PORQUE TINHA “UMA FORMA ESPECIAL DE AMAR”, MARIA VIOLANTE VIEIRA FOI A GRANDE IMPULSIONADORA DA UNICEF EM PORTUGAL por clara castilho

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As Associações são feitas por pessoas. Umas deixam marcas inesquecíveis, outras contribuem em tarefas mas aborrecidas e não visíveis, mas todas contribuindo para um objectivo comum.  Hoje, que é o dia da UNICEF, lembro a sua primeira presidente, Maria Violante Vieira (1915-1997). Porque é de toda a justiça. Ela, que se escondeu sempre atrás da sua humildade, que me desculpe. Mas tem de ser. E homenageio também todos os que se lhe seguiram e fazem no Comité Português para a UNICEF um trabalho exemplar, mas duro.

José Cutileiro, no blog “Retrovisor”  descreveu-a assim: “Tinha o dom de ouvir os outros, porque se interessava verdadeiramente por eles e porque raramente falava de si própria. Julgo que mantinha essa sua reserva, ou pudor, mesmo com os amigos mais íntimos. Era inteligente e generosa”.

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Lembro dela as idas às Papelaria Progresso e da Moda, que geria e onde encontrávamos sempre coisas diferentes e bonitas. Foi aí que se começaram a vender os cartões de Natal da UNICEF. E depois surgiu a associação “Amigos da Unicef”. Mas foi só em 10 de Abril de 1979 que foi oficialmente criado o Comité Português para a Unicef, onde foi sua Presidente até ao final da sua vida. Mais tarde (1995), foi uma das fundadoras da  Associação Agostinho da Silva .

Na sua minúscula casa, ao Príncipe Real, onde não conseguia reunir mais do que uns seis amigos, discretamente deixava os outros brilhar – por exemplo, o seu companheiro dos últimos anos, Agostinho da Silva e o psicanalista João dos Santos de quem era muito amiga. Lembro jantares em conjunto com muita ternura. Devo-lhe também o ter acreditado nas minhas capacidades, tendo sido ela que me encaminhou para trabalhar com João dos Santos.

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Com ela, enquanto presidente da Unicef, e quando trabalhava no Instituo de Apoio à Criança, ajudei na realização, na Fundação Gulbenkian do 1º Encontro Internacional sobre Crianças de Rua, onde foram apresentadas várias experiências sobre esta realidade, com especial relevo para “os meninos de rua do Brasil”. As duas associações voltaram a juntar-se em 1993, no  Seminário  Internacional sobre  a Criança Portuguesa no Limiar do Novo Século –  o Direito a todos os direitos; um  dos  momentos  importantes  deste  encontro  foi  a reflexão  conjunta entre a Provedoria de Justiça, o Centro de Estudos Judiciários, representantes de todos os grupos parlamentares da Assembleia da República, representantes de departa-mentos / serviços governamentais e instituições privadas.

Minha mãe, Maria Cecília Correia, publicou uma carta que lhe foi endereçada e que penso que a descreve:

“Querida Maria Violante:

Devia haver um papel muito bonito para te escrever esta carta. […] Imagina que este papel é cheio de amores perfeitos e de violetas. Imagina que cheira a Córdova numa noite de Primavera, ou a caruma numa tarde de calor. Imagina que tem o verde difícil de uma onda atravessada por uma luz que não comandamos. Que mais posso pôr aqui, bonito e verdadeiro? Coisas e coisas eu gostaria de mandar.

Maria Violante, aceita o meu nada, que é o teu tudo: estes fios invisíveis que me ligam a ti. Porquê, também não sei. Julgo que por sentir em ti uma forma especial de amar, larga e forte. Há coisas que se sabem por um código que nem escrito é, nem falado. Só pressentido.[…]  (in Correia, M.C. – Pretérito Presente, 1976, Lisboa, e.a.)

Foi esta forma de amar que ela quis alargar a todas as crianças que vêm os seus direitos ultrajados.

 

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