O DESAFIO DA DEFLAÇÃO NA EUROPA, por DESMOND LACHMAN

Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

Aos leitores de A Viagem dos Argonautas.

Um texto curioso a merecer ser lido com muita atenção. Uma lição da economia dada à Europa por um  clube dos empresários americano. Não deixa de ser curiosa a lição  e muito bom seria  que esta fosse ouvida. Mas na Europa os ouvidos estão fechados ao bom-senso. Lamentavelmente.

Júlio Marques Mota

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O desafio da deflação na Europa

Desmond Lachman

Uma fácil liquidez global assente na  flexibilização quantitativa nos Estados Unidos tem mascarado a deflação e a vulnerabilidade da dívida pública na periferia Europeia, e o Banco Central Europeu mostra poucos sinais de procurar adoptar políticas que enfrentem estas ameaças.

Na sequência da mais longa recessão económica do pós-guerra da Europa, o espectro da deflação está agora a ensombrar  a Grécia, Irlanda, Itália, Portugal e a Espanha. Mas o Banco Central Europeu (BCE) mostra poucos sinais de prosseguir uma política monetária mais acomodatícia que poderia levá-lo a poder enfrentar o desafio de deflação dos países ditos da  periferia. A inacção do BCE, juntamente com a complacência dos responsáveis políticos europeus, em geral, é lamentável — se a deflação assenta arraiais na periferia da Europa, isto tornará a resolução da crise de dívida soberana em curso na Europa muito mais difícil.

Os últimos dados sobre a evolução dos níveis de  preços ao consumidor europeu deixam pouco espaço para dúvidas de que a economia europeia já está claramente num processo de desinflação. De acordo com o Eurostat, a taxa de inflação europeia global caiu  mais de metade, de 2,6% no ano que terminou em Setembro de 2012 para 1,1% no ano que terminou em Setembro de 2013. Mais preocupante ainda, os números mais recentes sobre  inflação indicam que os preços ao consumidor estão a cair  agora na Grécia, enquanto países como a Irlanda, Portugal e Espanha estão todos agora à beira da deflação dos seus  preços.

A rápida desaceleração na inflação europeia não é nada surpreendente, dadas as grandes diferenças,  quer ao nível  do PIB, entre o PIB potencial e o efectivo,  quer ao nível  mercado de trabalho, mão-de-obra utilizada e  nível de pleno emprego,  que actualmente caracterizam a economia europeia. Cinco anos depois da crise do Lehman Brothers, a economia europeia  ainda não conseguir recuperar de modo a voltar a atingir  o valor do PIB antes de 2008, enquanto o desemprego na Europa em geral permanece agarrado  a uma taxa recorde de 12 por cento. Enquanto isso, a diferença entre o PIB potencial e o efectivo em  países como Itália e Espanha está agora a ser muito mais do que 10 por cento e o desemprego na periferia europeia está  consideravelmente acima da alta  média europeia.

A perspectiva para uma maior  desaceleração da inflação europeia é tão demasiadamente real dadas as fracas perspectivas económicas da Europa e dada a força presente do euro. Com os países da periferia europeia ainda a terem necessidade de  prosseguir a política de austeridade orçamental no contexto de uma crise de crédito interna  em curso, é difícil ver como é que a Europa pode perspectivar  uma forte recuperação económica. E na ausência de uma forte recuperação, é de esperar que a periferia europeia continuará a ser caracterizada pela existência de uma grande diferença entre o PIB potencial e o PIB efectivo, entre o volume de pleno emprego e o volume de gente empregada, dados   que irão exercer mais significativa pressão no sentido da  baixa sobre os salários e preços.

Como a experiência dos japoneses nas últimas duas décadas o atestam, a deflação pode constituir o mais forte dos ventos contrários para a recuperação económica. Não só a desinflação incentiva  os consumidores a retardar as despesas de atraso, como também tem o efeito de aumentar a carga real da dívida do sector privado e de levantar o real custo dos empréstimos. Isto parece ser a última coisa de que precisa uma economia da chamada periferia da Europa em dificuldades.

Um aspecto particularmente problemático da deflação no contexto europeu é que isto  limita a capacidade de países como a Irlanda, Itália e Portugal de  reduzir os encargos da dívida pública. Todos estes países têm rácios de dívida pública de cerca de 125 por cento do PIB e ainda estão a ter défices orçamentais superiores a níveis compatíveis com os rácios de estabilização. Uma recuperação económica anémica no melhor dos casos, conjuntamente com um movimento dos preços no sentido da deflação, tudo isto aumenta a possibilidade muito real de estagnação de crescimento do PIB nominal em toda a periferia. E com uma  tal perspectiva torna-se  difícil ver como é que os  países da periferia podem posicionar-se em termos de dívida pública numa trajectória de maior sustentabilidade  .

Não somente a deflação incentiva  os consumidores a retardar as suas despesas como também tem o efeito de aumentar a carga real da dívida do sector privado e de fazer aumentar o custo real custo dos empréstimos.

A taxa de inflação geral na Europa  é agora aproximadamente metade da taxa que o  BCE considerava como seu objectivo, ou seja,  “perto de, mas abaixo de 2 por cento.” Isso torna difícil compreender a demora do BCE em reduzir ainda mais as suas taxas e em comprometer-se em  manter estas taxas de juro verdadeiramente políticas em valores próximos de zero e  por um período de tempo considerável. Este parece ser o mínimo que o BCE deveria  fazer agora, tendo em conta os riscos de deflação muito real na periferia e o facto também de que é enorme o gap entre o PIB potencial e o real, como o é entre o nível de pleno emprego da força de trabalho e o volume de gente empregue, diferenças estas que é muito  provável que persistam em muitos países da área do euro.

Igualmente difícil de entender é o facto de que os responsáveis políticos europeus parecem  indiferentes face  à crise de crédito que atravessam e  que continua a afligir a periferia e que persiste em reduzir a possibilidade da periferia se poder lançar numa retoma significativa das suas economias. O crédito bancário continua a diminuir a um ritmo significativo em todos os países periféricos, enquanto as pequenas e médias empresas da região que têm acesso ao crédito pagam taxas de juros que são substancialmente superiores às que são pagas  pelas empresas dos países do núcleo duro da Europa.

Ainda, apesar do reconhecimento pela parte do BCE do mau funcionamento do seu mecanismo de  transmissão monetária, o BCE não aparece com nenhumas iniciativas para resolver este grave problema. Pior ainda, os responsáveis políticos europeus parecem incapazes de assumir  a vontade política para  avançarem mais rapidamente para uma união bancária que pode oferecer a esperança de finalmente acabar com a crise de crédito.

No ano passado, as condições de fácil liquidez global associadas à  flexibilização quantitativa nos Estados Unidos ajudaram a mascarar a vulnerabilidade da dívida pública em curso na periferia Europeia. Os responsáveis políticos europeus não devem contar com a manutenção das mesmas  condições de liquidez e devem agir enquanto o podem fazer para conseguir que o crédito flua novamente nos países da periferia da Europa.

Desmond Lachman Europe’s Deflation Challenge,  American Enterprise Institute

Desmond Lachman is a resident fellow at the American Enterprise Institute.

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