Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Da renovação produtiva à recuperação produtiva no espaço globalizado: sobre o crime que se está a praticar sobre a Europa
Um texto que tem como título original :
Le redressement productif comme stratégie d’adaptation régressive à la mondialisation
e foi publicado em 24 de Julho de 2013 pelo blog de Jean Claude Werrebrouck, disponível em:
A renovação do tecido produtivo como estratégia de adaptação regressiva à mundialização
Parte I
Por trás do debate sobre a renovação produtiva há um debate sobre reindustrialização, o da relocalização das actividades industriais e, consequentemente, o problema do reequilíbrio da balança comercial. De forma mais erudita e provavelmente de forma mais sintética é o problema “do adensamento ” da matriz das relações inter-industriais [1].
Logicamente num espaço globalizado, esta matriz tem uma tendência para se “branquear”, para criar espaços vazios entre ramos produtivos nacionais, ou seja em que as trocas entre os ramos de actividades dentro de um espaço nacional tendem a empobrecer-se com o alongamento das cadeias globais de criação de valor . Especificamente os diversos ramos de actividade, na acepção das contas nacionais, deixam de criar mutuamente oportunidades de trocas entre-si , passam a ser menos mercados entre uns e outros, ou deixam mesmo de ser mercados uns dos outros, e deixam de conhecer tão bem quer as ligações a montante quer as ligações a jusante da sua própria fileira quando se está no quadro de um espaço globalizado. Daí a famosa frase de Pascal Lamy: “made in the world”.
Ao branqueamento da matriz das trocas inter-industriais deveria corresponder um alongamento cada vez mais importante nas cadeias de produção de valor e, consequentemente, um branquear das matrizes da maioria dos países que jogam o jogo da globalização. Apenas uma só matriz e à escala do mundo se ela fosse construída pelos contabilistas mundiais como existem ainda contabilistas nacionais, poderia ser relativamente densa .
A optimização da cadeia de produção de valor tornou-se o trabalho de empresas especializadas que vendem os seus conselhos, e é obviamente baseado numa questão de custos e de cálculos de riscos. Neste âmbito, cada país é gradualmente especializado na sua competência específica, e o produto final vê o seu custo unitário mundial ser o mais baixo possível.
Esta breve e muito parcial explicação do que é a globalização industrial explica bem que um objectivo macroeconómico de reequilíbrio das contas externas não é simples. Uma mercadoria mundial, que seja produzida em vários sítios e montada no país A, exportável mundialmente e produzida a partir de importações de componentes próprios vindas de todo o mundo, age simultaneamente sobre as importações e as exportações do país considerado. Esta mercadoria não pode ser exportada sem dificuldade, ou seja, de forma competitiva, a não ser que a cadeia de valor correspondente porque bem optimizada, utilize as importações de componentes elas próprias adquiridas a preços muito competitivos à escala do mundo. Daí o título de um artigo publicado recentemente: “Deixem de temer o aumento das importações” [2]. Isso significa, portanto, que na globalização, para se ser mais competitivo e exportar cada vez mais implica também que se passe a importar mais. As exportações e as importações não são pois as variáveis independentes e o fluxo das exportações também depende – entre outras variáveis – da capacidade de importar mais. A capacidade de exportação de um país na economia globalizada depende, assim, da competitividade de todos os consumos intermédios gerados nas cadeias globalizadas da produção de valor.
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[1] Na época dos 30 gloriosos anos, os especialistas do que foi chamado o “ Desenvolvimento” faziam da matriz de relações inter – industriais um critério decisivo para distinguir entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento. Na época, o conceito de países emergentes não fazia parte do vocabulário dos economistas. Um país desenvolvido era pois um país cuja matriz de comércio era “densa”. Queria-se dizer com esta expressão, que estavam presentes no espaço nacional a maioria dos ramos, com elevados coeficientes de ligações entre eles. Todas as casas da matriz, estavam, portanto, carregadas de números que atestavam a importância das ligações entre os diversos ramos da economia nacional. Porque eram muito poucas as casas que estavam vazias, fala-se então de matriz densa , por oposição com o que se verificava nos países ditos subdesenvolvidos . Nessas circunstâncias, o que se chamavam de desenvolvimento’ era também uma questão de adensamento da matriz. Portanto, toda uma série de teorias muito utilitaristas das políticas de desenvolvimento, entre as quais a das “indústrias industrializantes “, ficaram célebres pela planificação autoritária que ela implicitamente suponha e pelos seus fracassos retumbantes.
[2] Agnès Bénassy em “Les Echos”, de 13 de Março de 2013.

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