A SEGUNDA GRANDE DEPRESSÃO – PORQUE É QUE A CRISE É PIOR DO QUE PENSÁVAMOS, de J. BRADFORD DELONG – II

Selecção de Júlio Marques Mota. Tradução de Flávio Nunes.

J. Bradford DeLong

Julho de  2013

(continuação)

Doentes pacientes, médicos maus

Alguns argumentarão que estou a assumir a pose do Dr. Gloom. Eles provavelmente estarão enganados. Por um lado, o mercado de títulos dos EUA concorda com a minha avaliação. Desde 1975, o rendimento dos títulos do Tesouro a 30 anos têm, em média,   2,2p.p. acima dos  títulos do Tesouro de curto prazo. Dado que a rentabilidade actual dos títulos do Tesouro a 30 anos rende 3,2% ao ano, o participante típico do mercado financeiro prevê que a curto prazo as taxas de títulos do Tesouro irá pagar juros a uma média de apenas  1% ao ano, no decorrer da próxima geração. A Reserva Federal (FED) mantém a taxa de títulos do Tesouro de curto prazo a esse nível baixo somente quando a economia está deprimida – quando a capacidade de protecção potencial é superior à produção efectiva, quando há trabalho por empregar e o principal risco é a deflação. Desde a II Guerra Mundial, sempre que o rendimento dos títulos do Tesouro de curto prazo  era  de 2% ou inferior, a taxa de desemprego nos EUA era em  média de 8%. Esse é o futuro do mercado de títulos conforme se vê na bola de cristal: a economia estagnada e deprimida, talvez, por toda a próxima geração.

Enquanto isso, salvo uma profunda revolução ao nível do pensamento (ou pessoal) da FED e do Congresso dos EUA, as chamadas políticas activistas,  tais como as compras de activos ao nível de vários milhões de milhões  ou os investimentos em larga escala e de forma sustentada em  infra-estruturas, não vão  ser postas em prática para resgatar a economia. Os decisores das políticas  estão igualmente  preocupados com o aumento da dívida do governo dos EUA. As suas preocupações, naturalmente, estão agora verdadeiramente deslocadas, como muito bem o compreende Blinder. Ele partilha o consenso dos economistas que se baseiam na realidade e para quem o acumular de  dívidas – embora através da compra de títulos do governo pela FED ou por meio da emissão pelo Tesouro dos  EUA – não é o mais grave problema da economia dos EUA, tanto quanto   as taxas de juros permanecem baixas.

Os falcões do défice parecem ter esquecido o princípio básico da gestão macroeconómica: cuja a função do governo é a de garantir que existem quantidades suficientes de disponibilidades líquidas, activos seguros e veículos financeiros de poupança. Nos últimos sete anos, este princípio tem sido pura e simplesmente ignorado. A maioria dos membros com direito a voto no  Federal Open Market Committee, que supervisiona a compra e a venda de títulos do governo pela FED, acreditam que esta já estendeu as suas políticas (fortemente expansionistas), para além dos limites da prudência. Blinder discorda e com razão: “os falcões da FED parecem mais preocupados com a inflação que podemos vir a ter  do que com  o desemprego elevado que estamos a ter.  Eu estou a torcer pelas pombas.”

Pior ainda é a atitude do Congresso dos EUA. ” A confusão à volta do  orçamento dos EUA  está começar a ficar  Kafkaesque,” escreve Blinder, “porque o  resultado de  uma solução é tão claro: precisamos de estímulos orçamentais  modestos hoje  mas articulados  com fortes reduções do défice no futuro .” Os republicanos devem aceitar que as taxas  de tributação  sejam  maiores daqui a uma década a partir de agora, argumenta Blinder, e os democratas devem aceitar que as despesas públicas sejam menores do que o são  actualmente projectadas. Um pacote de redução do défice, talvez nos moldes do plano Simpson-Bowles (proposto por  Erskine Bowles e Alan Simpson, co-presidentes da Comissão do Presidente sobre o  défice, que combina cortes  nas despesas públicas e aumento de impostos), deve ser adoptado  no futuro defende  Blinder, mas não para já. Embora Blinder esteja a pregar  a mensagem certa, é uma pregação para uma audiência de corvos e abutres. O Congresso está a levar  a sério as  sugestões de Steve Martin’s Saturday Night Live character Theodoric of York, Medieval Barber: não importa o que é a doença, todo o paciente precisa é de uma  outra sangria (…). Neste caso, o instrumento para realizar a sangria  é a aplicação de uma  rigorosa  austeridade, que apenas coloca ainda mais pressão sobre o emprego e a produção.

(continua)

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Para ler a primeira parte deste trabalho de Bradford DeLong, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/11/20/a-segunda-grande-depressao-porque-e-que-a-crise-e-pior-do-que-pensavamos-de-j-bradford-delong-i/

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