O CASO SNOWDEN – O GUARDIAN CONTA AS PRESSÕES SOFRIDAS NA GRÃ-BRETANHA

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Le Monde.fr e AFP | 20.08.2013

Snowden - I

No rescaldo da prisão do companheiro de Glenn Greenwald, o jornalista do Guardian que ajudou a revelar a extensão do sistema de vigilância operado pelos  serviços  NSA , o  jornal britânico decidiu passar ao contra-ataque.

Num artigo publicado na  segunda-feira, 19 de Agosto, o seu editor-chefe, Alan Rusbridger, revela como Londres obrigou o jornal Guardian a destruir as  informações fornecidas pelo antigo consultor da NSA, Edward Snowden, indo ao ponto de ameaçar com a abertura de um  processo judicial, se não cooperassem .

Alan Rusbridger diz ter sido contactado “por uma entidade altamente posicionada na Administração britânica rafirmando que representava a opinião do primeiro-ministro”. Em seguida,  teve  depois  duas reuniões com esse alto responsável da Administração  que “solicitou a devolução ou a destruição de todo e qualquer  material  em que estávamos a  trabalhar”. O jornal estava então em plena fase de  publicação das revelações sobre os programas de fiscalização em massa realizadas pela NSA e pelo seu homólogo britânico, a GCHQ. O jornalista Rusbridger diz que as autoridades simplesmente lhe disseram:

Os senhores têm-se andado a divertir, e bem.  Agora queremos que nos entreguem a máquina.”

 “Houve então várias reuniões com gentes menos expostas de Whitehall, o bairro que abriga os escritórios do primeiro-ministro.” O pedido era exactamente  o mesmo: entreguem-nos o material  Snowden ou destruam-no. .. Não têm necessidade de escrever mais nada sobre o assunto. “

Snowden - II

Alan Rusbridger afirma  que o governo tem ameaçado com o desencadear um processo  judicial  para tentar recuperar os documentos secretos, se o jornal não os destruísse  ele mesmo.

“E em seguida aconteceu um dos acontecimentos mais  bizarros da história do Guardian . “Dois especialistas em segurança do GCHQ controlaram  a destruição de discos rígidos nas caves do Guardian , para terem certeza de que não sobrava nada, mesmo nada, destes pequenos pedaços de metal retorcido que podem ser de interesse para poderem  ser  passados  para os funcionários chineses.”

O  “Guardian ” continuará a trabalhar desde “Nova Iorque e  de outros  lugares”

Para Rusbridger, a destruição forçada dos discos rígidos que continham as informações – que tinham antes todos  eles sido copiados – mostra “a pouca compreensão do governo na era digital”.

De acordo com o seu chefe, o Guardian  “continuará a analisar, apesar de toda a paciência necessária e a complexidade do caso, todos os  documentos disponibilizados por Edward Snowden”. Mas não o irá fazer a partir da  Grã-Bretanha, mas sim a partir os seus escritórios “em Nova York e em outros lugares”. “Por outras palavras,  a apreensão dos computadores,  telefones, discos rígidos e da câmara de David Miranda não terá nenhum efeito sobre o trabalho de Glenn Greenwald”, acrescenta Rusbridger finalmente.

  • Protestos  contra a prisão de um familiar  de Glenn Greenwald

O Guardian revela essas pressões, enquanto as autoridades britânicas estão a ser  muito criticadas por sua maneira de proceder, depois da  detenção durante nove horas no Aeroporto de Heathrow do  marido do Grenn Greenwald, David Miranda.

O Brasil e a ONG Repórteres sem fronteiras e a Amnistia Internacional condenaram  uma interpelação  descrita como abusiva. Glenn Greenwald considera  que esta detenção foi “claramente destinada a intimidar aqueles que trabalham numa perspectiva jornalística sobre a NSA e o GCHQ”. Mas “terá apenas o efeito oposto: encorajar-nos-á a ir mais longe”.

Snowden - III 

Alan Rusbridger também condenou este retenção e advertiu que “não é impossível que em curto espaço de  tempo, os jornalistas deixem de ter  fontes confidenciais”.

“Fazer um inquérito, e mais largamente viver,  em 2013 deixa muitos vestígios. Os colegas que criticaram Snowden ou que pensam que os jornalistas devem confiar no Estado para saber o que é melhor para o país terão certamente um  rude  despertar. Antes que isso aconteça, os jornalistas, pelo menos esses, sabem  que agora temos de evitar as salas de  espera de aeroporto de Heathrow “

  • § Washington e Londres defendem-se dos abusos

O governo britânico reagiu  explicando que era necessário  tomar “todas as medidas necessárias para proteger o público dos indivíduos que ameaçam a segurança nacional”. A polícia de Londres assegurou que o interrogatório  do deputado Miranda era “necessário  e proporcional”, que lhe foi proposto  assistência jurídica, e que um advogado esteve presente. O interessado indicou  que ele apresentaria queixa contra o Ministério do Interior, segundo o Guardian, que lhe  daria o seu apoio’.

O governo dos EUA reconheceu na segunda-feira que a Grã-Bretanha o tinha informado da  prisão iminente de David Miranda, mas garantiu que o pedido  não vinha da Casa Branca.

  • O artigo  7 na origem da detenção de  David Miranda

.No seu editorial, o Guardian apela  para uma revisão completa pelo Parlamento da lei anti-terrorista, em particular o artigo 7, que permite que a polícia interrogar preventivamente  qualquer pessoa suspeita de planear actos   terroristas na  Grã-Bretanha para determinar se representa ou não uma ameaça.

É esta lei que  permitiu às  autoridades britânicas deterem  David Miranda e “tratá-lo como um terrorista prestes a atacar o território”, explicou o companheiro de Glenn Greenwald numa entrevista.

Le Monde.fr e AFP:  Snowden : le “Guardian” raconte les pressions subies en Grande-Bretagne, | 20.08.2013

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