
III
Após os dias cruéis de Abril fomos estabelecer o nosso bivaque às portas de Lillers. Meses antes era a sede do grande Q. G. De um exército britânico. Era uma cidade cheia de vida, em cuja estação desembarcavam cada dia oficiais às centenas. Havia mulheres, automóveis circulando, restaurantes, um cinematógrafo. Quando ali passámos pela primeira vez, numa manhã de sol radiante, não havia ninguém. Fora totalmente evacuada oito dias antes, em parte pelas ordens das autoridades, em parte pelo fogo inimigo que arrasara a estação e queria a todo o transe cortar a linha férrea. A artilharia boche ainda não fizera toda a sua obra. Lillers estava quase intacta. Não tinha um único vidro; mas contavam-se as casas destruídas. Apenas a zona do arrabalde e a da linha férrea tinham sofrido duramente. No entanto estava totalmente deserta. Apenas a certas esquinas uns velhos escoceses do trânsito, de saiote e boina, agitavam as suas bandeirinhas para guiar os camions que passavam com fragor.
E era uma sensação extremamente curiosa passear em Lillers abandonada, com a perpétua ameaça de uma granada que podia chegar. Nessa cidade, donde a vida humana fugira, viviam as casas e falavam naquele silêncio de sepulcro. Pareciam soldados alinhados a quem se tivesse dado a ordem de ficar até ao fim, e contavam-nos histórias. A casa baixinha, de persianas brancas, escondida atrás de um jardim, dizia a felicidade de uma família antes da guerra. No jardim sentavam-se à tarde dois velhos que ali tinham visto crescer os filhos e viam crescer os netos. A escola defronte, com o seu grande pátio, dizia-nos histórias de crianças, a louca galopada das horas de recreio, a grande solenidade do dia de prémios em que os pequenos heróis saíam pela mão das mães com coroas de papel enfiadas nos braços que eram o seu orgulho e livros de gravuras encadernados em vermelho que iam ser o seu encanto. Aquele Café de la Place contava as intermináveis partidas de manilha e de piquet, o repicar das bolas no bilhar de dentro. A casa de modas que se intitula em grandes letras La Ruche e cujo dono de barretinho de seda eu conhecera naufragado numa humilde aldeia da retaguarda, segredava-nos todas as tentações dos seus mostruários, onde, de quando em quando, surgiam para aquela províncias novidades de Paris. Falava a velha igreja, falava o teatro, a mairie, a cadeia numa travessa escura… Todas aquelas casas tinham que contar. Acima de todas, porém, falava claramente a loja do sr. Thaine, relojoeiro. Viera uma granada e acertara-lhe em cheio. Pobre relojoaria, em que estado te pusera o boche! Mas sobre a tua porta ficara quase incólume a tabuleta onde em grandes letras douradas o teu dono mandou outrora escrever o seu nome. A explosão levara apenas a primeira letra e as restantes ficavam brilhando ao sol, como um santo e senha dado às outras casas, soldados alinhados à espera da morte: …HAINE.
