No título hoje usamos uma frase que se ouve regularmente, proferida por jornalistas, comentadores, políticos e outras pessoas supostamente com responsabilidades. Normalmente procuram fazer passar a mensagem da ideologia dominante, que temos de acreditar que não há alternativas viáveis às políticas actuais de chamadas de austeridade, cumprir o acordo com a troika, ou o que resta dele, não levantar problemas ao pagamento da dívida, etc. É uma mensagem quase sempre de conformismo, que tira partido da ideia de que o que é real é o que é tradicional e imposto pelos poderes e instituições tradicionais.
Uma das ideias, melhor dito, uma das cenas que nos têm imposto ultimamente é a de que se não nos portarmos bem, isto é, se não aceitarmos sem protestar e como inevitáveis os cortes de salários e pensões, as privatizações, o encerramento dos serviços públicos, o desemprego, pagar as dívidas dos bancos como se fossem dívidas de todos nós e por aí fora, seremos pesadamente castigados com notas baixas, aumentos de juros, não nos emprestarem dinheiro e dizerem que somos preguiçosos. Entretanto nesta semana informaram-nos que, mais uma vez, as taxas de juro subiram e ultrapassaram os 7 %, e toca de falar em segundo resgate, descomposturas da troika, que Durão Barroso franziu o sobrolho, os alemães disseram e aconteceram e é preciso cortar mais no Estado, nos salários e pensões.
Entretanto lemos no Expresso de ontem, no caderno de Economia, uma notícia sobre um alto responsável do Crédit Suisse, que dá as opiniões seguintes: “A dívida portuguesa a 7% é muito atractiva”, segundo vem no título da notícia, e “As obrigações portuguesas a 7% são muito atractivas e o risco é muito baixo”, no texto. Depois faz outros considerandos sobre a bolsa, que acha que está barata. Podem-se fazer muitos comentários, que o senhor quis dizer isto ou aquilo, que a notícia saiu assim ou assado. Mas há uma questão aqui. Quem fixa os montantes das taxas de juro? Quem empresta o dinheiro? Meia dúzia de entidades e personalidades. Quem são? Não se fala disso. E como fixam os montantes? Aqui, querem-nos fazer acreditar que sobem a taxa sempre que aumenta o receio de não verem o dinheiro de volta. Mas parece que também o sobem quando percebem que quem pede está pelos ajustes de pagar tudo o que lhe exigirem. Para mostrar que é bem comportado, pede empréstimos e dispõe-se a pagar o que lhe pedirem sem regatear. É o que se passa connosco. Temos um senhor importante e parece que bem informado que diz que o risco é baixo, mas entretanto também temos um governo que anda a pedir dinheiro e paga tudo o que se lhe exige, para parecer bem comportado. Entretanto vai cortando nos salários e nas reformas. Há quem goste mais assim. Quem anda a correr riscos graves somos nós, com governos destes.

