SER POETA – 8 – por Álvaro José Ferreira

* Chamaste-m’ó?:

Adão Carvalho – coros

Blandino Sérgio – voz, coros, viola braguesa, bandolim, guitarra

Carlos Adolfo – percussões, teclados, piano

Isabel Martinho – voz, coros

Octávio Fonseca – voz, coros, guitarra

Ricardo Rocha – concertina, melódica, guitarra

Sérgio Ferreira – coros, guitarra, viola braguesa

Produção – Chamaste-m’ó? e Emiliano Toste

Gravação, mistura e masterização – Emiliano Toste, no Estúdio Toste, São Mamede de Infesta

Eu nunca guardei rebanhos

Poema de Fernando Pessoa/Alberto Caeiro (parte I de “O Guardador de Rebanhos”, 1911-12)

Recitado por Mário Viegas* (in 2LP “O Guardador de Rebanhos”, Guilda da Música/Sassetti, 1983; CD “O Guardador de Rebanhos I”, Público, 2006; 3CD “Fernando Pessoa por João Villaret e Mário Viegas”: CD2, CNM, 2010)

Eu nunca guardei rebanhos,

Mas é como se os guardasse.

Minha alma é como um pastor,

Conhece o vento e o sol

E anda pela mão das Estações

A seguir e a olhar.

Toda a paz da Natureza sem gente

Vem sentar-se a meu lado.

Mas eu fico triste como um pôr-do-sol

Para a nossa imaginação,

Quando esfria no fundo da planície

E se sente a noite entrada

Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego

Porque é natural e justa

E é o que deve estar na alma

Quando já pensa que existe

E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Com um ruído de chocalhos

Para além da curva da estrada,

Os meus pensamentos são contentes.

Só tenho pena de saber que eles são contentes,

Porque, se o não soubesse,

Em vez de serem contentes e tristes,

Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva

Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos.

Ser poeta não é uma ambição minha.

É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes,

Por imaginar, ser cordeirinho

(Ou ser o rebanho todo

Para andar espalhado por toda a encosta

A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr-do-sol,

Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz

E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos

Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,

Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,

Sinto um cajado nas mãos

E vejo um recorte de mim

No cimo do outeiro,

Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,

Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,

E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz

E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,

Tirando-lhes o chapéu largo

Quando me vêem à minha porta

Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.

Saúdo-os e desejo-lhes sol,

E chuva, quando a chuva é precisa,

E que as suas casas tenham

Ao pé duma janela aberta

Uma cadeira predilecta

Onde se sentem, lendo os meus versos.

E ao lerem os meus versos pensem

Que sou qualquer coisa natural –

Por exemplo, a árvore antiga

À sombra da qual quando crianças

Se sentavam com um baque, cansados de brincar,

E limpavam o suor da testa quente

Com a manga do bibe riscado.

* Produção – Sassetti

Gravado nos Estúdios T.S.F. durante os meses de Setembro e Outubro de 1983

Captação – Carlos Lima


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