INDIGESTÃO – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

 

Carlos MagnoLevanta-se lentamente do sepulcro. Pesadelo? Talvez… Coberto de cinzas Carlos Magno aponta-me o dedo.
– És tu o herdeiro? Desde quando?
– Ó Pai, ó Mais Antigo, ó Fundador: já estamos em 1556, sou eu o herdeiro.
– Não te reconheço.
– Cruzamentos de linhagens, ó Mais Antigo. Mas sou eu o herdeiro.
– E o meu Sacro Império Romano-Germano?
– Foi alargado.
– Para onde?
– Para Espanha.
– E os muçulmanos?
– Foram expulsos.
– Quem os expulsou?
– Meus avós, Isabel de Castela e Fernando de Aragão, os Reis Católicos.
– E és tu o herdeiro de toda a Espanha?
– De quase toda.
– O que falta?
– Portugal, a antiga Lusitânia, lá na ponta ocidental.
– São ainda sarracenos?
– Não, já são cristãos.
– E o que falta para serem integrados no Império?
– Não tarda muito para o serem, já nos cruzámos com a linhagem dos soberanos. Mas há mais, expandimos o Império para ocidente.Imagem1
– O fim do ocidente é a Lusitânia.
– Ó Mais Antigo, expandimos o Império para além do mar. Descobrimos um novo continente, há quem lhe chame América, são as Índias Ocidentais e ouro não falta ali.
– E isso é bom?
– É o sangue do Império.
– Tu lá sabes… Para mim, será veneno do Maligno…
– E depois, ó Mais Antigo, os portugueses contornaram a costa de África e foram para oriente. E quando eles estiverem integrados no Império, seremos os donos do mundo. O nosso Império será tão grande, mas tão grande, que nele nunca se põe o sol.
– É difícil digerir o mundo. Como te chamas?
– Ó Mais Antigo, fui baptizado com o teu nome. Sou o Primeiro de Espanha e o Quinto do Império Romano-Germano.
– Pois toma cuidado, Carlos, ou ainda morres com indigestão…

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