FERNANDO PESSOA POR JOÃO VILLARET – 1 – de Álvaro José Ferreira

Nota prévia:

Para ouvir os poemas de Fernando Pessoa recitados por João Villaret, há que aceder à página

 http://nossaradio.blogspot.pt/2013/11/fernando-pessoa-por-joao-villaret.html

e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.

 
Imagem2«Ninguém melhor que Fernando Pessoa documentou, em Portugal, aquele brusco trânsito operado na sensibilidade europeia, aí por alturas da Primeira Grande Guerra. E pode mesmo dizer-se que a obra de Fernando Pessoa é a expressão desse próprio trânsito, dessa própria charneira, na medida em que exprime, ao mesmo tempo, toda uma sensibilidade que se extingue e toda uma outra que, então, confusamente principia… — A propósito do modo como o Ultimatum de 1890 se repercutira na literatura portuguesa, Fernando Pessoa teve ensejo de observar que, nessa data, “Junqueiro — o de Pátria e Finis Patriae — foi a face que olha para o Futuro, e se exalta”: e “António Nobre foi a face que olha para o Passado, e se entristece”. Perante as grandes perturbações do seu próprio tempo (estas à escala europeia já que não somente nacional), Fernando Pessoa foi, simultaneamente, as duas faces. Rosto bifronte, em cujas feições a tristeza e a exaltação se interpenetram e conjugam, à sua obra estava reservado um singular destino: conhecida apenas de um círculo fiel de admiradores, durante a vida do Poeta, ver-se-ia, depois, rodeada da mais ampla e entusiástica audiência. Fernando Pessoa é, hoje, a seguir a Camões, o Poeta português mais lido, mais debatido e mais estimado, não só em Portugal, mas também nos meios culturais estrangeiros.
Reúnem-se neste disco algumas magníficas interpretações de João Villaret, que constituem um excelente panorama da poesia de Fernando Pessoa — visto que nele estão representados os heterónimos e todos os aspectos do génio multiforme do grande Poeta. Desde a concentrada e quase sibilina expressão épica dos trechos nacionalistas da Mensagem ao arrebatado movimento dos poemas de Álvaro de Campos; do lirismo profundamente intelectualizado de Fernando Pessoa, ele-mesmo, à simplicidade bucólica de Alberto Caeiro e ao recorte clássico das odes de Ricardo Reis — tudo, aqui, aparece impressionantemente animado pela voz de um dos maiores recitadores portugueses de todos os tempos.» (texto publicado na contracapa do LP “Fernando Pessoa por João Villaret”, Parlophone/VC, 1957)

Fernando Pessoa foi o poeta que João Villaret mais gravou: aos 21 poemas que compõem o álbum supracitado há que somar meia-dúzia de espécimes dispersos por outras edições discográficas, o que perfaz a bela cifra de 27. Foi graças a esse precioso acervo divulgado pela rádio que muita gente tomou contacto com a poesia pessoana.
Lamentavelmente, a rádio pública de hoje não liga patavina a João Villaret. Porquê? Falta de aptidão intelectual de quem está na direcção de programas para reconhecer o extraordinário talento e poder de comunicação do insigne recitador? Só pode ser. Mas com esse obscurantistismo é que ninguém com um mínimo de lucidez, amor à cultura e sentido de responsabilidade, poderá jamais contemporizar. Por conseguinte, e em jeito de celebração conjunta de Fernando Pessoa (no 125.º ano do nascimento) e de João Villaret (no centenário do nascimento), o blogue “A Nossa Rádio” faz o serviço público de apresentar os tais 27 poemas.

AUTOPSICOGRAFIA

Poema de Fernando Pessoa (in “Presença”, n.º 36, Coimbra: Nov. 1932; “Fernando Pessoa: Poesias”, Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Ática, 1942)
Recitado por João Villaret (in LP “Fernando Pessoa por João Villaret”, Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

 (Continua)

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