DEMOCRACIA E LIDERANÇA (1) – por António Gomes Marques

 Podemos dizer que a maioria dos textos que, habitualmente, escrevo se insere no campo da cultura. Hoje, no entanto, vamos falar de uma outra questão premente na sociedade portuguesa: liderança. Ou seja, dos líderes e das lideranças de que a sociedade portuguesa tão carecida está nas suas Organizações. Não dos líderes partidários, cada vez mais parecidos uns com outros na democracia que praticam. O leitor dirá se o que vamos dizer se aplica também a eles. 

Várias definições foram tentadas pelos mais variados autores, mas, no que nos diz respeito, não encontrámos uma definição de líder/liderança que nos agradasse. O líder é aceite como tal pelos outros e, portanto, quando o é esses outros reconhecem-no. Ou seja, só em acção um líder poderá ser reconhecido.

Hoje, não apenas pelas características da mudança que vivemos, mas também, tendo em conta o actual mundo político, pelas exigências da competitividade, a valorização dos recursos humanos está na ordem do dia e a falta de uma liderança qualificada poderá conduzir à ruína qualquer organização.

Em Janº-Fevº/95, a Uninova realizou um estudo denominado «Evolução das qualificações e das estruturas de formação em Portugal», divulgado no 4.º Fórum Euroformação. «Com o pressuposto de que é necessário dar resposta às novas exigências de competitividade assentes na trilogia inovação-qualidade-recursos humanos», noticiava o Expresso, «o estudo considera decisiva a criação de “plataformas de competência nas empresas, baseadas no saber e no conhecimento”». Refere ainda a notícia que «a fraca aderência dos empresários à formação profissional e a dificuldade das empresas disponibilizarem os seus trabalhadores para acções de formação são outros obstáculos à melhoria da qualificação dos recursos humanos».

Desde o ano da Revolução Russa até ao grande desastre de 1929 e depois da II Guerra Mundial até ao início dos anos 70, era fácil ser gestor. A partir deste último período, as regras são ditadas pelo consumidor ou pela chamada democracia do mercado. O gestor passou a ter de estar atento aos produtos e serviços que tem para oferecer aos clientes e cada vez mais à qualidade de uns e outros, o que apenas será possível com equipas polivalentes e cada vez mais diversificadas.

Começamos já a entrar no conceito de liderança. Não nos importa distinguir entre boa e má liderança, porquanto, para nós, a liderança não existe por alguém se dizer líder, a liderança existe ou não existe, a equipa e o êxito da organização é que o vão demonstrar. A liderança será tanto melhor quanto maior importância souber atribuir aos recursos humanos, sabendo sempre que os seres humanos são complexos, portanto, com um grau maior ou menor de emotividade e de imprevisibilidade, completamente diferentes entre si e, hoje, com conhecimentos muito mais vastos e com facilidade de acesso a todo o tipo de informação. O líder tem pois de tomar consciência de que esses recursos humanos não trabalham para ele mas com ele.

A capacidade do líder começa a afirmar-se no recrutamento da própria equipa que vai liderar ou ao considerar como sua a equipa que herdar, e tal equipa não pode esquecer a liberdade não apenas dos mercados mas também dos consumidores e das próprias empresas, empresas estas que têm que ser dotadas de estruturas cada vez mais flexíveis e com capacidade para que a todo o momento se criem meios para alterar a estratégia, as actividades, os comportamentos, os processos produtivos e de gestão e, por último mas talvez o mais importante, as próprias mentalidades.

Temos que atentar no cliente e nas suas preferências, no cliente informado e cuja expectativa temos sempre que ultrapassar, o que só se conseguirá com pessoas cultas, incluindo nesta cultura a da própria empresa em que colaboramos, pessoas que saibam organizar-se. É o mercado que o exige e este mercado não é apenas constituído pelos clientes mas também pela concorrência. O mercado, que sempre existiu e em permanente mudança, vive agora em ritmos cada vez mais crescentes também pelo acesso fácil à informação. Já não se trata, para o líder, de assegurar apenas que cada função esteja a ser desenvolvida de harmonia com a estratégia global; agora, mais importante é liderar o processo como tais funções se inter-relacionam e, ao mesmo tempo, desenvolver competências (recursos humanos, tecnologia, marketing, finanças, estratégia e política geral, …) para gerir o futuro. Uma das formas -a única?- de responder a esta mudança é procurar ir além da sua compreensão, passar a entendê-la como fonte de múltiplas oportunidades estratégicas. O desafio actual que se coloca consiste na capacidade da Organização reinventar e redesenhar negócios, a partir das actividades que tem no seu interior e habilitá-los, nos momentos próprios, com estrutura e identidade próprias. É aqui que se faz sentir a necessidade de construir a equipa, tendo em atenção a sua composição, a sua integração e a sua formação, que a torne detentora de atitude negocial, ou seja, capaz de entender o cliente, preparar a oferta, concretizar e acompanhar o negócio.

Necessita-se de uma actuação pró-activa, continuada e precisa sobre as pessoas e as tecnologias, que são factores que caracterizam a turbulência do actual contexto em que vivemos. É necessário saber conceber uma estratégia capaz de penetrar no mercado e, consequentemente, de o conquistar, o que será um facto se tal sucesso for construído focalizando as nossas actividades naquilo que sabemos fazer bem, evitando a aplicação de recursos e energias em actividades contraditórias e não coerentes. Tudo isto tem a ver com a liderança e com o trabalho em equipa, cujas competências devem resultar de uma acção de conjunto que agrega recursos materiais, pessoas, formas organizativas, concebidas como energia potencial estrategicamente dirigida a objectivos definidos e essas competências não podem resultar do simples somatório de competências individuais, o que implica, primeiro, rendibilizar os meios de que a equipa disponha, e isto tem muito a ver com a liderança.

Planificar, Organizar, Comandar, Coordenar, Controlar diz-se serem operações indispensáveis em qualquer gestão e o líder, naturalmente, tem que o ter presente. Mas é isto que fazem realmente os gestores? Henry Mintzberg diz que se perguntarmos aos gestores o que é que eles fazem, com certeza que nos responderão que «planificam, organizam, coordenam e controlam». No entanto, se pudermos observar o que eles na realidade fazem, podemos «verificar que as suas actividades dificilmente podem ser descritas através das quatro palavras acima referidas.» Diz ainda Mintzberg que a tarefa do gestor «é unir os esforços de todos num dado objectivo». Aquele que o conseguir, dizemos nós, é um líder.

(continua)

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