MANCHETE DO JF, edição 91, Outubro 2013
Já nos faltam as palavras para classificar este Governo
Já nos faltam as palavras, para classificar este Governo, esta maioria CDS/PP-PPD/PSD que a suporta no Parlamento, e este Presidente Aníbal que continua a dar-lhe a sua confiança institucional. É um Governo compulsivamente mentiroso, politicamente cínico e obsceno. O mais cínico e o mais obsceno deste início do terceiro milénio. Nem o famigerado José Sócrates, agora guindado a comentador político semanal, na RTP – o crime institucional compensa e é, até, premiado! – se atreveu a ir tão longe. Tudo o que é trabalhador por conta de outrem, ou pequeno empresário, em Portugal, é para abater. Tudo o que é reformada, reformado, viúva, viúvo, doente crónico, portador de deficiência, é para roubar, matar e destruir. Seremos um país europeu, finalmente, liberto da famigerada Troika, porque já sem mulheres, homens, todos tidos como excedentários. PauloPortas, PassosCoelho e AníbalCavacoSilva, quais novos Hitler ressuscitado, estão determinados a limpar o país de todos quantos teimamos em não emigrar, em continuar a fazer despesa com a saúde, com a educação e com a cultura. O Orçamento do Estado para 2014, que está a ser elaborado em sigilo, é uma bomba de neutrões, essas bombas selectivas, que só matam as velhas, os velhos, as reformadas, os reformados, as viúvas, os viúvos, as desempregadas, os desempregados, as jovens licenciadas, à excepção das acompanhantes de luxo dos executivos do Poder, os jovens licenciados, as crianças e as, os jovens com incapacidade que insistem em estar vivos.
Quando até os Bispos portugueses, sempre tão unha e carne com a monarquia, depois, com o regime ditatorial de Salazar e com todos os Governos de direita, fazem soar o alarme e advertem publicamente este Governo tão social-democrata e tão democrata-cristão de PauloPortas-PassosCoelho e este Presidente AníbalCavacoSilva, tão sacristão de todos eles, é porque até eles começam a ver os seus privilégios de casta em risco. Sem reformadas, reformados, sem velhas, velhos, sem doentes acamados, sem desempregadas, desempregados a quem dar a sopa dos pobres, sem incapacitadas, incapacitados e portadores de deficiência e sem crianças, o que vai ser das suas inúmeras IPSS espalhadas pelo país, das suas catequeses de fim-de-semana, e das suas missas ao domingo? Deixarão de ter clientes. E terão de fechar portas e ir pregar para outras zonas do mundo onde ainda houver pobrezinhos que careçam da sua caridadezinha, ao jeito de Madre Teresa de Calcutá, a canonizada pelo maior fabricador de santos, o Papa João Paulo II, ele próprio em vésperas de ser canonizado também, mas agora pelo Papa Francisco!… Uma rebaldaria sagrada e cristã, pois então!
Este Governo e esta Europa do Euro, o único Deus dos executivos das nações, não sabem o que são entranhas de mãe e de pai. São todos executivos aprendizes de PauloPortas, o cínico político, irrevogavelmente, cínico. Por isso, cruel. Nisso, o nosso país, pode ter orgulho. Temos um vice-primeiro ministro com poderes de primeiro-ministro, que é o mestre de todos os executivos do Poder. O próprio Maquiavel, o do “Príncipe”, à sua beira, é um mero aprendiz. ÃngelaMerckel, a mulher mais poderosa da Europa do Euro, tem no PauloPortas português, a sua referência última. Nem precisam, ela e ele, de assinar papéis, para serem uma só carne, nesta união de facto político-financeira, onde não entra sexo, que o Euro não tem sexo. E onde não entram afectos, que o Euro não tem afectos.
Nisto estamos. Um país e uma Europa sem Amanhã, porque cada vez mais sem Hoje. Vinte séculos de cristianismo, o de S. Paulo e de S. Constantino, imperador de Roma – como é que ainda o não canonizaram?! – conduziram-nos a este abismo. Recusamos, insensatamente, Jesus e o seu Projecto político maiêutico. E escolhemos, em seu lugar, Barrabás e o seu mítico Cristo davídico, o Poder invicto, e, agora, vemo-nos esmagados pelo Poder financeiro global e pelos seus mercados. Somos todos classificados como excedentários e temos de ser todos cremados vivos. Jesus bem nos alerta, desde há dois mil anos. “A pedra que os construtores rejeitaram, tornou-se a pedra angular”. Tudo o que edificamos, nestes dois mil anos, está, por isso, à beira de soçobrar. Falta-lhe a pedra angular, que é Jesus, com o seu Projecto político maiêutico. Falta-lhe Deus Abba-Mãe, o único que recusa sacerdotes e todo o tipo de intermediários, religiosos e laicos. Porque é mais íntimo a nós que nós próprios. Para que todos e cada uma, cada um, sejamos protagonistas da história, criadores de uma sociedade, finalmente, organizada ao modo dos vasos comunicantes.

Sensacional este artigo -obrigada . Maria