importância. Pelo lado das exportações, a posição com a China assinala os efeitos da crise, um pouco mais. Nenhuma dúvida se tem perante a afirmação de que o reforço da Alemanha como potência industrial na Europa e no Mundo é apoiada na desindustrialização dos restantes países da Europa com o referido detalhe que as zonas de salários mais baixos tendem a ser as zonas de sub-contratação da Alemanha. E mais uma vez a política europeia e da Troika a servir-lhe de alavanca. Mas Vítor Constâncio diz-nos:

“Não obstante isto, não é agora o momento de mudar de rumo, pois até se poderia destruir tudo o que já se conseguiu”.

Retomemos ainda a narrativa de Vítor Constâncio:

Nesta intervenção, lembrei que os desenvolvimentos e as práticas erradas ou mesmo insanas nos principais centros financeiros no início do milénio e a crise financeira que se seguiu foram uma causa profunda subjacente da crise que enfrentamos na Europa ainda hoje. Isto não é para negar que também houve outros factores a desempenharem um papel no mesmo sentido. Tais factores incluem: o fracasso dos reguladores para travar o aumento da alavancagem do sistema financeiro; os obscuros regimes de resolução dos problemas bancários que promoveram o risco moral no sector bancário; e o fracasso num certo número de jurisdições da Zona Euro em aplicarem políticas orçamentais anticíclicas adequadas e em realizar as reformas estruturais destinadas a melhorar a competitividade.

Numa outra passagem afirma:

No entanto, o ajustamento significativo que foi feito pelos países em dificuldade tem sido alcançado a custo elevado em termos de crescimento e, particularmente, em alguns casos em termos de desemprego também.

Simplesmente o aprofundamento a aplicação das medidas estruturais que Vítor Constâncio reclama significam mais do mesmo modelo que gerou a crise, significa logicamente mais políticas deflacionistas, significa mais desemprego, significa mais pobreza, significa continuar a desmantelar a Europa que outros construíram. E as reformas estruturais têm sido isso mesmo, veja-se Portugal. Por isso vale a pena olhar para um país vítima ao limite de tudo isto e que foi, de forma vergonhosa dado como representante da eficácia das políticas de austeridade, daí a posição de Olivier Blanchard e Lagarde acima citada, a Letónia. Para o feito citemos extensivamente Blyth (2013):

Os países da Zona Euro, o Reino Unido e os Estados Bálticos, ofereceram-se como voluntários para uma grande experiência em que se pretende saber se é possível, para um país economicamente em situação de estagnação, traçar o seu caminho para a prosperidade. A austeridade — a deflação deliberada de salários nacionais e dos preços através de fortes cortes nas despesas públicas — foi projectada para reduzir a situação de endividamento dos Estados devedores assim como dos seus défices, para aumentar a sua competitividade e para restaurar o que é vagamente referido como a “confiança empresarial”. O último ponto é fundamental: os defensores da austeridade acreditam que cortar nas despesas públicas estimula o investimento privado, desde que isso signifique que o governo nem vai gerar nenhum efeito de evicção do mercado de investimento com os seus próprios esforços para estimular a economia, nem vai estar a aumentar os seus encargos com a dívida. Consumidores e produtores, o argumento é assim mesmo, estes agentes ir-se-ão sentir, ambos os grupos, confiantes quanto ao seu futuro e vão gastar mais, permitindo-se assim que a economia volte novamente a crescer.

Em consonância com tal linha de pensamento e na sequência do choque da recente crise financeira, que provocou um crescimento rápido da dívida pública, uma grande parte da Europa tem andado a aplicar as políticas austeridade de modo consistente durante os últimos quatro anos. Os resultados desta política encontram-se bem visíveis e são igualmente consistentes: a austeridade não funcionou, não funciona. A maioria das economias da periferia da Zona Euro está em queda livre desde 2009 e no quarto trimestre de 2012, a Zona Euro como um todo contraiu-se pela primeira vez. A economia de Portugal recuou 1,8%, a de Itália caiu 0,9% e até mesmo a suposta grande potência da região, a Alemanha, viu a sua economia contrair-se 0,6%. O Reino Unido, apesar de não estar na Zona do Euro, só à justa escapou de ser considerada a economia de um país do mundo desenvolvido com uma recessão em triplo V.

A única surpresa é que isso deve parecer estar a acontecer como sendo uma verdadeira surpresa. Afinal, o Fundo Monetário Internacional (FMI) advertiu em Julho de 2012 que cortes simultâneos nas despesas públicas em economias interligadas durante uma recessão, quando as taxas de juro já estão muito baixas, poderão inevitavelmente vir a prejudicar as perspectivas de crescimento. E esse aviso foi publicado quando já era ampla a evidência de que todos os países que tinham abraçado a austeridade como a política escolhida tinham elevado significativamente o seu valor da dívida relativamente aos valores de partida. O rácio da dívida pública/PIB de Portugal aumentou de 62% em 2006 para 108%, em 2012. A mesma relação para a Irlanda onde esta mais do que quadruplicou, de 24,8% em 2007 para 106,4% em 2012. O rácio da dívida pública/PIB na Grécia subiu de 106% em 2007 para 170% em 2012. E a dívida da Letónia passou de 10,7% do PIB em 2007 para 42% em 2012. Nenhuma destas estatísticas começou a contabilizar os custos sociais da austeridade, que incluem os elevados níveis de desemprego nunca vistos desde a década de 1930, nos países que agora compõem a Zona Euro. Então porque é que a administração pública de cada um dos países da Zona Euro, e não só da Zona Euro como é o caso da Inglaterra, se mantêm nesta trajectória, nesta espiral recessiva?

Portugal revê-se nisto tudo, Vítor Constâncio de modo nenhum, e queremos sublinhar que não há nenhuma referência em Constâncio sobre os custos sociais da austeridade, antes pelo contrário, é preciso continuar com as reformas estruturais é o que ele nos diz e estas reformas são isso mesmo. Dado tanto mais curioso quanto até uma certa direita americana considera que a instalação de um desempregado de longa duração numa família é um facto hoje mais violento ao longo do tempo que a morte de um familiar. Chocante? A explicação é simples. Com a morte de um familiar parte-se de um choque inicial de que se recupera mais ou menos lentamente a seguir, enquanto com um desempregado de longa duração este e a família sofrem um choque inicial que se vai aprofundando dia após dia, manhã após manhã, ano após anos e muitas vezes acaba de forma mais trágica ainda. A ser assim tem sentido falar-se em políticas assassinas, as políticas macroeconómicas utilizadas e impostas pela Troika e defendidas igualmente por Vítor Constâncio. E com elas, a Europa tem milhões, muitos milhões de mortos-vivos, mas mais mortos que vivos, a deambular pela Europa fora, pelos países internamente, pelas casas de cada um quando se começa a ter vergonha de sair à rua, pela alma de cada um de nós também, pois serão poucas as famílias que não serão atingidas por este flagelo.

(continua)

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