O alferes Norberto de Sousa, parecia ter o dom da invisibilidade, pois os diversos relatórios sobre o massacre de Xuvalu – o do comandante, o da PIDE/DGS e o levado a cabo por ordem do Estado Maior – referiam-no de passagem, mas sem colocar qualquer ênfase, positiva ou negativa, na sua actuação.
O seu pai era um abastado comerciante de Nampula, um transmontano que, munido do diploma do Curso Comercial chegara a África sem um tostão, mas com determinação e capacidade de trabalho – a chamada “vontade de vencer”. A Guerra Mundial terminara há pouco tempo e Nampula, ainda nem a dignidade de cidade tinha, mas crescia e tornava-se aos poucos num importante centro de negócios, concentrando também, estruturas militares do exército colonial, da igreja, missões estrangeiras. Empregando-se como contabilista numa sociedade tipográfica, protagonizara um estereótipo sentimental, apaixonara-se pela filha do patrão, casaram e Norberto veio ao mundo em Lisboa, mas, tinha ainda meses quando voltou para Moçambique.
Tudo o ligava àquela terra, desde as recordações da infância aos anseios e esperanças no futuro. A Portugal, apenas o ligavam papéis, certidões, coisas burocráticaas. Lisboeta acidental, nascera na Maternidade Alfredo da Costa, na freguesia de São Sebastião da Pedreira, com pai natural do Concelho de Montalegre, a mãe e os avós maternos naturais de Leiria… Nenhum dos seus papéis de identificação o relacionava com Moçambique. Mas essa era a sua pátria.
Acabado o Curso Complementar dos Liceus no Liceu Salazar de Lourenço Marques, foi para Lisboa onde se licenciou em História. Incorporado no Exército, quando voltou a Moçambique foi como militar. Xuvalu doía-lhe como um tumor. O desprezo que manifestava pelo capitão e pelo tenente era o que sentia por si mesmo.
Fora um ex-colega do liceu, um advogado ligado à FRELIMO, que o relacionara com a «Organização». Quando fora levantada a questão de executar o inspector Câncio, o miserável Câncio, o homem que concebera a “Operação Sheltox”, logo se ofereceu. E foi como se extirpasse uma parte do tumor que , no urinol do dancing Pinguim, lhe enterrou a faca no coração.