EDITORIAL – MANOEL DE OLIVEIRA E O ELIXIR DA ETERNA JUVENTUDE

Imagem2Este espaço diário é habitualmente dedicado às questões económicas, sociais ou políticas que marcam a actualidade. Hoje, vamos dedicá-lo a Manoel de Oliveira que completa 105 anos e continua a trabalhar e a ter em carteira projectos para o futuro. Na interminável saga dos despedimentos colectivos e das falências que atiram trabalhadores para o desemprego, ouvimos com frequência pessoas com pouco mais de 40 anos dizer aquela frase estereotipada – «sou demasiado novo para me reformar e muito velho para arranjar um novo emprego». Sem pôr em causa o dramatismo das situações vividas por esses trabalhadores, que não são cineastas, mas gente simples e geralmente sem qualificações,  pensamos que Manoel de Oliveira constitui uma lição que todos podemos aproveitar – a vida é para viver. Uma verdade de La Palisse que enriquecemos com um lugar-comum: parar é morrer.

Há uns quatro anos atrás, numa entrevista ao El País, Manoel de Oliveira afirmou com juvenil entusiasmo – «O filósofo Spinoza dizia que nos julgamos livres porque ignoramos que os nossos actos são comandados pelas mais obscuras forças. Ortega y Gasset, que de dia para dia mais me agrada, fala do homem e da sua circunstância. Isto define o que penso da paixão». Quando dessa entrevista, o jornalista notou sobre a secretária de Oliveira um folheto onde se explicavam as vantagens da Internet. Questionado sobre o tema, o cineasta respondeu: «Não sei se a Internet é boa. A vida moderna aumenta a capacidade mecânica sem melhorar a habilidade do homem. Antes cultivava-se a memória…» (…)«Pense nos grandes exploradores, como Cristóvão Colombo» (…) «Sem computadores, baseando-se no seu intelecto».

Na realidade, o culto da juventude é uma falácia e a afirmação de que o futuro é dos jovens, um lugar comum que com  o seu quê de óbvio – os jovens têm mais possibilidades de habitar o futuro. Mas depende de que futuro estamos a falar – Daqui por um minuto, daqui a um século? Um milénio? Daqui a um minuto, em princípio, estamos todos vivos. Daqui por um milénio, nenhum de nós o estará. Digamos antes que o futuro será dos que, recém-nascidos ou com 105 anos, estiverem vivos. Sem o comando de forças obscuras, mas condicionados pelas circunstâncias. Com o intelecto e as próteses que em cada época os seres humanos criam. Nessa entrevista, Manoel de Oliveira, disse ainda que se parar de filmar, morre. Ou seja, o que o prende à vida são os projectos que em cada minuto o fazem viver no futuro – no minuto seguinte.

Manoel de Oliveira, um ícone da cultura europeia e também uma lição de vida. Parabéns, Manoel!

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