Mesquitela Lima, “A poética de Sérgio Frusoni. Uma leitura antropológica” do poeta cabo-verdiano – por Manuel Simões

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Território de Cabo Verde, é como consideramos este espaço diário de apoio à inclusão da morna na lista do Património Imaterial da Humanidade que a UNESCO patrocina. O número de leitores em Cabo Verde, tem vindo a aumentar. Não sabemos quantos cabo-verdianos nos seguem noutros países

Porém, seria extremamente redutor apenas apresentar aqui diariamente vídeos com mornas. Até porque a UNESCO pode demorar cinco anos ou mais a tomar a decisão e não sabemos se conseguimos reunir as gravações disponíveis para preencher dois mil posts (ou mais!). Por isso, e conforme já temos feito, vamos publicar artigos sobre temas relevantes para o País. Esta morna cantada pelo inimitável Bana – já a apresentámos antes – mas relaciona-se com o excelente estudo do argonauta e Professor Manuel Simões, pois tem letra de Sérgio Frusoni –  UMA VEZ SAO CENTE ERA SABE – canta Bana.

A apresentação deste volume (Lisboa, ICALP-Ministério da Educação, 1992) é susceptível de induzir em erro o leitor, sobretudo a partir do título eImagem1 da indicação do autor. Tais elementos, com a sua inevitável evidência, levam-no certamente a concluir que se trata de um ensaio de Mesquitela Lima, seguindo uma perspectiva antropológica, sobre a poesia de Sérgio Frusoni (1901-1975), poeta cabo-verdiano quase desconhecido, quando afinal, tendo em conta a própria organização interna, a dimensão das diferentes partes e o que parece ser a verdadeira intenção do organizador, se descobre com surpresa que o volume se destina essencialmente a revelar o corpus poético, ainda inédito, de Frusoni (pp. 47-295) e é acompanhado por um estudo do que aqui figura como autor (pp. 15-46). Sem efectuar extrapolações indevidas, seguindo apenas os critérios de edição consolidados  e considerando a titulação do próprio poeta, seria mais correcto e mais transparente conceder a Sérgio Frusoni o lugar que lhe compete, respeitando até o título escolhido pelo poeta (“San Vicente Crioulo”) para a sua colectânea de poemas.

Feita esta premissa, diga-se que a publicação deste volume constitui uma operação cultural de grande relevância, tanto mais que aqui se reúne a produção poética de um autor que, embora nascido em S. Vicente no princípio do século, era filho de italianos e com laços profundos em relação à cultura italiana, quanto mais não seja pelos períodos de tempo vividos em Itália (1920?-1925; 1931-1947), alguns dos quais certamente significativos e influentes na formação cultural do nosso poeta. Surpreendente, por isso, é o facto de S. Frusoni ter produzido o seu corpus poético em crioulo de S. Vicente – além destes poemas, há a referir a obra”Vangêle Contód d’Nôs Móda”, espécie de versão poética do Evangelho, publicada pelos Capuchinhos Italianos com prefácio de Luís Romano -, sendo igualmente de sua autoria as traduções para português. Além disso não é menos surpreendente a ausência de eventuais “modelos” italianos, visto que a poética de Sérgio Frusoni, se exceptuarmos os sonetos e um ou outro caso sem o envolvimento prevalente da entropia local, é um produto que esteticamente dá continuidade à poesia narrativa de tradição popular, isto é, a poesia romance ligada, porém, à crónica minuta do corpo social. Neste sentido, frequentes são os exemplos de poesia dialogada, construída a partir de personagens (figuras) que apresentam o seu ponto de vista e que, relativamente à estrutura, se organizam através de “vozes” encadeadas. Mesquitela Lima chama-lhes com frequência «estória-anedota», certamente pela surpresa naïve do desfecho, que resolve a justaposição das formas discursivas, embora este processo não esteja ausente de muitos romances da tradição lírica peninsular, transposta para as áreas lusófonas do Brasil e dos arquipélagos atlânticos, e seja uma componente não transcurável das técnicas da poesia popular.

De particular interesse é a parte do estudo de Mesquitela Lima que se refere à questão linguística, apresentada sobretudo no capítulo “A designação ‘crioulo’” (pp. 23-29), até por se tratar de problema complexo, já objecto de algumas propostas nem sempre marcadas por critérios científicos e, o mais das vezes, conotadas por perspectivas de índole política. Tem razão, por isso, o estudioso quando refere que «em relação ao dito ‘crioulo de Cabo Verde’, muitos autores tentaram explicações, mas parece-me que uma certa ambiguidade sempre prevaleceu […] na definição da sua identidade como língua e na caracterização da sua especificidade relativamente aos troncos linguísticos que lhe deram origem – o português e certas línguas da Costa da Guiné (no seu sentido lato)»(p. 24). Partindo da análise do processo de formação e do sistema independente em relação aos ramos de origem, Mesquitela Lima propõe que se abandone a terminologia, ainda em uso, de «dialectos crioulos» (ultimamente substituída por «línguas crioulas») e se conceda ao chamado “crioulo” o estatuto de língua cabo-verdiana. Parece-me que a sua proposta é pertinente, considerando a evolução sócio-linguística de Cabo Verde, embora, em termos de aplicação, aquele estudioso acabe por produzir um discurso não isento igualmente de ambiguidade. Com efeito, já no primeiro capítulo (”Sérgio, o ‘crioulo’ e S. Vicente”) refere que todos ou a maior parte dos poemas é «escrita em crioulo (de S. Vicente)» (p. 16) para logo a seguir precisar: «não quis deixar de respeitar a maneira como o poeta escreveu o linguajar de S. Vicente» (p. 17). Idêntica indecisão se nota no capítulo “O poeta e o ‘crioulo’” onde, para caracterizar a mesma realidade linguística, usa nada menos do que quatro termos: «escreveu em crioulo, quer dizer, em língua cabo-verdiana, mais concretamente, em linguajar da Ilha de S. Vicente de Cabo Verde. […] Eu próprio, apesar de falar bem o dialecto de S. Vicente […] acabei por respeitar a maneira de escrever o ‘crioulo’ do poeta» (p. 21). É verdade que Mesquitela Lima é um antropologista mas tal circunstância não contraria a exigência de maior rigor terminológico ou, no caso específico, de simples coerência. No entanto, a sua proposta de fundo parece-me válida e apoiada em sólidos fundamentos científicos.

Quanto à «leitura antropológica» para que nos remete o subtítulo do volume, encontramo-la essencialmente no capítulo “Conteúdo e significado de alguns poemas” (pp. 41-46) – síntese apreciável de uma análise que estabelece os pontos de sutura entre a poesia de Sérgio Frusoni e o quotidiano da cidade de Mindelo – e sobretudo nos inúmeros comentários aos poemas onde o estudioso revela profundamente a sua qualidade de etnólogo e o conhecimento concreto do contexto social, numa simbiose que ultrapassa a simples ilustração da obra poética para, a partir dela, produzir um discurso onde transparecem os mitos, os ritos ou outros elementos distintivos da cultura cabo-verdiana.

(Texto publicado, com variantes, na revista “Rassegna Iberistica” (Veneza), Junho de 1994)

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