VIANNA MOOG, AUTOR DE BANDEIRANTES E PIONEIROS – por João Machado*

* Coordenador. Sociólogo.

Clodomir Vianna Moog nasceu em 1906 em S. Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Foi ensaísta, jornalista, romancista, diplomata, político. Escreveu uma obra extensa, na qual avultam:

O Ciclo do Ouro Negro. Ensaio sobre a realidade amazónica. 1936.Imagem2

Novas Cartas Persas. Sátira. 1937

Um Rio imita o Reno. Romance. 1938

Heróis da decadência. Reflexões sobre o Humor – ensaiosobre Petrónio, Cervantes e Machado. 1939

Eça de Queirós e o Século XIX. Ensaio. 1939.

Uma Interpretação da Literatura Brasileira. Ensaio. 1942.

Nós, os Publicanos. Ensaio. 1942.

Mensagem de Uma Geração. Ensaio. 1946.

Bandeirantes e Pioneiros. Estudo Social. 1954.

Uma Janela para Ulisses. Novela. 1959.

Tóia. Romance. 1962.

A ONU e os Grandes Problemas. 1965.

Obras Completas. 1966.

Em buscade Lincoln. Biografia. 1968

Fomos buscar estes elementos a Os Santos Padroeiros – Biblioteca Virtual de Literatura. Ver: http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://www.biblio.com.br/conteudo/biografias/viannamoog.htm

Uma breve nota sobre Bandeirantes e Pioneiros

No prefácio a esta obra, logo no primeiro parágrafo, Vianna Moog indica a razão porque a escreveu. Diz:

De há muito que esta pergunta anda no ar em busca de uma resposta em grande: como foi possível aos Estados Unidos, país mais novo que o Brasil e menor em superfície continental contínua, realizar o progresso quase milagroso que realizaram e chegar aos nossos dias, à vanguarda das nações, com a prodigiosa realidade do presente, sob muitos aspectos a mais estupenda e prodigiosa realidade de todos os tempos, quando o nosso país, com mais de um século de antecedência histórica, ainda se apresenta, mesmo à luz de interpretações e profecias mais optimistas, apenas como o incerto país do futuro?

Vianna Moog escreveu este livro em 1954, é bom não o esquecer. Hoje, quase sessenta anos depois, o panorama é diferente. Convém também ter presente que faz a análise comparativa entre a evolução das duas nações desde a chegada dos europeus e não a partir da data de independência política. Aborda os aspectos do âmbito da geografia física, as questões económicas e éticas, analisando até a influência da religião na vida dos povos, e debruça-se mesmo sobre tipos humanos e realizações culturais dos dois países, em conjunto com elementos da história respectiva. No epílogo traça um interessante contraponto entre Lincoln e António Francisco Lisboa, o Aleijadinho. No conjunto da obra faz a diferença entre os bandeirantes, no Brasil, que considera que actuaram como conquistadores, e os pioneiros, nos Estados Unidos, que actuaram como colonizadores.

Viana Moog é o primeiro a reconhecer o relativismo dos conceitos que apresenta no livro. Entretanto, estes mereceriam bem, concordando-se ou discordando-se, um desenvolvimento. Um dos casos é, no capítulo III, Conquista e Colonização, a caracterização dos emigrantes europeus que partiram para os dois países, as diferenças culturais e de objectivos de vida, latinos e anglo-saxónicos, e a influência que tiveram na vida das novas nações. Moog, a certa altura, aponta uma diferença fundamental no povoamento dos Estados Unidos e do Brasil: um sentido inicialmente espiritual, orgânico e construtivo na formação norte-americana, e um sentido predatório, extractivista e quase só secundariamente religioso na formação brasileira! Frise-se que o ponto de exclamação está no texto original. A seguir assinala que os primeiros povoadores das colónias inglesas da América incluíam muitos grupos, como os puritanos do Mayflower, de acossados pela perseguição pátria de origem, enquanto que os portugueses eram todos fiéis vassalos do rei de Portugal. Os primeiros não faziam tenção de voltar, aliás, imbuídos pela leitura da Bíblia, chegavam a encarar a América como o sítio onde poderiam fundar uma nova Israel. Os segundos, ao chegaram ao Brasil, não abandonavam a esperança de retorno à pátria.

Não é difícil discordar de alguns aspectos que Viana Moog refere. Por exemplo, os colonos que desembarcaram nos Estados Unidos desde o século XVII, entraram em poucos anos em choque com os nativos, e começaram desde logo a tirar-lhes as terras, e mesmo a massacrá-los. Por outro lado, seria importante desenvolver certos temas, que Moog com certeza não conseguiu aprofundar no seu livro, por questões de tempo e espaço. Um seria a influência das condições económicas e políticas vigentes, ao tempo, em Inglaterra e Portugal, que são abordadas, mas apenas indirectamente. Na Inglaterra, que teria mais de cinco milhões de habitantes, no fim do século XVII, tinham ocorrido, ao longo desse século, várias guerras civis, e duas revoluções, o que ajudaria a explicar a vontade de emigrar para o outro lado do Atlântico por parte de certos grupos, como os do Mayflower. Só a insegurança reinante os terá impedido de emigrar em maior número. Cerca de 1700 haveriam cerca de 250 000 habitantes nas colónias norte-americanas, segundo estudos dos serviços norte-americanos de censos, que se podem consultar em http://www2.census.gov/prod2/statcomp/documents/CT1970p2-13.pdf. Em 1800 a população daquelas colónias já ultrapassaria os cinco milhões de habitantes.

Portugal esteve até 1640 sob os Filipes, a sua população no fim do século XVII não atingia os dois milhões de habitantes. Mas depois da restauração, e sobretudo no século XVIII, aumentou o interesse dos portugueses pelo Brasil, ascendendo a população deste em 1700 a 300 000 habitantes, grande parte dos quais aborígenes ou descendentes de africanos. No fim do século XVIII, com o surto causado pela descoberta do ouro, a população brasileira ultrapassava os dois milhões de habitantes (ver História do Brasil, de BartoloméBennassar e Richard Marin, Teorema, 2000).

Apresentamos a seguir um quadro que mostra a diferença no crescimento entre a população dos dois países, desde 1820 até aos dias de hoje. Vê-se por ele que a população dos Estados Unidos foi mais do triplo da do Brasil, entre 1840 e 1940. Mesmo hoje em dia, ainda há uma diferença considerável, como se pode constatar.

Anos

Brasil

EUA

1820

4 717   000

9 638   453

1830

5 340   000

12 866 020

1840

6 233   000

17 069   453

1850

8 000   000

23 191   876

1860

8 448   000

31 443   321

1870

9 834   000

39 818   449

1872/1880

9 930   478

50 155   783

1890

14 333   915

62 974   714

1900

17 438 434

75 994   575

1910

91 972   266

1920

30 635 605

105 710 620

1930

122 775   046

1940

41 236 315

131 669   275

1950

51 944 397

150 697   361

1960

70 992 343

179 323   175

1970

94 508 583

203 235   298

1980

121 150 573

226 545 805

1991/1990

146 917 459

248 709 873

2000

169 590 693

281 421 906

2010

190 755 799

308 745 538

2020

(a)219 077 729

(a)335   804 546

(a)  – tratam-se de projecções de população, elaboradas por entidades diferentes.

Fonte: Para o Brasil os dados foram obtidos a partir do site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, com a ajuda de dados recolhidos na História do Brasil, de BartoloméBennassar e Richard Marin. A projecção de população para 2020 foi obtida em http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/projecoes_demograficas.pdf

Para os EUA usaram-se dados recolhidos na Enciclopédia Collier’s e no sitehttp://www.census.gov/.

Nota – como em relação a todas as estatísticas  os dados acima têm de ser vistos com algumas cautelas. Por exemplo, em relação aos EUA é preciso ter em conta que em 1820 contavam apenas com 22 estados, incluindo o Maine, admitido nesse mesmo ano, contra os 50 actuais.

3 Comments

  1. Que alegria, João Machado!

    Tive o prazer de solicitar e conseguir que a nossa prefeitura colocasse uma placa em homenagem ao escritor e conterrâneo Viana Moog, no prédio onde ele morou até morrer, no bairro do Leme, no Rio. Seus livros faziam parte da biblioteca da minha família e ele vem a ser meu contra-parente (pois tenho uma prima que é sua sobrinha) Escritor e humanista que sempre admiramos;

    Abraço agradecido e solidário da
    Rachel Gutiérrez

  2. Fico muito contente pelo que nos transmite, Rachel Gutiérrez. Há quase cinquenta anos, para aí em 1964, tive um professor de Sociologia, Abílio Lima de Carvalho que, no Seminário de Sociologia, nos desafiou para pegarmos em Bandeirantes e Pioneiros, e estendermos a Portugal o confronto entre o Brasil e os EUA. Nunca conseguiu levar o trabalho avante, tais foram as reacções. Ofereci-me para fazer o trabalho por fora, mas ele já não estava nada entusiasmado, e eu, pouco depois, caí gravemente doente. Nunca consegui levar o projecto para a frente. Agora tentei um pouco ultrapassar a frustração com que fiquei.

    Um grande abraço para si

    João Machado

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