RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

mapa da ireland

As revelações sobre o resgate do banco Anglo-Irish escandalizam o povo irlandês

Um texto de Marc Roche e Claire Gatinois

Irlanda - V

A maioria dos irlandeses continuam a estar fartos de terem  pago o resgate dos seus bancos doentes depois da crise de 2008. Especialmente quanto ao Anglo Irish Bank. Um estabelecimento de “criminosos”, disse-se em Dublin, símbolo dos erros e abusos do boom imobiliário irlandês.

Os contribuintes do país têm agora a certeza de ter sido “uns patos ” nas mãos dos financeiros sem escrúpulos. Disso,  são um testemunho as conversas de antigos dirigentes do Anglo Irish Bank, revelados pelo jornal Irish Independent, de 24 e de  25 de Junho.

As gravações, no site do jornal, passam duas conversas telefónicas entre uma pessoa identificada como John Bowe, ex-chefe do departamento de mercados de capitais e Peter Fitzgerald, ex-diretor daquele banco. E um outro registo entre M. Bowe e David Drumm, o antigo director da instituição.

Entre duas explosões de gargalhadas e alguns palavrões, Bowe e Fitzgerald confiam ter aldrabado a Central, ou seja o Banco Central, para conseguirem o dinheiro para o resgate. “Um empréstimo-ponte, disse Bowe. Assim, então… uma plataforma até que nós lhe possamos pagar. O que quer dizer nunca, ” continuou ele sem reprimir uma risadinha. Estas palavras teriam sido trocadas em 18 de Setembro de 2008, poucos dias depois do colapso no banco Lehman Brothers. Um período em que o mundo financeiro estava paralisado pela crise dos créditos de “subprime”

Agitação

O Anglo – Irish hoje liquidado – parece ter beneficiado desta agitação reclamando 7 mil milhões de euros junto do Banco Central irlandês. O banco sabia que iria precisar até de mais do que isso (ele engolirá cerca de 30 mil milhões de euros), mas a soma foi considerada suficiente para se aguentar alguns meses. “O inimigo é o tempo,” diz M. Bowe.

Para comprar esse tempo a táctica foi a de “ferrer” as autoridades, expondo-as financeiramente ao banco, todo ele desconcertado. “Eles emitem  um grande cheque e depois querem garantir (…) esse dinheiro”, descreve Bowe. O cinismo dos dirigentes não se fica por aí. Quando Fitzgerald pediu a M. Bowe de onde é que vem este valor de 7 mil milhões de euros, ele respondia: “como diria Drummer [ David Drummer], vem directamente do meu c…”. O senhor Bowe lamentou profundamente o tom usado, “imprudente e inadequado”. Mas ele nega ter tentado enganar o Banco Central do seu país e esclareceu que ele não nunca estava nas tomadas de decisão dentro do banco.

Pouco importa. Anglo Irish mostrou até ao limite a sua grande desenvoltura : o resgate da instituição contribuiu a obrigar o Estado a pedir socorro à Europa e ao Fundo Monetário Internacional no final de 2010. Uma humilhação. O primeiro-ministro conservador, Enda Kenny, reagiu na segunda-feira, 24 de Junho, prometendo a criação de uma Comissão de inquérito para esclarecer as responsabilidades desta crise financeira. Esta Comissão,  irá ela rejeitar uma parte da responsabilidade sobre a classe política?

A decisão, tomada em situação de pânico em Setembro de 2008 de garantir os depósitos bancários irlandeses sem limite poderia ser questionada. Sob a segunda gravação, o antigo patrão do d’Anglo Irish, M. Drumm demonstra a perversidade desta garantia. Seguro de que os depósitos de investidores europeus, principalmente alemães, vão afluir à ilha, ele goza com a situação enquanto M. Bowe entoa “Deutschland, Deutschland Über Alles” (o antigo hino alemão). “É necessário recuperar este dinheiro duma p…”, acrescenta Drumm.

Tudo isto irá colocar a Irlanda numa má situação durante as próximas cimeiras europeias. Especialmente sobre o assunto delicado do reembolso retroactivo dos montantes atribuídos pelo Estado aos seus bancos.

Claire Gatinois et Marc Roche, Les révélations sur le sauvetage en 2008 d’Anglo Irish font scandale en Irlande, LE MONDE | 26.06.2013

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