Sou El-rei D. Carlos I de Espanha (ou D. Carlos V do Sacro Império Romano-Germânico). De Vera Cruz, em 1521 o capitão Hérnan Cortés envia-me nau carregada com o tesouro de Montezuma, o príncipe asteca. Escreve-me que há lá muito mais ouro e terras férteis e que, para conquistarmos tudo isso, é preciso combater e escravizar os índios.
Eu, monarca da estirpe Habsburgo, mergulho os dedos no tesouro do príncipe asteca. Devo, ou não devo tomar o ouro que só está à espera de ser tomado? Se hesitar, estarei a condenar à fome os camponeses alemães, mal vão as coisas na Europa… De um lado cristãos, do outro pagãos. Respondo a Cortés: avança capitão, avança adelantado!
Dirijo-me ao oratório. Em contrição, dissipo umas réstias de dúvida quanto à minha decisão. As quais voltam a emergir, muitos anos decorridos, quando o padre Bartolomeu De Las Casas me descreve a matança dos índios e a conversão ao cristianismo dos sobreviventes. Na ilha da Jamaica existiam 200 mil índios, agora sobram 200. Deve ter lido Dante, este padre, sabe de cor todo o capítulo do Inferno… Consegue perturbar-me. Assino ordenações de proteção aos índios. Em contrapartida mando caçar escravos pretos em África e levá-los para a América. Com estes não há que hesitar, são animais da selva, não têm alma.