Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
A entrevista a Patrick Arhus
Patrick Artus do banco Natixis: « um incumprimento é inevitável para os países mais vulneráveis da zona euro»
26 juillet 2013
Texto publicado em La Tribune, 26 de Julho de 2013.
Entrevista concedida a Romain Renier | 23/07/2013, 18:00 – 806 palavras
As estatísticas publicadas pelo Eurostat na segunda-feira mostram que os países do sul da zona euro, que aplicaram a austeridade orçamental, viram a sua dívida explodir em 2012. Patrick Artus, director de pesquisa económica de Natixis, diz que um incumprimento é nestes países inevitável.
O aumento da dívida pública dos países sob o programa de ajuda da UE e do FMI IMF levantam dúvidas sobre os remédios escolhidos pelos europeus para o problema do endividamento excessivo no sul da zona do euro. O que pensa sobre isto ?
Tenho certeza de que um incumprimento é inevitável para os países mais vulneráveis da zona do euro. Isso não significa um incumprimento violento em que se decide do dia para a noite nada pagar. Isso pode consistir numa reestruturação pela troca de títulos a uma taxa mais baixa ou com uma data vencimento mais longa. Isso é o que corresponde mais à análise feita pelo FMI e pelo alemães.
O Conselho alemão de peritos económicos tem particularmente começado a reflectir, por influência de Christoph Schmidt, sobre um Fundo Europeu de resolução da dívida Europeia. As pessoas sensatas consideram esta solução como uma oportunidade, uma possibilidade ao invés de dizer que isso não vai acontecer. Há uma reflexão já sobre esta hipótese e existe, portanto. Até mesmo a Comissão Europeia, está neste grupo incluída, também.
Porquê chegar a tal extremo ?
É uma mensagem de que os países da zona euro não querem ouvir, mas há aqui um problema de solvabilidade. A Itália viveu muito tempo com um rácio da dívida superior a 100% do PIB, sem que isso tenha sido um problema. Mas mais o endividamento é importante e mais a exigência em termos de excedente primário é elevada. E quando se olha para a solvabilidade na zona do euro pode ter sérias dúvidas.
Sabemos muito bem que nenhum dos países em dificuldade pode razoavelmente conseguir ter um excedente primário, ou seja, um orçamento excedentário e excluindo os custos do serviço da dívida, equivalente a 5,6 ou 7% do PIB. Nunca ninguém o conseguiu. A Itália tem tido excedentes primários na ordem dos de 2 / 3 por cento em 1999/2000. Mas é o máximo a que pode chegar. No que diz respeito a Portugal, isto é impensável. Em contrapartida, com a França e a Espanha, por agora, as coisas vão indo, porque se parte de um endividamento mais baixo. .
Mas não existe o perigo de uma reacção em cadeia se um dos países da zona euro entra em incumprimento?
O problema é que não se criaram as instituições necessárias para permitir evitar o contágio. Por exemplo, se amanhã Portugal entrar em incumprimento não temos nada com que possamos impedir que os mercados ataquem outras dívidas europeias. Quanto ao programa das OMT (programa de compra ilimitada de obrigações soberanas) conduzido pelo BCE este é ineficaz porque para poder ser accionado é necessário que um país já esteja sob a alçada de um programa de assistência. Ele só pode começar a actuar depois de ter ocorrido o desastre, enquanto esse mecanismo deveria ser preventivo.
Mas não é apenas só isso. É necessário também ter em conta o facto de que os bancos são grandes detentores de dívida pública. Para que haja um incumprimento organizado, deve-se prever antes disso uma recapitalização dos bancos. Ora, o MEE não está em condições. Daí que, por enquanto, um incumprimento significaria automaticamente uma crise bancária.
Mas o que é não funcionou nos diferentes planos de resgate criados pelos europeus?
O que diz o relatório do FMI sobre a Grécia é de que é necessário declarar a posição de incumprimento em vez de deixar que a situação se degrade. O sistema de ajuda através da concessão de empréstimos não tem neste caso nenhum sentido. Há uma regra bem simples que diz que se empresta a alguém que tem um problema de liquidez, não a alguém que está insolvente. Há aqui uma má lógica europeia na gestão da crise das dívidas. E acabamos de repetir o mesmo erro com Chipre, em que se vê a dívida a disparar porque o PIB cai a pique. Amanhã será o mesmo com Portugal e talvez mesmo com a Irlanda.
Há aqui também um efeito intergeracional da dívida. Por exemplo, a juventude portuguesa emigra por causa da crise. No entanto, considera-se que a dívida está a ser transmitida aos jovens. Se toda a gente se vai embora não fica ninguém para a pagar. É um grande problema nos países do Sul da Europa, onde a base tributável se reduz, por esta via, porque há uma significativa emigração de jovens licenciados. No ano passado, 300.000 jovens espanhóis deixaram o seu país. São 300 mil a menos para participar no esforço do reembolso da dívida.
Não há nenhuma outra maneira para permitir que os países em dificuldade na zona euro possam honrar os seus compromissos?
Em termos absolutos, pode-se sempre ser solvável. Basta pura e simplesmente suprimir a despesa pública e aumentar os impostos. Mas fazendo isso está a matar o seu potencial de crescimento. Porque certas despesas públicas como as despesas em capital, são úteis. Levantando-se a questão do incumprimento, deve-se perguntar se é realmente sensato tentar ser solvável face a tais níveis de endividamento . Tendo em conta a situação dos níveis de endividamento de que estamos a falar , nenhum país poderia ter a coragem, ou a inconsciência, de querer ser solvável. Não estamos aqui a falar da França. O tema aqui, por enquanto, é Portugal.



