MINIBLOGOTEATRO – UM CASO SEM IMPORTÂNCIA – 4 – por António Gomes Marques

Empty Stage

Chefe

– (Sem ligar importância à interrupção) … são, no fundo, uns autênticos escravos. Não compreendem que nem todos os países têm as mesmas possibilidades, devido a uma posição geográfica, condições naturais, etc. …, para já não falarmos das agressões constantes a que temos estado sujeitos.

(Pausa)

– Os nossos operários, na sua ingenuidade, deixam-se influenciar por propaganda do estrangeiro, que lhes fala de liberdade e de pão, como este estúpido (ergue o papel com o poema).

– (Alto) No nosso país não há greves! Os nossos dirigentes ou os seus subordinados provinciais, logo que demonstram aos nossos operários os erros em que estão incorrendo, impedindo assim que se deixem influenciar pelo seu sentimentalismo e pela sua ingenuidade, fazem com que todos os insignificantes movimentos (mostrando desprezo), a que os inimigos do regime, ou melhor, a que todos os inimigos do país chamam greves, caiam por terra.

2.º Polícia

– Talvez esses Srs. Se sintam muito felizes em chamar greve a um tal movimento. Devemos ter pena deles. No fundo, não passam de uns falhados.

Rapaz

(Roda sobre si sem se levantar nem mexer a cadeira, e, olhando para o 2.º Polícia, esboça um pequeno sorriso).

Chefe

– De que ri o Senhor?

Rapaz

– (Virando-se para o Chefe) Estou a pensar se aquilo que aquele Senhor disse (aponta-o sem o olhar) é um pensamento ou um desejo.

Chefe

– Porquê? Não concorda com o que ele disse?

Rapaz

– Felizmente para o regime que os Srs. defendem, há muitos que se dizem seus inimigos e que não passam de heróis à custa dos outros.

Chefe

– Se os há, o regime não se serve deles!

Rapaz

– Pois não. Conta com eles.

Chefe

– (Olha o Rapaz. Silêncio) Voltamos ao que diz o seu «muito querido amigo», se não se importa. Sinceramente, pergunto a mim mesmo como é que um jovem como você pode ser amigo dum suíno que escreve coisas destas (ergue a folha com o poema).

– É capaz de me dizer que ideias políticas são as dele?

Rapaz

– Na minha opinião, o que o Senhor tem a fazer é perguntar-lhe.

Chefe

– (Gritando) Eu faço o que muito bem entendo, seu … meu caro amigo. Julga você que eu me rebaixo a falar com animais da igualha deste seu amigo?

Rapaz

– Está a falar comigo, que sou amigo dele.

Chefe

– Ah!, sentiu-se ofendido?!

Rapaz

– (Sorrindo) Não o julgo capaz de me ofender.

Chefe

– Também não é o que pretendo. Quero é fazer-lhe compreender a si que deve tomar cuidado com estes ranhosos. É missão dos mais velhos, e uma das missões para que esta polícia foi criada, orientar os jovens como você nos caminhos do bem e da justiça, ou melhor, no verdadeiro caminho pois é dos jovens que o futuro do país depende (pausa). Mas não posso deixar de me irritar ao ver que canalhas como este seu amigo tentam destruir a nossa obra, impingindo doutrinas que não compreendem nem podem compreender, servindo-se de todos os estratagemas, fingindo amizade…

Rapaz

– (Rápido) Acho que fui muito claro ao dizer-me amigo desse Senhor e em tê-lo como meu amigo, afirmação que mantenho.

Chefe

– Não defenda canalhas como ele! Como é que este merda, este filho de puta…

As luzes que iluminam esta sala iluminam-se e, ao mesmo tempo, um projector ilumina o rosto do Rapaz, que se levanta, olhando o fundo da sala, indo lentamente sentar-se na poltrona em frente do painel, onde já se encontrará o Escritor, com cerca de 50 anos e em mangas de camisa. Logo que o Rapaz se senta, o foco desaparece e esta cena passará a ser iluminada. Perto de ambos, uma mesinha com bebidas e cigarros de que se vão servindo. Devem dar a ideia de que a conversa não se inicia neste momento.

Escritor

– … costumam também fazer isso, mas, ao contrário do que até há bem pouco tempo faziam, os insultos não dirigidos ao interrogado mas a alguém com ele relacionado e para já não falarmos das tais perguntas feitas como se não tivessem qualquer importância e que, para eles, são as mais importantes.

Rapaz

– E têm tramado alguém por esse processo?

Escritor

– Parece que sim. Algumas das pessoas que têm caído na armadilha são bastantes inteligentes.

Vem a propósito um destes casos que se passou com um amigo meu, também escritor. No último interrogatório que lhe fizeram e como não tivessem obtido ainda qualquer declaração, começaram com insultos indirectos, indo ao ponto de lhe dizerem que, enquanto o interrogavam, a mulher se encontrava em sua casa nos braços do amante e feliz com a prisão do marido.

Rapaz

– E qual foi o resultado?

Escritor

– Este meu amigo sabe que a esposa seria incapaz de tal com portamento mas o seu sistema nervoso já não aguentou mais e a sua reacção foi atirar-se ao pescoço do polícia. Resultado: todos aqueles brutamontes lhe saltaram em cima aos socos e pontapés, deixando-o num mísero estado. Como este caso há muitos e, a meu ver, a primeira atitude a tomar-se, quando se tem a infelicidade de ser preso por motivos políticos, é proceder como se se estivesse ali por engano e não esquecendo que os insultos de tal gente não podem atingir-nos, pois que por mais atolados em merda que nós estejamos eles estão sempre muito mais.

Rapaz

– Estou inteiramente de acordo. Penso que todos devem preparar-se contra as armadilhas – e quão diferentes elas serão! – a que estamos sujeitos. A melhor maneira de o fazer é todos tomarmos conhecimento destas pequenas coisas que, aparentemente, nada são.

Escritor

– Pois é!… Sabes mais alguma coisa da greve dos pedreiros?

Rapaz

– Pouco mais e o que já é habitual. Depois de terem distribuído pancada por todos os operários, obrigaram-nos a voltar ao trabalho tendo, primeiro, prendido três ou quatro dos mais activos que arruinam da maneira que sabemos: -orendem-nos durante alguns anos e os patrões põem as suas famílias fora das casas que lhes haviam alugado.

Escritor

– E eu e alguns colegas, ainda estudantes universitários, a pensarmos que, mortos Hitler e Mussolini, não demoraria muito tempo para que ficássemos definitivamente livres do fascismo.

Rapaz

– Para isso é necessário que o governo deixe de ser auxiliado pelos países que todos bem sabemos e que não nos cansemos de lutar.

Escritor

– Por agora teremos de nos contentar com a nossa luta e fazermos com que cada qual deixe de puxar para seu lado.

Jogo de luzes semelhante ao anterior, embora mais rápido, iluminando-se a sala da polícia logo que o Rapaz se senta na cadeira.

(Conclui na próxima semana)

Leave a Reply