FOI-SE O ENCANTO – poema de Adão Cruz

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Muito difícil é desembarcar digo eu que nunca fui marinheiro

Não consigo acostar o barco

 

Há sempre uma onda e outra e depois outra mesmo que o mar esteja manso

ou se é da terra ou se é do mar

No dia em que eu voltar e vir a figueira com figos e a erva a crescer no merujo

reluzente de prata das noites de luar no dia em que eu voltar vestido de ilusão

a olhar o mar e acreditar nesse dia não chames por mim

Mata-me a memória e a história não deixes que viva uma hora descrente

São duras as horas e os minutos das palavras descrentes indiferentes alheias

adiáforas frias incuriosas vazias

Uma espécie de árvore seca sem frutos nem sementes um vento áspero

que perpassa por entre os dedos dormentes

Na cegueira dos olhos sumidos de chorar sem lágrimas a noite dos segredos

não há coisa mais triste do que olhar a chávena vazia sem palavras

Foi-se o encanto e a poesia não passa de um saquinho de açúcar rasgado

sobre a mesa do café desabitado

 

Ilustração: Reprodução de um quadro de Adão Cruz

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