SENHOR DOS SENHORES, MAS NÃO SERVO DOS SERVIDORES – 3 – por Carlos Loures

(Continuação)

O «PLANO DA ÍNDIA

Imagem4Quando, em 1481, D. João II sobiu ao trono, a gesta dos Descobrimentos e da expansão iniciara-se cerca de sessenta anos antes por iniciativa de seu tio-avô, o infante D. Henrique. Até aí, os marcos principais foram: em 1419, João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira desembarcam na ilha de Porto Santo; em 1425, presume-se que terá começado o povoamento e o aproveitamento agrícola da ilha da Madeira; em 1427, foi descoberto o arquipélago dos Açores, por Diogo de Silves; em 1434, Gil Eanes transpôs o Cabo do Bojador, iniciando o reconhecimento da costa africana; em 1439, o infante D. Henrique foi autorizado pelo regente D. Pedro a povoar as «sete ilhas» dos Açores, onde anteriormente se tinham lançado ovelhas; em 1441, a expedição de Antão Gonçalves atingiu a região do rio do Ouro e chegou até ao cabo Branco. Foram capturados dois nativos; em 1444, Dinis Dias chegou ao promontório de Cabo Verde; 1455 e 1456, Cadamosto, veneziano ao serviço de D. Henrique, descobriu algumas ilhas do arquipélago de Cabo Verde; 1456 – viagem de Diogo Gomes, que explorava o estuário do rio Geba, na Guiné, e achou algumas ilhas bijagós; 1460, António de Noli descobriu algumas ilhas de Cabo Verde; 1471-72: João de Santarém e Pêro Escobar, descobriram as ilhas de São Tomé e Príncipe; 1472: Fernando Pó descobriu a ilha Formosa (que toma hoje o seu nome); 1474: Lopo Gonçalves e Rui de Sequeira atingiram o cabo de Santa Catarina. Após a sua subida ao trono, D. João II mandou construir a Fortaleza de São Jorge da Mina, na área do Golfo da Guiné.

Apesar de ter sido muitas vezes dito que a tentativa de achamento de um caminho marítimo para a Índia fazia parte dos projectos do infante D. Henrique, tudo parece indicar que o «plano da Índia» foi concebido por D. João II quando, ainda príncipe, passou a ter a responsabilidade pela orientação prática das navegações. Foi dele que partiu a iniciativa de reconhecer as condições físicas do Atlântico Sul, de que encarregou Duarte Pacheco Pereira, e a decisão de prosseguir cada vez mais para sul as viagens ao longo da costa africana. Foram também decisão sua as duas viagens de Diogo Cão, que na segunda atingiu como ponto mais meridional a serra da Parda; a viagem de Bartolomeu Dias, que levou, em 1488, navios portugueses pela primeira vez ao Índico; e, também, a missão desempenhada por Pêro da Covilhã que, no Indostão, no Golfo Pérsico e na costa oriental de África, permitiu recolher preciosas informações de carácter económico. Pode parecer estranho que, sabendo, já no início de 1489, da intercomunicabilidade entre os oceanos Atlântico e Índico, por informações colhidas em geógrafos árabes, não tenha decidido mandar nos anos que ainda viveu, uma armada para o comprovar. Há quem acredite ter havido entre a viagem de Bartolomeu Dias e a de Vasco da Gama armadas «secretas». Porém, carecendo essas teorias de prova histórica, é mais aceitável supor que, para concretização do seu plano da Índia, faltava uma peça essencial: a garantia de que o oceano Atlântico era mar «português». E só o Tratado de Tordesilhas, em 1494, o garantiria. D. Manuel viria a colher os frutos e a glória do descobrimento do caminho marítimo para a Índia que o Príncipe Perfeito tão laboriosa e inteligentemente preparou. Também nisso foi venturoso.

O DESFAZER DE UM SONHO

D. João II, consolidou o do poder real, constuindo assim os alicerces de um estado moderno. E na ordem externa lançou as bases de uma empresa colonial cujos frutos viriam a ser colhidos nos reinados seguintes. Porém, o sonho da união dos reinos peninsulares sob uma mesma coroa, acalentado por seu pai, não o abandonou completamente. Sabendo que, com propósitos semelhantes de hegemonia peninsular, aos reis de Castela e de Aragão agradava a ideia de casar a sua herdeira, a infanta Isabel, com o infante D. Afonso de Portugal. D. João II desenvolveu uma estratégia conducente à realização desse casamento, que viria a verificar-se, por entre festejos de grande fausto, em Novembro de 1490.

Pouco tempo iria, no entanto, durar o sonho. Em Julho de 1491 o príncipe D. Afonso morreu numa queda de cavalo, à beira-rio, perto do paço de Almeirim. Todo o projecto se desfez. Dominado por uma profunda dor, D. João II ainda tentou legitimar em Roma D. Jorge, um filho bastardo. Mas a oposição da rainha e as influências dos seus inimigos prevaleceram. D. Manuel, duque de Beja, irmão do duque de Viseu que o rei assassinara por suas mãos, sobrinho-neto de D. Afonso V, estava agora na primeira linha da sucessão.

(Continua)

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