EDITORIAL– OPORTUNISMO E SENTIDO DAS OPORTUNIDADES

Imagem2Agostinho da Silva,  nos seus Textos e Ensaios Filosóficos, caracteriza o oportunismo como «a mais poderosa de todas as tentações; quem reflectiu sobre um problema e lhe encontrou solução é levado a querer  realizá-la, mesmo que para isso se tenha de afastar um pouco de mais rígidas regras de moral». Nós diríamos que os oportunistas não se limitam a afastar-se “um pouco de mais rígidas regras de moral”- na realidade, eles afastam-se totalmente dos mais elementares princípios morais e das mais básicas leis da solidariedade entre os seres humanos. O oportunismo é uma evidência da imutabilidade da natureza humana – o espírito cavernícola, egoísta e cruel, sobrevive, resiste às evoluções sociais.

Há muitas maneiras de exercer o oportunismo. Os bandos que, após o Terramoto de Lisboa, com vítimas encurraladas nos destroços gemendo e clamando por auxílio, roubavam os valores que iam encontrando, viram a sua tentação premiada com a execução sumária no local do roubo. O marquês dera, nesse sentido, ordem aos militares que patrulhavam as ruínas.

Entre as ruínas de uma economia assolada por um terramoto e por um tsunami, vagueiam necrófagos, pequenos larápios, comerciantes, industriais, que, surdos aos apelos, se aproveitam da crise para explorar, para despedir sem justa causa, para ter mão de obra quase gratuita. Veja-se o post de ontem de Júlio Marques Mota:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/12/02/mercado-de-trabalho-em-portugal-muito-simples-nao-ha-foi-substituido-pela-selva-por-julio-marques-mota/

Naturalmente que o oportunismo, quando exercido por gente respeitável, gente que nada tem a ver com estes farroupilhas de bares, boutiques e pequenas lojas dos centros comerciais, quando, por exemplo, alguém recebe a informação de que deve vender ou comprar lotes de acções e, com essa informação, ganha centenas de milhares de euros, bem, neste caso, não se trata de oportunismo – mas de sentido das oportunidades. Um gestor, um empreendedor, tem de ter sentido das oportunidades. Sem esse atributo., nunca será rico.

A propósito, apesar da crise o número de gente muita rica está a subir em Portugal. Estranho, não é? Se calhar, formulámos mal a frase. Devido à crise o número de ricos aumentou, assim é que é. Por oportunismo? Claro que não – puro sentido das oportunidades.

É muito diferente. Então não é?

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