AO REDOR DO LAROUCO – 5 – por Rui Rosado Vieira

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MARIA DO Ó

A aldeia estava assente em rochas graníticas, por isso, para abrir as valas necessárias à instalação do saneamento público houve que recorrer ao uso de explosivos.

Segundo Ti Manecas contava, Maria do Ó, viúva cinquentona, chegara ao povoado décadas atrás, vinda com o marido de uma aldeia da Beira Alta. Surda que nem uma porta, com fama de forreta, levava os dias à janela observando os trabalhos que tinham lugar no largo fronteiro à casa onde vivia sozinha há vários anos.

O empregado, encarregado do uso da dinamite, ignorava a deficiência auditiva da mulher, por isso, sempre que se aproximava o momento da explosão, gritava-lhe que se recolhesse para o interior da residência para evitar ser atingida por algum pedaço de granito desencaminhado. Recomendação que, devido à sua surdez, desrespeitava repetidamente e para a qual, o trabalhador não descortinava maneira de se ver obedecido.

O operário, homem de cidade, vivido, conhecedor das tradições das terras do interior de Portugal, em especial da discrição a que as viúvas estavam sujeitas no seu relacionamento com os homens, lembrou-se de experimentar forma original de afastar do perigo a senhora que, maravilhada com o corpo jovem e musculado do trabalhador, passava o dia a observá-lo desde a janela da sua residência.

A partir de então sempre que teve de voltar a colocar, entre as rochas, novas cargas da dinamite que haviam de abrir caminho à colocação das canalizações dos esgotos e da água, acenava-lhe com veemência, enviando-lhe, de seguida, através de gestos adequados, vários beijos na sua direcção. Acto contínuo aconteceu o que previra – a mulher que passava o dia à janela desaparecia rapidamente para o interior da sua residência.

Face ao êxito do estratagema, logo que se avizinhava novo rebentamento, o manuseador dos explosivos repetia a grotesca operação.

Contudo, a mulher ainda tinha sangue quente e não entendendo a verdadeira intenção do operário, passou a alimentar esperanças de se aproximar do homem que, com aparente ternura, lhe soprava beijos lá do centro do largo da aldeia.

Os dias passavam e a meio de uma tarde de muito calor, a viúva, deu-se conta que o trabalhador objecto das suas atenções transpirava abundantemente, em consequência dos esforços despendidos na sua actividade, considerando que era o momento oportuno para actuar.

Lá do alto da janela, após certificar-se que ninguém a observava, acenou-lhe para que se aproximasse da porta de entrada de sua casa. Ai chegado, a mulher convidou-o para que entrasse e bebesse algo que lhe mitigasse a sede.

O homem sequioso de líquidos não hesitou e penetrou na residência. Ali, para seu espanto deparou-se com a mesa posta onde se via presunto, chouriça, queijo, pão e um jarro de vinho.

Ao ver tão apetitoso e lauto petisco, o operário concluiu que não teria tempo para ingerir tão abundante repasto, dado o curto tempo de descanso do trabalho que se encontrava à sua responsabilidade.

Por tal, optou por, apressadamente, beber dois copos de vinho e meia dúzia de lascas de presunto.

Contudo, antes de regressar à rua e dada a falta de audição da viúva, aproximou-se dela o mais que pode, agradecendo com largo sorriso a surpreendente oferta e informando-a da impossibilidade de se demorar por mais tempo em sua casa.

A mulher não desistiu, não o deixando sair sem lhe segredar que podia voltar à noite, depois do trabalho, para com mais vagar preencher o estômago com as diversas vitualhas que preparara e que, para tal, deixaria a porta da rua encostada. Convite que o operário aceitou com evidente agrado.

Chegado o momento aprazado, o trabalhador, que desde há largas semanas era observado com extrema atenção a partir da janela, cumpriu a promessa voltando à casa onde Maria do Ó o esperava.

A viúva que durante anos se vestira de negro e cobrira a cabeça com lenço de igual cor, encontrava-se, agora, envergando roupa colorida e de cabeça descoberta, ali junto do jovem operário, saboreando o petisco que prepara para ambos e deleitando-se não com beijos lançados desde a rua mas com carícias recíprocas.

Aqueles encontros felizes, assegurava Ti Manecas, continuaram pelos tempos fora. Acrescentando que, ainda hoje, desaparecidos os protagonistas, cerca de meio século depois, há quem afirme saírem da velha casa desabitada sons e cheiros que, segundo tais testemunhos, só podem ser as falas de Maria do Ó e do seu companheiro e os odores dos petiscos que ela com tanto esmero cozinhava.

Ti Manecas não dava a estória por terminada sem evocar o velho provérbio que “há males que vêm por bem”. Esclarecendo que não fora a incapacidade auditiva para perceber os avisos gritados pelo operário encarregado de dinamitar as rochas e o engenho deste para superar a dificuldade e Maria do Ó continuaria triste e só como estivera até então.

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