RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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Como François Hollande se transformou num cobrador de impostos soberano

Arnaud Parienty,

Comment Hollande est devenu Taxman, blog Alternatives Économiques

Certes, ce n’est pas tout jeune. Mais on a envie de fredonner :

Let me tell you how it will be,

There’s one for you, nineteen for me,

‘Cause I’m the Taxman,

Yeah, I’m the Taxman.

Should five per cent appear too small

Be thankful I don’t take it all.

‘Cause I’m the Taxman,

Yeah, I’m the Taxman .

(If you drive a car ), I’ll tax the street

(If you try to sit ), I’ll tax your seat

(If you get too cold ), I’ll tax the heat

(If you take a walk ), I’ll tax your feet

Taxman, The Beatles

Laisse-moi te dire ce qui va se passer

Ya un pour toi, dix-neuf pour moi

Car je suis le Taxman

Oui, je suis le taxman

Si cinq pourcents te semblent peu

Sois content que je ne prenne pas tout

car je suis le Taxman

Oui, je suis le taxman

Si tu conduis, je taxe la rue

Si tu veux t’asseoir, je taxe ta chaise

Si tu as froid, je taxe la chaleur

Si tu te promènes, je taxe tes pieds

Não, não é Lennon – McCartney: esta famosa canção foi escrita por George Harrison, que aparentemente preferiu dar o seu dinheiro ao seu guru, Maharishi Mahesh Yogi, do que ao Estado britânico. O yogi em questão deixou atrás de si cerca de  US $ 300 milhões, o que pode incentivar a levantar a questão se  François Hollande não deve converter os bretões à meditação transcendental.

Depois de se tornaram milionários, e por isso mesmo, os Beatles pareciam um pouco envergonhados pelo tema desta canção. Os valores citados são  precisos: a “sobretaxa”, introduzida pelo governo de Wilson era  na verdade 95% (19-20), fazendo de Hollande um jogador menor  por comparação. E as letras reflectem o mal estar  que poderiam sentir  os cidadãos britânicos naquela altura por causa da pressão  fiscal. Note no entanto que os impostos eram na época menos de 35% do PIB, em comparação com mais de 40% hoje (e 45% na França). Observe-se  também que isso aconteceu treze anos antes desta exasperação ter levado  à eleição de Maggie Thatcher.

Porquê este mal estar fiscal?

Podemos nós desenhar um paralelo com a situação actual? Seguramente. É certo,  as velhas senhoras não apanham mais grãos de arroz à saída dos casamentos. Mas as raízes do problema são realmente comparáveis: um estado de bem-estar caro num contexto de crescimento insuficiente e de uma  elevada dívida pública. A ignorância económica da França causou estragos. Durante a campanha presidencial, Hollande, como Bayrou e Sarkozy, colocaram o acento tónico no retorno rápido aos  orçamentos equilibrados e à necessidade de desalavancagem. Como despedir  500000 funcionários, reduzir em  20% as pensões de reforma  ou deixar de reembolsar as despesas feitas em medicamentos não são  opções que   estão em cima  da mesa, foi possível daí inferir que os impostos iriam aumentar seriamente. Portanto, porque ficar-se espantado? Porque indignar-se  de repente face a  uma medida prevista  desde 2009?

Primeira resposta: o candidato Hollande  explicou que ele não iria aumentar os impostos que aumentassem  as desigualdades de rendimento, tais como o IVA. Ele tinha falado especialmente sobre taxar os mais ricos. E todo o mundo ou quase concordou em ir  dançar e imaginar-se a ouvir as queixas dos mais  ricos. Porque a maioria das pessoas quer na verdade  admitir que eles são parte da classe média. Alguns deles irão aceitar serem descritos como “abastados” ‘. Mas ‘rico’, certamente que não. Toda a gente está, pois, de acordo em  aumentar os impostos, se é para fazer pagar os ricos, isto é, os outros. Esta é a mensagem simbólica transmitida pela absurda  taxa a 75% e promete acabar com a evasão fiscal. Infelizmente, os ricos cometem  o erro de serem  poucos e de muita mobilidade. Então, é pois necessário  aumentar os impostos para todos.

Segunda resposta: o aumento de impostos é, talvez, insuportável em alguns casos. Para o saber, seria necessário uma visão de conjunto, decidir das subidas de impostos na transparência e sobretudo ter todo o esquema na cabeça. Em suma, é necessário  inverter completamente o método seguido pelo governo. Há muito tempo, o governo decidiu mudar o local imposto pago pelas empresas. Depois de um estudo sério dos serviços, parecia que ninguém veria o seu imposto aumentar em mais de 70%. Errado: alguns viram uma multiplicação por seis  vezes. Com efeito, o imposto é frequentemente formulado de forma complicada e é difícil tomar conta de todas as situações. Por exemplo, quando a evolução recente de vários  impostos  a que várias empresas estão sujeitas foi  decidida, os serviços levaram em consideração a aplicação próxima que era  a ecotaxa?

Terceira resposta: o candidato Hollande  também tinha falado de crescimento, de acabar a politica de austeridade, de rigor.  Inútil, voltar à  estupidez de impor disciplina draconiana em plena recessão, o que outros têm muito bem explicado, incluindo o OFCE. Para regressar  ao cobrador de impostos, a dívida pública britânica passou de 230% do PIB  à saída  da guerra  para  menos de 50% na década de 1970, graças ao crescimento económico mais elevado  do que o que nós temos hoje. O mecanismo é simples: a relação entre a dívida e o PIB  baixa  se o denominador aumenta mais rápido que o numerador. Sonhemos  um pouco: se a despesa pública está estabilizada, “basta” por isso que o crescimento em  valor exceda a taxa de juro para reduzir o rácio da dívida. Mais as actuais taxas de juro (o Estado contrai empréstimos a dez anos à taxa de  2,3%), chegaria um crescimento no valor de 4,3% para reduzir a dívida de 2 pontos por ano. No entanto, 4,3% não é muito difícil de obter. O potencial de crescimento a longo prazo da economia francesa é da ordem de 2% em volume. Se lhe adicionarmos 2,3% da subida dos preços temos aumentos dessa ordem.

E agora?

Não é possível recuar: não só é a aliança com os ambientalistas que não resiste, mas os problemas da França com Bruxelas seriam graves. Não é possível forçar: os prefeitos socialistas da Bretanha  não resistiriam .Não é possível andar a mexer e com pequenos remendos  na questão: tão depressa  que se crie uma  excepção e seja votada  (soube-se de passagem da existência de uma excepção para a  Córsega), toda a gente exigiria a sua excepção.

Só  resta fazer o que Hollande queria absolutamente evitar: uma verdadeira modificação da fiscalidade. Em geral, esse tipo de ideia não tem nenhuma possibilidade de ter sucesso, porque há muitas pessoas que têm medo que se toque nos seus privilégios. Mas hoje? Quem tem medo de que as coisas não mudem?

Paradoxo: a gestão delirante das  finanças públicas pelo actual governo bloqueou de  tal modo a situação que é talvez possível ganhar liberdade de acção. Isso não poderá acontecer imediatamente, claro. Mas, à medida que  o descontentamento se concentra e se fixa, será que alguém sabe?

Arnaud Parienty,   Comment Hollande est devenu Taxman, blog Alternatives Economiques, texto disponível em: Alternatives-economiques.fr/blogs/parienty/2013/10/30/comment-hollande-est-devenu-taxman/

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