O OE DE 2014 É UMA BOMBA DE NEUTRÕES – por Mário de Oliveira

MANCHETE DO JF, edição 91, Outubro 2013

Já nos faltam as palavras para classificar este Governo

Já nos faltam as palavras, para classificar este Governo, esta maioria CDS/PP-PPD/PSD que a suporta no Parlamento, e este Presidente Aníbal que continua a dar-lhe a sua confiança institucional. É um Governo compulsivamente mentiroso, politicamente cínico e obsceno. O mais cínico e o mais obsceno deste início do terceiro milénio. Nem o famigerado José Sócrates, agora guindado a comentador político semanal, na RTP – o crime institucional compensa e é, até, premiado! – se atreveu a ir tão longe. Tudo o que é trabalhador por conta de outrem, ou pequeno empresário, em Portugal, é para abater. Tudo o que é reformada, reformado, viúva, viúvo, doente crónico, portador de deficiência, é para roubar, matar e destruir. Seremos um país europeu, finalmente, liberto da famigerada Troika, porque já sem mulheres, homens, todos tidos como excedentários. PauloPortas, PassosCoelho e AníbalCavacoSilva, quais novos Hitler ressuscitado, estão determinados a limpar o país de todos quantos teimamos em não emigrar, em continuar a fazer despesa com a saúde, com a educação e com a cultura. O Orçamento do Estado para 2014, que está a ser elaborado em sigilo, é uma bomba de neutrões, essas bombas selectivas, que só matam as velhas, os velhos, as reformadas, os reformados, as viúvas, os viúvos, as desempregadas, os desempregados, as jovens licenciadas, à excepção das acompanhantes de luxo dos executivos do Poder, os jovens licenciados, as crianças e as, os jovens com incapacidade que insistem em estar vivos.

Quando até os Bispos portugueses, sempre tão unha e carne com a monarquia, depois, com o regime ditatorial de Salazar e com todos os Governos de direita, fazem soar o alarme e advertem publicamente este Governo tão social-democrata e tão democrata-cristão de PauloPortas-PassosCoelho e este Presidente AníbalCavacoSilva, tão sacristão de todos eles, é porque até eles começam a ver os seus privilégios de casta em risco. Sem reformadas, reformados, sem velhas, velhos, sem doentes acamados, sem desempregadas, desempregados a quem dar a sopa dos pobres, sem incapacitadas, incapacitados e portadores de deficiência e sem crianças, o que vai ser das suas inúmeras IPSS espalhadas pelo país, das suas catequeses de fim-de-semana, e das suas missas ao domingo? Deixarão de ter clientes. E terão de fechar portas e ir pregar para outras zonas do mundo onde ainda houver pobrezinhos que careçam da sua caridadezinha, ao jeito de Madre Teresa de Calcutá, a canonizada pelo maior fabricador de santos, o Papa João Paulo II, ele próprio em vésperas de ser canonizado também, mas agora pelo Papa Francisco!… Uma rebaldaria sagrada e cristã, pois então!

Este Governo e esta Europa do Euro, o único Deus dos executivos das nações, não sabem o que são entranhas de mãe e de pai. São todos executivos aprendizes de PauloPortas, o cínico político, irrevogavelmente, cínico. Por isso, cruel. Nisso, o nosso país, pode ter orgulho. Temos um vice-primeiro ministro com poderes de primeiro-ministro, que é o mestre de todos os executivos do Poder. O próprio Maquiavel, o do “Príncipe”, à sua beira, é um mero aprendiz. ÃngelaMerckel, a mulher mais poderosa da Europa do Euro, tem no PauloPortas português, a sua referência última. Nem precisam, ela e ele, de assinar papéis, para serem uma só carne, nesta união de facto político-financeira, onde não entra sexo, que o Euro não tem sexo. E onde não entram afectos, que o Euro não tem afectos.

Nisto estamos. Um país e uma Europa sem Amanhã, porque cada vez mais sem Hoje. Vinte séculos de cristianismo, o de S. Paulo e de S. Constantino, imperador de Roma – como é que ainda o não canonizaram?! –  conduziram-nos a este abismo. Recusamos, insensatamente, Jesus e o seu Projecto político maiêutico. E escolhemos, em seu lugar, Barrabás e o seu mítico Cristo davídico, o Poder invicto, e, agora, vemo-nos esmagados pelo Poder financeiro global e pelos seus mercados. Somos todos classificados como excedentários e temos de ser todos cremados vivos. Jesus bem nos alerta, desde há dois mil anos. “A pedra que os construtores rejeitaram, tornou-se a pedra angular”. Tudo o que edificamos, nestes dois mil anos, está, por isso, à beira de soçobrar. Falta-lhe a pedra angular, que é Jesus, com o seu Projecto político maiêutico. Falta-lhe Deus Abba-Mãe, o único que recusa sacerdotes e todo o tipo de intermediários, religiosos e laicos. Porque é mais íntimo a nós que nós próprios. Para que todos e cada uma, cada um, sejamos protagonistas da história, criadores de uma sociedade, finalmente, organizada ao modo dos vasos comunicantes.

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