A TERRA IMORTAL*, por ANDRÉ BRUN

1881 - 1926
1881 – 1926

Aos alferes Michaud e Mercwell, do Exército

Francês, camaradas queridos.

III

Abro a porta do meu abrigo. Defronte há um largo pasto que só espera que voltem as vacas cinzentas de outrora. As árvores da beira do dreno estão cobertas de verdura. Os ramos cortados pelas balas das metralhadoras pendem com uma certa garridice e certa graça. O grande azinheiro, que uma granada feriu em cheio, enfeitado como está pelos seus rebentos novos, parece um mutilado de flor ao peito. O céu azul é tão tranquilo e firme que o avião boche que passeia é um pássaro a mais naquela serenidade. A granada que passa lá em cima e que vai matar não sei aonde é um zumbido em que se não repara.

A terra removida à minha porta para compor o pára-estilhaços trouxe consigo para a sua prisão de taipais as suas sementes, e oito dias bastaram para a encher de alegria e fazer dela um canteiro. Entalado entre dois sacos de terra pende do meu telhado um tufo de gramíneas ténues como uma penugem, que a aragem agita como cabelos soltos de mulher. O meu cão estira-se ao sol. Em cima de um fio telefónico pousa um pardal e põe-se de conversa com um parceiro que saltita sobre as passadeiras. Tenho pena de os não entender nesta manhã gloriosa e soberba, pois são os pequenos que melhor sabem falar das cousas grandes, e, inconscientemente, ponho-me a cantar uma toada de Portugal.

Circulam os soldados. Puseram-se em mangas de camisa e todos trazem no rosto o contentamento da terra que pisam. Logo, quando a noite cair e o perigo se avizinhar, as sombras e a ameaça farão de bronze aquelas faces rudes. Agora são homens que vivem da vida que a grande mãe carinhosa lhes empresta. Crêem em si próprios, existem e cismam em mil pequenas tarefas que lhes lembrem o tempo em que não escravos deste pesadelo. Alguns cantarolam como eu. Interpelam-se de longe, gracejam e falam de cousas fúteis, os pés sobre os mortos que defenderam outrora a terra que eles hoje defendem.

O vento faz ondear as ervas húmidas do pasto, traz-nos ao rosto uma carícia forte a que vamos abrindo gostosamente os pulmões, e um aroma campesino que haurimos com sofreguidão. A ideia da guerra desaparece e é com surpresa nossa que aos ouvidos nos ressoam de súbito as detonações das nossas baterias. Que será aquilo? E por muito que aquele estridor nos queira perturbar, o nosso espírito embebe-se deliciosamente na canção formidável que toda a Terra murmura no pipilar dos seus pardais, no ramalhar das suas árvores; no grande frémito que passa e faz ondear as ervas da pâture abandonada.

*IN A MALTA DAS TRINCHEIRAS, MIGALHAS DA GRANDE GUERRA, 1917 – 1918.

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